A Origem do Mal: A História do “Tuck Rule Game”

Pedro Nuno Silva 20 de Agosto de 2013 História, Jogadas Comentários Desligados
Oakland Raiders

A Origem do Mal: A História do “Tuck Rule Game”

Estou seguro que todos conhecem a história de Anakin Skywalker, o simpático, inocente e bem-intencionado rapazinho da odisseia Star Wars, criada e realizada por George Lucas. Todos sabem decerto o quão virtuoso, cavalheiro, honesto e bondoso era o rapaz, educado pelos melhores Mestres Jedi que havia por aquelas paragens do Universo, naquela galáxia “far, far away”.

Mas isso foi antes do pobre moço dar de frente com a dura realidade da vida e acabar por se deixar levar para o “Dark Side of The Force”, para onde foi conveniente e oportunisticamente seduzido e recrutado pelo malvado Darth Sidious, algures no episódio II da série… Ou seria no episódio III? Bom, não interessa…

As desventuras, agruras e desventuras porque passou e, já agora, as más companhias, criaram no pobre Anakin Skywalker, um sentimento irreprimível e irresistível de injustiça que haveria de o transformar num ser humano repugnante e no arquétipo da maldade do cinema, sob o nome arrepiante de Darth Vader… Escutem! Não estão a ouvi-lo com a sua sinistra respiração mecânica atrás daquela mascara medonha? Não? Então foi impressão minha!

Mas que diabo faz o Star Wars neste blog, perguntarão vocês? Este tipo passou-se! Concluirão alguns de vós, com mais certezas em matéria de sanidade mental.

Calma! Eu explico… É que a NFL também tem o seu Anakin Skywalker, que haveria igualmente de se transformar no terrível Darth Vader… Dão pelo nome de Oakland Raiders!

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Contamos já aqui a história da “Immaculate Reception“, o fatídico jogo dos Divisional Playoffs de 1973, jogado no Three Rivers Stadium, em Pittsburgh, entre os Pittsburgh Steelers e os Oakland Raiders. Contamos a história da verdadeira “espinha” de baleia (a baleia não tem espinhas, mas tanto faz…) que ficou entalada na garganta dos adeptos de Oakland, depois do milagroso “touchdown” de Franco Harris, concebido e nascido do… nada! E da fúria e raiva que ficou no coração dos “silver and black” comandados pelo mítico Joe Madden.

Mas os anos seguintes trouxeram bons motivos para que a nação Raider apaziguasse o seu espírito, com 3 vitórias nos Super Bowl XI (1976), XV (1980) e XVIII (1983).

O episódio de Pittsburgh estava assim bem enterrado e esquecido.

Bem. Não esquecido, mas, pelo menos, adormecido na memória dos adeptos de Oakland.

Mas eis que chega o dia 19 de Janeiro de 2002.

Mais um Divisional Playoff Game, mas desta vez em Foxborough, no Gillete Stadium, frente aos New England Patriots liderados por um tal de Tom Brady, no seu primeiro ano como QB titular da equipa de New England.

O jogo desenrolou-se em condições atmosféricas tremendas, debaixo de uma enorme tempestade de neve que levou alguns a darem-lhe o nome de “Snow Bowl”.

Os Raiders dominaram o jogo defensivamente, liderados por jogadores como Charles Woodson, que haveria de brilhar em Green Bay, com os Packers, ou o Safety Antony Dorsett.

A 1minuto e 50 segundos do fim do jogo, com o resultado em 13-10, favorável aos Raiders, Tom Brady e os Patriots iniciam uma drive desesperada, para conseguirem, pelo menos, levar a bola a uma distância que permitisse uma tentativa de field goal, empatando assim o jogo e levando-o para prolongamento.

Eis o que aconteceu na voz dos comentadores da Rádio dos Raiders…

Sem mais time outs, Brady tenta encontrar um alvo no meio da neve e de uma pressão impressionante da fantástica defesa dos Raiders. É então que surge Charles Woodson que se atira com tudo sobre o QB vindo do Michigan e faz-lhe um sack, forçando um fumble. A bola cai no campo gelado e de imediato é recuperada pelo linebacker Greg Biekert, da equipa de Oakland. A equipa de arbitragem declara posse de bola para os Raiders, considerando ter havido um fumble por parte de Brady.

O choque e o desalento na cara de Brady, Bellichick e dos adeptos dos Patriots diz tudo: a bola é dos Raiders que, a cerca de 1 minuto e 40 segundos do do fim do jogo, com os Patriots sem time outs, tudo o que têm de fazer é deixar passar o tempo e marcarem as passagens para o AFC Championship Game, antacâmara do Super Bowl XXXVI, em New Orleans.

Bom… mas não seria assim!

