College Football 2015: Week 4

Paulo Pereira 28 de Setembro de 2015 Análise Jogos College, College Comments
TCU vs Texas Tech

College Football 2015: Week 4

O problema com o college é que, por vezes, parece uma daquelas soap operas americanas, repleta de enredos secundários, que fogem da trama principal e que, ao fim de uns tempos, torna inglório o esforço de acompanhar toda a acção. É que há sempre tanta coisa – mas mesmo tanta – a acontecer em cada jornada, que o principal medo de um fã é perder algo de importante. E isso nota-se quando, ao Domingo de manhã, tento compilar os pontos fulcrais para escrever o artigo. Mas falo de quê, dou por mim a perguntar, tantas e tantas vezes?

Esta semana, a quarta no calendário, há vários pontos que merecem destaque. E, sem nenhuma ordem cronológica ou de importância, cá vão alguns deles:

  • USC ganhou. Fê-lo depois da desilusão de terem perdido, na semana passada, contra Stanford. A vitória, concludente nos seus 42-14 contra Arizona State, não podia ter vindo em melhor altura. É que no Sábado UCLA e Utah (grandes Utes) venceram. Mais, venceram enquanto enviavam uma mensagem a toda a competição. USC tinha que reagir. E conseguiu-o, guiada por Cody Kessler, com novo jogo notável. O que importa, neste momento, é que a PAC 12 está ao rubro. E com jogos futuros electrizantes, seja no confronto com Notre Dame, Arizona ou UCLA. Independentemente dos adversários, há alguém que merece os holofotes mediáticos. É difícil de catalogar, pelas posições distintas em que joga. Prefiro chamar-lhe playmaker. Adoree’ Jackson é um dos melhores jogadores da prova. É usado amiúde na secundária dos Trojans, como cornerback, mas dá o seu contributo também ao special team, como retornador e, por vezes, como wide receiver. Esta jornada foi mais do mesmo. Jackson conseguiu fantásticas 131 jardas em 3 meras recepções, marcando um TD. É um show, dentro do próprio jogo.
  • Os Ducks de Oregon sabiam que, depois de fechado o capítulo Marcus Mariota, teriam que atravessar um período de menor glória. Procuraram fintar o destino, resgatando Vernon Adams, que se transferiu de Eastern Washington para assumir o vazio deixado pela partida de Mariota para a NFL. Mas o destino interveio e Adams lesionou-se. Os Ducks, com um desaire contra Michigan State, sabiam que não podiam cometer mais nenhum erro, até final da competição, sob pena de verem os sonhos esfumarem-se. Pois bem, na recepção a Utah, foram chamados à dura realidade. A temporada terminou e o melhor que conseguirão é ir a uma bowl relevante. O jogo contra os Utes provou duas coisas: primeiro, que a equipa de Utah é um forte contendor pela conferência, sólida nos dois lados da bola. Segundo, Travis Wilson, o seu quarterback, teve um jogo memorável e mostra, no seu ano senior, poder ser uma surpresa no próximo draft. Wilson parece um pocket passer, no alto dos seus impressionantes 6’7’’ de altura, mas tem uma mobilidade surpreendente, para alguém tão alto. Juntem a isso um notável equilíbrio e precisão, e temos ali um produto a poder ser bem trabalhado, no futuro. Wilson dilacerou por completo os Ducks, fosse no passe, com um 18 em 30, 227 jardas e 4 passes para TD, fosse na corrida, onde correu apenas 6 vezes, para obscenas 100 jardas e mais um score. Os Utes, que entraram na week 4 no 18º lugar do ranking, irão subir mais umas posições, parecendo poder lutar por algo mais do que o título da conferência. É que, conforme referi acima, Utah não vive apenas da inspiração do seu quarterback (e running back, se lhe juntarmos o excelente DeVontae Booker), tendo uma das melhores defesas da nação.
  • Já que estamos na PAC 12, o jogo grande do dia era a ida de UCLA a Arizona, a bela equipa que Rich Rodriguez tem construído e que é, actualmente, a detentora do título de conferência. Mas os Bruins, liderados pelo freshman Josh Rosen, a next big thing da imprensa californiana, não permitiram qualquer tipo de veleidades e venceram, por 56-30. Rosen, vindo de um péssimo jogo na semana passada, conseguiu permanecer calmo, mesmo num ambiente efervescente, não cometendo erros e dando dimensão aérea a UCLA. 19 em 28, 284 jardas e 2 passes para TD, complementados no solo pelo excelente jogo corrido, onde Paul Perkins continua a amealhar créditos. Se o junior, desta feita, apenas correu 85 jardas, foi cirúrgico na end zone, marcando por 3 vezes. Num jogo onde os ataques se sobrepuseram às defesas, um dos factores diferenciadores foi a lesão de Anu Solomon, o sophomore quarterback de Arizona, que saiu no segundo período, deixando o ataque órfão e a viver apenas da inspiração de Nick Wilson (decorem o nome do running back que, pese estar apenas no seu 2º ano, não deve nada aos melhores na posição). Os Wildcats podem ainda sonhar na defesa do seu título mas, para isso, precisam que Solomon regresse. O seu substituto, Jerrard Randall, acertou apenas 4 passes, no resto do jogo, se bem que desbaratou a defesa dos Bruins no solo, onde amealhou 128 jardas. Mas Solomon é um passer mais polido, já entronsado no sistema ofensivo, e fará muita falta, se a lesão for grave. Destaque para o regresso do linebacker Scooby Wright que, no entanto, pareceu fora de forma, longe do jogador disruptivo que costuma ser.
