Seahawks@ 49ers: In the Run We Trust

Paulo Pereira 22 de Outubro de 2012 Análise Jogos NFL Comments

Seattle Seahawks at San Francisco 49ers

1 2 3 4 F
Seattle Seahawks 3 3 0 0 6
San Francisco 49ers 3 0 7 3 13

In the Run We Trust

Seahawks vs 49ers

Frank Gore, running back dos San Francisco 49ers sofre um tackle às mãos dos Seattle Seahawks
Fonte da Imagem: AP Photo/Marcio Jose Sanchez

Finalmente, um Thursday Night Football cheio de motivos de interesse, depois de alguns deprimentes serões, nas semanas anteriores. Um embate entre rivais de divisão, com o mesmo número de vitórias e derrotas e possuindo rosters repletos de excelentes jogadores. A partida, disputada em SanFrancisco, opunha duas equipas com estados de espírito totalmente diferentes. Os Seattle Seahawks chegavam a este jogo munidos de adrenalina, após a épica vitória sobre os New England Patriots, com o seu quarterback rookie a fazer uma declaração poderosa, nesse encontro. Por seu lado, os San Francisco 49ers, mergulhados num estado de tremenda frustração, depois da humilhante derrota sofrida no próprio estádio, frente aos New York Giants. Obrigados a engolirem o seu orgulho, com o ego dolorido, esperava-se uma reacção enérgica, frente a um rival incomodativo, com uma das melhores defesas da NFL. Dentro do próprio jogo, existiam alguns curiosos matchups. Como iria lidar o front four dos Seahawks com Frank Gore? E, do outro lado, seria Marshawn Lynch eclipsado do jogo pelo melhor duo de linebackers interiores da liga, Patrick Willis e NaVorro Bowman?

O Jogo

Há quem goste de jogos mais perfeitos, do ponto de vista estético, decorado com brilhantes passes e recepções acrobáticas, ou pontuado por corridas furiosas, devorando jardas. Outros, por seu lado, preferem jogos em que as defesas se impõem, na base do esforço árduo. Jogos onde os sacks, os tackles for loss e os hits diminuem as jardas percorridas. Eu prefiro estes últimos. Mais intensos, disputados com um ardor excessivo, são geralmente agrestes para os ataques brilharem. Aí, qualquer ganho de terreno é geralmente comemorado efusivamente, com o esforço transcendente a coroar o empenho. Este foi um desses jogos. Com poucos pontos, com inúmeros three-and-out, relativizando as estrelas no ataque e colocando os holofotes centrados nas maciças figuras da defesa. Pode ter sido pouco espectacular, no ataque, mas foi certamente um embate que não defraudou expectativas, na defesa.

Curioso foi verificar que, nos momentos decisivos, no 4º período, Jim Harbaugh optou sempre por retirar a bola das mãos de Alex Smith, preferindo a segurança de Frank Gore e do seu jogo corrido. Se, por um lado, isso revela inteligência táctica, dado que o avanço no marcador era conselheiro para evitar riscos desnecessários, a estratégia também poderá ter uma segunda leitura. E essa é pouco abonatória para o quarterback dos 49ers, que depois do péssimo jogo com os Giants, voltou a ver ressuscitados os fantasmas sobre a sua real valia. Confiará Harbaugh no seu líder, no ataque, ou iremos ver mais do mesmo no futuro, com Alex Smith relegado a um papel de mero tarefeiro, endossando a bola nos snaps ao seu running back, quando as alturas cruciais dos jogos chegarem?

 

1º Período

Início vibrante, com drives inicialmente a fazerem acreditar no sucesso mas a revelarem algumas dificuldades nas zonas mais próximas da end zone do opositor. Os Seahawks marcaram primeiro, num field goal de Steve Hauschka, de 52 jardas, terminando uma drive que mesclou o passe com a corrida, mas que deixou no final um travo amargo de desilusão. Robert Turbin falhou numa recepção, na linha de 34 jardas do adversário, dropando uma bola fácil, naquilo que poderia ter terminado num touchdown.

Os 49ers responderam na drive seguinte, com Kendall Hunter a assumir o grosso do protagonismo, obtendo algumas corridas positivas. No passe Alex Smith sobressaiu num lançamento de 16 jardas para Michael Crabtree. Mas, na linha de 20 jardas dos Seahawks, Alex Smith sofreu um sack, obrigando David Akers a fazer o gosto ao pé. 38 jardas e empate no marcador.