Após reverem a jogada por recurso ao vídeo, a equpa de arbitragem liderada por Walt Coleman tomou a mais polémica decisão da história da NFL! Afirmando que o braço de Brady, no momento do sack, estava a fazer um movimento para diante e, como tal, tratou-se de um passe incompleto e não de um fumble, Coleman fez uso da quase desconhecida Regra nº 3, da Secção 22, Artigo 2º, Nota 2, introduzida em 1999 no livro de regras do jogo da NFL… a malfadada Tuck Rule!

Tom Brady hesita e não faz o lançamento dando origem à polémica decisão

Tom Brady hesita e não faz o lançamento dando origem à polémica decisão

Segundo esta complicadíssima e raríssima regra do jogo (consta que nunca tinha sido usada antes deste jogo e que depois deste jogo, apenas terá sido usada uma vez mais…), sempre que um jogador ofensivo tem posse da bola e faz um movimento do braço para diante, para efectuar um passe, volta com o braço para trás (tuck arm) e perder o controlo da bola considera-se que o passe é incompleto.

O desespero dos adeptos dos Patriots passou de imediato para a equipa dos Raiders, que consideraram inacreditável a “reverse call” da equipa da arbitragem. Mas os protestos nesta ocasião, e como quase sempre, de nada valeu à equipa de Oakland.

A bola foi devolvida ao ataque dos Patriots que conseguiram colocá-la em “field goal range” que permitiu ao mítico Adam Vinatieri empatar o jogo a 13 pontos com um pontapé de 45 jardas em condições de concretização dificilissimas.

No prolongamento Vinatieri conseguiria um novo “field goal” que daria a vitória aos Pats. Tom Brady alcançaria a glória duas semanas depois em New Orleans, frente aos Rams, conquistando o seu primeiro título no Super Bowl.

Mas a polémica decisão de Foxborugh nunca mais foi esquecida. E desta vez a razão estava indiscutívelmente do lado dos homens de Oakland. A bola tinha sido perdida por Brady num fumble…

A raiva e o ódio dos adeptos dos Raiders, adormecidos durante anos, depois da “Immaculate Deception”, voltaram e explodiram com toda a fúria. As teorias da conspiração que os punha como vítimas indiscutíveis dos privilégios dados às equipas de leste, surgiram por todo o lado como cogumelos.

Consta que até All Davis, o mítico dono dos Raiders, um dos pais da AFL e, mais tarde, impulsionador da fusão da NFL com a AFL e que se tornou famoso com a famosa frase “Just Win Baby!” a terá alterado num acesso de raiva para “Just Kill Baby!”… Bem, esta inventamos por nossa conta, mas que fica bem neste ponto do artigo, lá isso fica…

O que sim é certo é que o jogo foi de imediato baptizado como “The Tuck Rule Game”, mas para os adeptos dos Raiders, o nome dado ao jogo foi “The Snow Job”, “O Arranjinho Na Neve”.

A malfadada “tuck rule” foi insultada, espezinhada, desprezada… E viria a ser aniquilada definitivamente em 20 de Março de 2013, com os votos a favor de 29 das 32 equipas actuais da NFL. Os Patriots abstiveram-se nessa votação… como não poderia deixar de ser… Já os responsáveis dos “Black and Silver” devem ter feito uma festa de arromba para comemorar o momento.

Um fã dos Oakland Raiders vestido de Darth Vader

Um fã dos Oakland Raiders vestido de Darth Vader

Depois do jogo de Pittsburgh em 1973, o jogo de Foxbororough puxou definitivamente os Raiders para o “Dark Side Of The Force” e ainda hoje, quando se entra no Oakland Coliseum podemos ouvir a respiração mecânica de Darth Vader a ressoar no recanto mais sombrio do “Black Hole” e, se apurarmos bem os ouvidos, vamos ouvir, com toda a certeza a sinistra ameaça do não menos sinistro personagem:

“You underestimate the Power of the Dark Side”!

Medo! Tenham muito medo!

 

About The Author

Pedro Nuno Silva

Português. Duriense de nascimento. Tripeiro de coração. Minhoto por adopção. Numa palavra: nortenho. Ou seja, tinha tudo para ser um ignorante sobre futebol americano. Mas a 2 de Fevereiro de 2009 tudo mudou graças a cerca de 2 minutos de um jogo que era até aí um mistério insondável! Os culpados? Todos os jogadores dos Steelers e dos Cardinals. Mas, em particular, Ben Roethlisberger e Santonio Holmes e aquele touchdown a 30 segundos do final do jogo num equilíbrio improvável e que desafiou as leis da física e se pode colocar ao lado de um qualquer volteio do mais virtuoso bailarino do Bolshoi. A paixão pelo jogo cresceu de tal forma que hoje olho à minha volta e acho estranha tanta algazarra por causa das vitórias do F.C.Porto, da nossa seleccção ou das birras do CR7. Definitivamente tornei-me num alien em pleno coração do Alto Minho!