  • Chega a ser desesperante ver os Longhorns, outrora exuberantes e um dos melhores programas futebolísticos da nação, arrastarem-se nos campos. Pensei que a chegada de Charlie Strong mudasse o estado de coisas. Mas Texas ainda tem um longo caminho a percorrer. Para já, perdeu a guerra do recrutamento no vasto estado, com os miúdos mais promissores a serem resgatados por outras universidades, com destaque para Texas A&M. E, quando finalmente parece existir uma centelha de esperança, ela rui de forma estrepitosa e dolorosa. Na semana passada os Longhorns iniciaram um comeback contra California, recuperando 21 pontos. No último minuto, faltava-lhes apenas marcar o ponto extra, no pós-touchdown, mas o lance foi desperdiçado, provocando incredulidade em quem assistia. Esta semana, contra Oklahoma State, nº 24 do ranking, mais um erro do special team a custar um prolongamento. A 42 segundos do fim, com um 27-27 no marcador, um snap defeituoso num punt (Texas estava na linha das 24 jardas e, com o erro no punt, deu a posição de campo aos Cowboys nas 18 jardas) deu uma posição de campo fantástica ao adversário, que mais nada teve que fazer do que marcar um field goal, com o tempo já esgotado. E assim, com duas cruéis derrotas, daquelas que frustram bastante, os Longhorns têm um 1-3 que os poderá ver, novamente, fora de qualquer bowl de final de ano. A imensa nação de adeptos sofre. E Charlie Strong está na corda bamba…
  • Auburn devia fazer um requerimento, solicitando que Dak Prescott não jogasse contra eles, quando se confrontam com Mississipi State. É que o quarterback dos Bulldogs parece fadado para grandes exibições, sempre que joga contra os Tigers. Auburn somou nova derrota (a 2ª na temporada), perdendo qualquer possibilidade de fazer algo de grandioso na temporada, apesar dos elogios com que foi cumulado, na offseason. Mesmo que o roster tenha qualidade insuspeita, a indefinição na posição de quarterback tem destruído a equipa. Jeremy Johnson foi uma desilusão e o seu substituto, esta semana, não foi muito melhor. Sean White fez algumas coisas positivas, mas nunca foi consistente o suficiente para dar a dimensão que Auburn necessita. Na SEC, isso pesa, como recordou Prescott. Neste jogo, foram 29 em 41, 270 jardas e 2 touchdowns. Em 3 jogos contra Auburn, os números são elucidativos: 729 jardas passadas, 268 corridas e 7 TDs.
  • Um mês. É o tempo que já passou. E o que sabemos até agora? You know nothing Jon Snow. Vá lá, perdoem-me usar aqui uma frase à la Game of Thrones, mas a realidade é mesmo essa. Não sabemos nada, apesar de já terem decorrido 4 jornadas. Quem são os potenciais candidatos a finalistas? A melhor equipa da prova? Alguém consegue responder, sensatamente? A SEC, tida como o supra sumo do College, não é nenhum bicho papão. Auburn é uma desilusão, Tennessee e Arkansas idem aspas, Alabama parece mortal e já conta com um desaire, Texas A&M parece não ter defesa e mesmo Ole Miss tem pecadilhos, como comprova a dificuldade em vencer a medíocre Vanderbilt. Ohio State, favorito nº 1, está enredada numa novela de troca de quarterbacks, sem que Urban Meyer consiga decidir-se por um. Cardale Jones e JT Barrett também não ajudam a sua causa, com erros constantes e inconsistência under center. Na Pac 12 UCLA parece lançada, mas Josh Rosen é ainda um miúdo inexperiente, como se viu contra BYU. Stanford perdeu na jornada inaugural, foi jocosamente gozada, mas entrou nos eixos e parece novamente poder disputar a conferência. Notre Dame perdeu Malik Zaire e Tarean Folston, mas descobriu talento em locais insuspeitos e continua invicta. Georgia Tech era uma espécie de underdog nacional, a queridinha da imprensa, mas colecciona duas derrotas consecutivas. TCU e Baylor, que ficaram em 5º e 6º do ranking, no ano passado, namorando com os playoffs, continuam a ter ataques insanos, mas estão pejados de lesões (sobretudo TCU). Michigan State apareceu e assumiu uma candidatura que parece séria. Por isso, o que sabemos nós de relevante? Nada. O melhor é não fazer prognósticos e assistir aos jogos, semana após semana. As surpresas vão continuar a acontecer.

