Sheldon Richardson, Are You a Moron?

Paulo Pereira 3 de Agosto de 2015 Jogadores, NFL Comments
Sheldon Richardson

Sheldon Richardson, Are You a Moron?

Sheldon Richardson não tomou a liga de assalto. Nem nada que se pareça. Mas fez furor. No tridente da frente da linha defensiva dos New York Jets, ao lado do colosso Muhammad Wilkerson, começou a criar nome por si mesmo. Indomável. Bravio. Disruptivo. Era um aparente caso de sucesso, numa franquia tão necessitada deles. Richardson era aquilo que se pode chamar de franchise player. Um defensive end, vindo de Missouri, escolhido no 1º round do draft de 2013. Uma peça, limada e polida aos poucos, para um futuro mais risonho dos verdes de Nova Iorque. As indicações, dentro de campo, ajudavam a perceber os elogios, cimentando a sensação de escolha certeira. Richardson, no seu 1º ano como profissional, soube ultrapassar com afinco as dificuldades e obstáculos duma competição dura, massacrante e terrivelmente competitiva. Tornou-se o primeiro rookie na franquia, desde 2009, a ganhar o meritório prémio de Rookie of the Month. Não se ficou por aqui. Sôfrego por glória, foi mostrando a sua utilidade. Contra os Panthers, já no ocaso da temporada, marcou um touchdown. Um defensive lineman a marcar um TD é um acontecimento raro, atraindo atenções e mediatizando o momento. Richardson repetiu o feito, duas semanas depois, contra os rivais de divisão Dolphins. As estatísticas, no final da época, mostraram bem o empenho. 78 tackles, 3,5 sacks, 1 forced fumble e, claro, os 2 touchdowns. Se mais razões fossem precisas, estas ajudaram, e de que maneira, para a sua eleição de Rookie defensivo do ano. Marcada, de forma indelével, a sua chegada ao mundo profissional, Sheldon não negligenciou esforços no ano seguinte. 2014 foi a continuação, em ritmo de cruzeiro, do ano de estreia. A mesma produção. O mesmo empenho. A mesma forma agressiva de jogar. O Pro Bowl, o jogo da estrelas que representa uma espécie de panteão mitológico onde apenas entram os melhores, recebeu-o de braços abertos. Tudo parecia correr bem…

Mas…

Há, nestas histórias envolvendo jogadores de futebol americano, quase sempre um mas…

Esta conjunção coordenativa, quando formulada, provoca um frio no estômago. É o equivalente à música de aviso, num filme de terror. Um piano dedilhado com simples acordes. Sabemos, quando surge o mas, que algo de mau vai acontecer. É uma espécie de nuvem negra no vocabulário.

O primeiro aviso veio já em 2015. A liga multou e castigou o defensive end por ter falhado um dos usuais testes anti-droga. 4 jogos de castigo. Mão dura e penalizadora, numa daquelas repreensões para ser levada a sério. O bom do Sheldon gosta, aparentemente, de fumar. Em Portugal usamos um termo, entre o depreciativo e o humorístico, para designar o gosto de alguns em fumar marijuana. É o “fumar umas ganzas”. Somos, talvez, algo condescendentes com esse comportamento, encolhendo os ombros e achando que “bem pior é tomar anti-depressivos”.

Num jogador profissional, bem pago, o comportamento não pode ser desvalorizado, nem encarado com bonomia. Os Jets não devem ter gostado. A ausência do jogador, nos 4 primeiros jogos, constituiria um rude golpe.

Mas…

Sim, é aquela altura em que o frio do estômago passa a sensação generalizada de mau-estar. Boca seca, palpitações cardíacas, pânico a ficar incontrolável.

A situação piorou.

Imaginem que são o general manager dos Jets. Façam esse esforço. Fechem os olhos e entrem nesta simulação.

Estão a dormir, beatificamente, numa cama king size, rodeados de lençóis de seda, um braço desleixadamente caído sobre as costas da loura escultural que habita o mesmo colchão. Sonham. Com uma equipa sólida, capaz de ameaçar a hegemonia dos Patriots na divisão. São despertados desse torpor sonolento pelo som estridente do telefone. Primeiro, o desconforto não vos faz acordar de imediato. O barulho do toque parece parte do sonho. Mas depois, ainda grogues de sono, percebem que é o telemóvel. Uma chamada, aquela hora da madrugada, só pode significar uma coisa: sarilhos!

Do outro lado, num tom de voz seco e profissional, identifica-se um policia. Nesta fase, já estão despertos, sentados na cama, aguardando o impacto da notícia.

Agente da autoridade – Sheldon Richardson foi apanhado a conduzir, com velocidades marcadas no radar acima das 120 milhas/hora. Por 3 vezes.

General manager – O cérebro metódico do general manager funciona à velocidade da luz, diferente do comum dos mortais. Não vê a implicação do acto em si mesmo. Estuda alternativas. Pressupõe castigos. Até aqui, nada de especial. Dá para safar o jogador com alguma admoestação.

Mas o polícia continua.

Agente da autoridade – Quando o carro patrulha lhe deu sinais de paragem, ele acelerou.

GM – Nãoooooooooooooooooooooo. O desânimo instala-se na vossa mente. Insultam o jogador, em voz baixa. Porque é que ele não parou? Aceitava o acto como um adulto, era multado e pronto, problema finalizado! Levam a mão à cabeça. O polícia não se tinha calado. Seria possível haver mais?

Sim. A voz átona do policia continuou o desfiar doa acontecimentos.

Agente da autoridade – O jogador fugiu da polícia, em velocidade acima do permitido, acelerando em zonas residenciais, procurando despistar o carro policial. Apagou luzes, teve manobras de evasão…

GM – Olhos esbugalhados. Incrédulo com o que ouve. Tem que se levantar. Caminha em passos lentos, como um condenado a caminho do cadafalso, em direcção à cozinha. Precisa dum comprimido para a sensação de vertigem que sente. Mas quem raio foge à polícia pelo meio de bairros residenciais, em alta velocidade, podendo provocar uma tragédia? Mas o Sheldon é um imbecil e não nos apercebemos?

O policia pigarrea ao telefone. Para focar a atenção do seu interlocutor.

Agente da autoridade – Conseguimos, apesar de tudo, detê-lo.

Há algo na voz do polícia que assusta ainda mais o general manager. A forma como acentuou as últimas sílabas. Um tom premonitório. Agarra-se à bancada da cozinha, sentindo o frio do mármore nos dedos. As mãos tremem, de forma quase incontrolável.

Agente da autoridade – Quando o policial se aproximou do carro do Sheldon Richardson, reparou num gesto suspeito. Descobriu, depois, que existia uma arma no carro, que o jogador procurava esconder…

GM – Soltou um gemido audível. Um misto de dor, incredulidade e choque.

Agente da autoridade – O policia detectou igualmente um forte cheiro a marijuana no veículo.

GM – FODA-SE!!! OUTRA VEZ?

Agente da autoridade – E, senhor, para além disso, no banco de trás do carro, o jogador levava uma criança…

GM – A vertigem transformou-se em náusea. Antes de desmaiar, no solo da cozinha, apenas um pensamento lhe ocorreu: “are you a moron?”

A chamada desligou-se.

É o fim de Sheldon Richardson na NFL? Duvido. Se existe espaço para a redenção, para a 2ª oportunidade, seja num regresso após suspensão por uso de substância dopantes, por espancar a mulher/namorada ou por correctivos brutais dados a filhos, Sheldon também terá nova possibilidade. Mas, com um comportamento destes, não deverá faltar muito para o GAME OVER definitivo.

Are You a Moron?

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.