O wide receiver dos San Francisco 49ers, Michael Crabtree salta por cima do Richard Sherman, cornerback dos Seattle Seahawks
Fonte da Imagem: AP Photo/Ben Margot

2º Período

Iniciou-se, tal como o primeiro, com a bola na posse dos Seahawks. Minimizando sempre o risco, naquilo que se viu ser uma estratégia para fintar a excelente defesa dos 49ers, o jogo da equipa de Seattle assentava no poder físico de Marshawn Lynch e em passes curtos de Wilson. A drive desenrolou-se com desenvoltura, com Russell Wilson a mostrar-se confiante na condução do ataque. Os Seahawks namoraram o touchdown, quando na linha das 17 jardas dos 49ers, Wilson vislumbrou Braylon Edwards na end zone. O passe, num daqueles lançamentos incisivos, com a força e direcção perfeitas, foi superiormente defendido, no último momento, por Dashon Goldson. Novamente Steven Hauschka foi chamado a intervir, marcando novo FG de 35 jardas.

Com um three-and-out dos 49ers, Wilson conduziu nova drive, que se revelou dinâmica, mas padeceu do mesmo problema das anteriores. Um dos mais belos – e longos – passes da noite, de Wilson para Sidney Rice – 27 jardas – foi insuficiente para o sucesso final. Sofrendo um sack de NaVorro Bowman, Russell Wilson obrigou à intervenção do seu kicker, numa distância de 51 jardas. Mas, ao contrário dos anteriores, o field goal falhou o alvo, impedindo que o marcador sofresse alterações.

3º Período

Foi marcado pela melhor drive atacante do jogo, cortesia dos 49ers. 6 minutos, 10 jogadas e 86 jardas depois, Delanie Walker, o tight end de S.Francisco, encontrou o caminho da end zone, marcando o único touchdown do encontro. Uma drive iniciada no passe, com Alex Smith a lançar, curiosamente, para os seus dois running backs (Frank Gore e Kendall Hunter) nas duas jogadas iniciais, conseguindo um ganho de 26 jardas. Complementando esses ganhos, o jogo corrido foi precioso, com o tandem Gore/Hunter a massacrar a defesa contrária.

Na resposta, Russel Wilson cometeu um dos seus únicos pecadilhos no jogo, sendo interceptado ao forçar um passe para Braylon Edwards, junto da linha lateral. Dashon Goldson, felino, antecipou-se e conseguiu um movimento de belo efeito.

4º Período

A nível de pontuação a única acção coube a David Akers, que marcou num FG de 28 jardas. Com as defesas extremamente fortificadas, a possibilidade de pontuar, por parte de ambos os contendores, foi quase nula. Destaque para os momentos finais, quando os Seahawks procuravam desesperadamente reagir à desvantagem, encostados à própria end zone. Um excelente passe de Wilson foi revertido pela arbitragem – um lance ocorrido no 4º down – devido a um chop block, com os árbitros a considerarem que o bloqueio do jogador dos Seahawks foi demasiado baixo e perigoso. Um lance que encerra enormes dúvidas, mas que deu aos 49ers a possibilidade de um safety, dado que a jogada, conforme referi, foi no 4º down e dentro da própria end zone. Jim Harbaugh preferiu desperdiçar os dois pontos e, em contrapartida, ficar com a posse de bola, podendo depois deixar escoar os poucos segundos que faltavam para o final.

As Nossas Escolhas

MVP: Não é preciso recorrer às estatísticas para apontar o jogador mais importante no jogo, cuja influência foi visível ao longo da partida. Frank Gore dilacerou por completo a defesa dos Seahawks, constituindo sempre um quebra-cabeças para o adversário. Foi o seu jogo corrido, com um ímpeto brutal, que colocou os 49ers na corrida pela vitória, empurrando a equipa para a frente. O papel dele não se limitou a essa tarefa unidimensional, sendo o alvo mais confiável para Alex Smith endossar a bola. Foram 131 jardas corridas e mais 51 recebidas, num esforço estóico que merece ser realçado.