TCU, 55 @ Texas Tech, 52

Parecia um duelo, daqueles imortalizados nos westerns. Um tiroteio, repleto de balas a voar e alvos atingidos. Era um dos jogos mais aguardados do fim-de-semana e não defraudou expectativas. O encontro teve de tudo. Uma enorme moldura humana a decorar as bancadas do estádio. Intensidade nos quatro períodos de jogo. Entrega por parte de todos os jogadores. Grandes lances de ataque. Bons movimentos defensivos. E mais um final emocionante, daqueles que perduram meses a fio na memória de quem assistiu. Um final improvável, em nova jogada mirabolante, pontuada pelos deuses da fortuna e sorte. Mas já lá vamos. Antes, um elogio particular a Kliff Kingsbury, o head coach dos Red Raiders. Kingsbury, uma lenda na universidade, detendo ainda uma montanha de recordes, depois da sua passagem como quarterback pelos quadros da escola, tem criado um programa futebolístico atractivo, onde o ataque desenfreado desempenha um papel de relevo. Este ano, com a posição de quarterback finalmente fixa (Patrick Mahomes), a equipa apresentava por vitórias todos os jogos. Mas sabia-se que esta recepção a TCU, um dos legítimos contendores pelo título, seria o mais duro teste até à data. Os Red Raiders não defraudaram. O ataque foi sólido, com Mahomes a saber explorar a debilidade actual dos Horned Frogs. A secundária de TCU está dizimada por lesões e isso paga-se caro, quando o opositor tem qualidade. Mahomes lançou para 392 jardas e 2 scores, expondo fraquezas e dando sempre uma dimensão extra ao ataque. No solo, DeAndre Washington voltou a ser tremendo, com 188 jardas e 4 TDs. Neste duelo intenso, o problema inicial de Texas Tech era que defrontava Trevone Boykin. O quarterback de TCU é um caso aparte na competição, um sério candidato ao Heisman. Alma da equipa, carregou-a às costas até ao final, lançando 54 vezes. 54!!! Boykin somou 485 jardas (se Texas Tech tem ataque, a defesa é outra história, não tão feliz) e passou para 4 TDs. Se Boykin foi o problema irresolúvel 1 dos Red Raiders, o 2º foi Josh Doctson. Até podia existir Boykin…e no corpo de receivers existir banalidade ou mediania. Mas não. Está lá um receiver de eleição. Doctson teve o jogo da sua carreira. Imparável, conseguiu 18 recepções (por muito que me esforce não me recordo de outro exemplo assim), 267 jardas e 3 scores. Atentem nos números. Não são usuais, mesmo pelos padrões do futebol universitário, habituado a proezas similares todas as semanas. Doctson correspondeu a todos os passes na sua direcção, independentemente das coverages. E estas foram feitas por um, dois e até por três defensores, sempre impotentes para o travar. Mas, por muito que Boykin e Doctson (mais Aaron Green no solo, com 162 jardas e 2 TDs) tenham feito, tudo se resumiu aos instantes finais da contenda. E aí, num 4º down, já com o tempo a escoar-se, entrando nos derradeiros 30 segundos, TCU perdia. Tinha apenas mais uma bala, neste confronto de titãs. Uma derradeira oportunidade para manter a chama do título acesa. Boykin fez o que tinha feito, nos anteriores 59 minutos. Snap recebido e o olhar à procura de Josh Doctson. Era ele o alvo confiável. Era ele que, até então, tinha estraçalhado a secundária do adversário. Viu-o, a correr na end zone. Lançou a bola. Uns dirão que com demasiada força. Outros, demasiado alta. Eu digo que lançou da forma ideal. O receiver, com dois marcadores colados ao corpo, saltou, apenas para ver como o esférico lhe batia na mão esquerda e fugia. O estádio, afecto aos Red Raiders, exultou, precocemente vendo ali o fim antecipado do jogo. Mas, correndo por trás deste trio de jogadores, apareceu Aaron Green, como se tivesse aparecido ali por magia. Os sorridos nas bancadas esmoreceram e transformaram-se em esgares de pânico, quando o running back mergulhou e apanhou a bola, de forma dramática mas eficiente. THE END. E assim, num golpe de mágica, se abate uma equipa e outra mantém o rumo definido, em direcção ao grande objectivo.

