Na Perseguição do Sonho da NFL

Paulo Pereira 20 de Junho de 2014 Jogadores, NFL Comments
Christian Johnson

Na Perseguição do Sonho da NFL

A história – e estórias – da NFL são, muitas vezes, feitas de exemplos de superação, transcendência e ultrapassagem de obstáculos, em verdadeiras provas de carácter e resiliência moral. Todos os anos somos inundados pela partilha de narrativas que se centram exactamente nisso: no árduo caminho que o jogador A, B ou C trilhou, até atingir o sucesso. O draft de 2014 não fugiu à regra, com vários exemplos do descrito acima. Uma das situações captou a minha atenção. Por nenhum motivo particular. Não conhecia o jogador. Não o tinha visto jogar. E achei que, à partida, quando li a sua biografia, estava condenado no seu sonho. Como devem ter imaginado, o anseio do atleta em questão é apenas um, similar a milhares de outros: jogar na NFL.

Esta é a História de Christian Johnson…

Johnson, não se destacando particularmente na função, era um sólido contribuidor na linha ofensiva de Kentucky, universidade que, algo afamada, vai vegetando entre a mediania e a mediocridade nos anos mais recentes do seu programa de futebol americano. Em Janeiro de 2010 Johnson estava numa encruzilhada. Findo o percurso universitário, aguardava, naquele misto de expectativa e apreensão, pelo toque do telefone. O draft, a 3 meses de distância, costuma ser precedido por encontros com scouts ou staffs técnicos. Ou pela realização de tryouts. No caso dele, nada. Aparentemente, Christian Johnson não existia para os 32 clubes da NFL. O radar de vigilância, habitualmente atento à mínima mostra de talento, não captava os anseios do jovem. E assim, com o conto de fadas a esfumar-se, estilhaçado pela indiferença geral, restou a Christian Johnson ponderar no sentido da vida. Não de uma forma filosófica ou Shakespeariana, mas arregaçando mangas e procurando um rumo, fora da esfera desportiva. Passaram-se 12 meses. Sem futebol, mas com a ânsia a corroer as entranhas. Podia não ser visível a olho nu, mas estava lá. Nos treinos individuais, após um longo dia entediante. Na preservação mínima da forma física, em corridas solitárias aparentemente sem sentido. Na manutenção de um agente desportivo, um luxo supérfluo para um jogador desempregado. Mas foi este agente que lhe abriu a primeira porta, numa espécie de passagem para um patamar superior. Alargando o espectro do raio de acção, Johnson viu-se escolhido pelos Dallas. Não os renomados, afamados e cintilantes Cowboys. Foi a outra franquia de Dallas. Os Vigilantes, que disputam a Arena Football League. Como disse Churchill, às vezes é necessário dar um passo atrás para avançarmos depois dois. A AFL é o equivalente ao futsal, para os amantes de soccer. É um joguinho engraçado, disputado num pavilhão, com bancadas semi-vazias, num campo mais curto e com algumas semelhanças com o jogo amado. Christian Johnson não estava em posição de se importar com isso. Aproveitou a dádiva. O jogo era mais rápido? Era essencialmente jogado, a nível de ataque, com o recurso ao passe? What a hell? Ele adaptou-se, mostrando capacidade de absorção à mudança. Em 2011 deu nas vistas, permitindo apenas um sack na temporada toda. O feito valeu-lhe a abertura de nova porta, neste edifício virtual de ascensão profissional. O convite para outra franquia, os Philadelphia Soul. 2012 e 2013 cumularam-no de elogios e títulos, vencendo a conferência a nível colectivo e arrecadando o consenso de ser um dos melhores offensive linemen na competição. Novo passo estava dado. Novo degrau subido. Uma cassete com os seus melhores momentos começou a circular, procurando atrair atenções de algum “tubarão”. Nas águas infestadas, surgiu um. Os Arizona Cardinals. Imagino a sensação de euforia momentânea de Johnson, quando recebeu o convite duma equipa da NFL para um workout particular. Gostaram do que viram. E assim, em Janeiro deste ano, Christian Johnson passou a ser um integrante do roster dos Cardinals, dando profundidade à OL na posição de guard. Não é, ainda, um happy ending. Quase como se fosse um bebé (passe o exagero), ele teve que reaprender a andar. Neste caso, a adaptar o seu jogo a um campo de 100 jardas, a estudar um playbook feito de jogadas e conceitos mais complexos e a perceber, efectivamente, quão diferente é jogar na NFL. Será uma dura batalha, cujo epicentro acontecerá no training camp, pela permanência no roster, reduzido ao minimal número de 53. O trajecto deste rookie de 27 anos está ainda pejado de obstáculos. Eis uma boa história para acompanhar, nos quentes meses de Verão. Conseguirá ele agarrar o sonho?

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.