Frank Gore, Chris Clemons

San Francisco 49ers Frank Gore, running back dos San Francisco 49ers atravessa a defesa dos Seattle Seahawks
Fonte da Imagem: AP Photo/Ben Margot

Positivo: Nos 49ers, Jonathan Goodwin, o center da equipa, seria o indiscutível MVP da partida… se Frank Gore não existisse. A exibição do robusto jogador roçou o heroico. Defrontando uma excelente dupla de defensive tackles – Alan Branch e Brandon Mebane – Goodwin foi o principal responsável pela excelência do jogo corrido dos 49ers. Perfeita exibição, abrindo rotas e locais de fuga, nunca cedendo perante a imponente presença de Mebane. Na linha ofensiva, outro jogador se destacou. Joe Staley, o left tackle que estava em dúvida para este jogo, com uma concussão, esteve imperial, nunca permitindo que pelo seu lado Alex Smith fosse importunado. Também a ele deve ser creditado o bom jogo corrido, com Frank Gore a usar muitas vezes o lado esquerdo da linha para as suas corridas. Justin Smith é um dos jogadores mais trabalhadores dentro do campo, um exemplo de força inesgotável. Esteve em grande, ora contribuindo para parar Lynch, ora colocando pressão na OL dos Seahawks. Na defesa dos 49ers, brilhou um jogador de 2º ano. O cornerback Chris Culliver, perfeito na marcação a Golden Tate e Sidney Rice, conseguiu deflectir 3 passes, em alturas importantes, impedindo a progressão das drives adversárias.

Nos Seahawks merece destaque a segurança de Russell Wilson. Mesmo com uma intercepção imputada a si, num lançamento em triple-coverage cuja possibilidade de sucesso era remota, o rookie denotou sempre uma solidez e ausência de temor em lançar para o fundo de campo, procurando os seus receivers. Marshawn Lynch, vindo de um jogo contra os Patriots onde tinha sido uma perfeita nulidade, voltou às boas exibições, passando a marca das 100 jardas corridas, contra uma das melhores defesas da prova. Precioso em vários momentos, deu sempre uma dimensão extra ao ataque. Bobby Wagner, o rookie linebacker, voltou a ter novo jogo quase perfeito. Pela terceira semana consecutiva, liderou o número de defensive stops, acumulando 8 neste jogo. Se, no adversário, merece amplo destaque o jogo corrido, nos Seahawks não podia ficar sem relevo o bom trabalho de Marshawn Lynch, que conseguiu passar das 100 jardas, denotando ter recuperado do mau jogo contra os Patriots. O seu trabalho, tal como o de Frank Gore, nos 49ers, não pode ser dissociado do empenho da linha ofensiva. Também aqui merece elogio o trabalho de sapa do center Max Unger, que se tem revelado este ano um run blocker de elite. Defrontando Isaac Sopoaga, conseguiu regularmente limpar aquela zona da intromissão do adversário, permitindo que Lynch usasse o centro como preferido ponto de corrida.

Negativo: Nos 49ers Alex Smith voltou a viver um período conturbado, incapaz de movimentar o ataque, com várias drives a serem inconclusivas. O seu melhor momento veio no 3º período, conduzindo com precisão a drive que culminou no único touchdown do jogo. Mas, na altura em que se exigia frieza e capacidade de precisão, Alex Smith voltou a revelar o seu lado mais desastrado. Os 49ers, que venciam por apenas 7 pontos, passível de ver a vantagem anulada com uma mera jogada inspirada do ataque adversário, tinham uma oportunidade soberana de colocar um ponto final na indecisão sobre o vencedor da partida. Capitalizando a intercepção de Russell Wilson, os 49ers avançaram no terreno e, já na red zone dos Seahawks, tinham a oportunidade de marcar pontos. Um novo touchdown ou um field goal colocariam o resultado numa distância confortável, quase inalcançável face ao tempo de jogo que faltava decorrer. Mas aí Alex Smith falhou clamorosamente, permitindo que Brandon Browner o interceptasse na end zone, mantendo o rival na corrida. Dashon Goldson é um jogador veterano e dotado de bastante qualidade. Mas a sua falta pessoal, sobre Lynch, com a jogada parada, revelou inexperiência e ausência de calma que poderiam ter sido prejudiciais à equipa. As 15 jardas com que foi penalizado aligeiraram a tarefa dos Seahawks, que culminaram essa drive num field goal.

Alex Smith San Francisco 49ers

Alex Smith, quarterback dos San Francisco 49ers
(Fonte da Imagem: AP Photo/Marcio Jose Sanchez

Nos Seahawks não gostei dos vários drops, que comprometeram várias jogadas de sucesso. Golden Tate foi repetente na insegurança, falhando duas recepções, aparentemente fáceis, em alturas capitais. Também Robert Turbin e Evan Moore padeceram desse mal,debilitando o jogo aéreo dos Seahawks.

Robert Turbin, Patrick Willis San Francisco 49ers Seattle Seahawks

Robert Turbin, running back dos Seattle Seahawks deixa cair a bola mesmo à frente do linebacker dos San Francisco 49ers
Fonte da Imagem: AP Photo/Marcio Jose Sanchez

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.