Texas A&M, 28 @ Arkansas, 21

Foi uma vitória come-from-behind dos Aggies. E uma forte sensação de déjà-vu. É que, no ano passado, estas duas equipas tinham digladiado-se, levando o jogo a prolongamento. Tal como agora. E, na altura, também os Aggies tiveram que recuperar 14 pontos de deficit, no quarto período. Na abertura das hostilidades na SEC, para Texas A&M, a história repetiu-se, obrigados a recuperar 8 pontos, no último período para, depois, vencer no prolongamento. Com Kyle Allen a realizar, provavelmente, o seu melhor jogo nos Aggies, comandando superiormente o ataque, sem erros e com algumas deep balls interessantes, a equipa de Kevin Sumlin sofreu bastante, mas venceu. E agora, com um 4-0 como recorde, terão que ser levados em linha de conta. Se existiram pontos positivos, como por exemplo a nova arma no ataque – Christian Kirk foi soberbo, com 8 recepções, 173 jardas, 2 TDs e mais 77 jardas em 4 retornos – a defesa claudicou, incluindo a DL, dominada em grande parte do encontro pela poderosa linha ofensiva dos Razorbacks. E isso terá que ser motivo de preocupação, porque agora é que vai começar o campeonato para Texas A&M. No próximo mês, a época será definida, para o melhor ou pior, nos confrontos marcados contra Mississipi State, Alabama e Ole Miss. Na equipa da casa, a derrota só poderá ser traumatizante. Arkansas deu mostras, a meio da temporada passada, de poder ser um contendor na SEC. Bret Bielema criou um grupo com qualidade, mas 2015 não assistiu ao crescimento da equipa, com duas derrotas penalizadoras, antes deste embate. Mas, na SEC, estar a vencer por 8, já no último quarto, e não aguentar a pressão adversária, diz muito da capacidade mental da equipa. Ou, com menos de 3 minutos, e ter posse de bola para o que poderia ser o parcial de desempate. Os Razorbacks jogaram bem, mas fraquejaram no auge da pressão. E a temporada descarrilou. Nas próximas semanas, idas a Tennessee e Alabama, que não auguram nada de bom.

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Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.