A Trade is a Trade…

Paulo Pereira 13 de Outubro de 2015 Diversos, NFL Comentários Desligados
Brandon Weeden

A Trade is a Trade…

Numa das suas habituais homilias semanais, o ilustre Peter King conseguiu compilar alguns factos interessantes, que podem escapar ao olhar do adepto comum. E este, que agora revelarei, mostra bem o quão importante é draftar bem. Com qualidade. Isso pode ser o elemento diferenciador entre um eterno candidato e uma perene franquia que falha estrepitosamente, ano após ano. Recuemos no tempo. Até Abril de 2011. É a altura do draft. No 1º round, um dos movimentos mais ousados dos últimos anos. Os Falcons encontram um parceiro, nos Browns, para um trade up. Querem a posição que a franquia de Cleveland possui, a pick 6. O alvo estava bem identificado. O wide receiver de Alabama, Julio Jones. A subida, no entanto, tinha os seus custos. Grandes. Parecia, naquela altura, que aos Browns tinha saído a lotaria. Os Falcons, agressivos como um jogador de poker, fizeram uma espécie de all-in. Pela escalada na tabela cederam:
Duas first-round picks | Uma pick de 2º round | 2 fouth round-picks

Nas habituais análises pós-draft, o assunto foi abordado. Massivamente. Alguns viam nesse movimento de Thomas Dimitroff, general manager dos Falcons, a procura do elo que faltava para fortalecer o ataque e dar-lhe uma dimensão de contendor. Outros apontavam o enorme custo como exemplo dum movimento pouco sensato. Agora que a poeira baixou, quatro anos passados, sabemos o que aconteceu. Os Falcons foram efectivamente melhores, muito melhores, depois da inclusão de Julio Jones. Foram, aliás, aquilo que Dimitroff preconizou nos seus devaneios. Um contendor que ficou a escassas jardas de atingir o Super Bowl, derrotado pelos 49ers na final da NFC de 2012. Jones é hoje, mesmo com algum tempo de jogo perdido por conta de lesões, um dos melhores na sua posição, claramente pertencendo a qualquer top-5 que se faça de wide-receivers. A última memória, aquela que temos mais vincada, é a do ano passado, quando, mesmo num ano horribilis dos Falcons, apanhou 104 passes e somou 1593 jardas. É um jogador chave na equipa, tendo merecido, já nesta preseason, um novo contrato, tornando-o um dos receivers mais bem pagos, com valores a rondar os 72 milhões (40 garantidos). O início da temporada de 2015 apenas veio mostrar quão sensato foi esse contrato, com Jones a obter mais de 100 jardas em cada um dos 3 jogos já disputados.

E os Browns? O que obtiveram de concreto desse acordo/negócio? Pouco. Muito pouco. Das 5 picks ganhas, apenas um jogador permanece na franquia. Como backup e, actualmente, numa posição quase obsoleta. Phil Taylor, defensive tackle oriundo de Baylor, tem-se debatido com algumas mazelas físicas, nos anos anteriores, e contará este ano com a forte competição de Danny Shelton, a reluzente escolha de 1º round dos Browns este ano. Todos os outros jogadores escolhidos, no seguimento do trade up, já se foram. A saber:

Brandon Weeden, quarterback, escolhido na 1ª ronda em 2011. Vindo de Oklahoma State, entrou na NFL demasiado tarde, já com 28 anos, nunca tendo sido consensual. Foi mais um no carrocel de quarterbacks que os Browns foram colecionando, nos seus anos de mediocridade. Durou 2 anos na franquia, com um 5-15 como titular e é agora um backup em Dallas…

Phil Taylor, defensive tackle, eleito no round 1 de 2011. Dele já falamos. Acima.

Greg Little, wide receiver, escolhido na 2ª ronda em 2012. Little nunca foi um titular indiscutível, vivendo naquele limbo do “entra e sai” do 11 titular. 155 recepções, em 3 anos e dispensado em Maio de 2014.

Owen Marecic, fullback, escolhido na 4ª ronda de 2011. 4 corridas. Em 2 anos. Dispensado em 2013.

Mas não acaba aqui. As picks são usadas como moeda corrente nos negócios. Acumular várias para, quando necessário, dar em troca por uma subida em algum round. Foi o que fizeram os Browns, repletos delas na sequência da trade com os Falcons. Usaram a pick sobressalente do 4º round, em 2012, para subirem no draft e escolherem aquele que julgavam ser o franchise running back: Trent Richardson. O jogador de Alabama, verdadeiro fenómeno no college, nunca rendeu nada de apreciável em Cleveland, onde durou apenas 17 jogos, até ser despachado para os Colts. O resto da história já é conhecida. A via sacra de Richardson continuou, saindo de Indianapolis, onde nunca ultrapassou a mediocridade exibicional, e parando em Oakland, onde acabou de ser dispensado.

Mas há mais. Ainda em 2012, e na tentativa de conseguirem Phil Taylor (ainda no roster, como mero backup), os Browns fizeram um trade up, para subir da posição 27 para a 21. A troca foi feita com os Chiefs, a quem deram, para consumar o negócio, a já falada pick 27 e a 70. Curiosamente, os dois general managers envolvidos na troca (Tom Heckert, pelos Browns, e Scott Pioli, pelos Chiefs), já não estão na franquia. Mas isso não é um pormenor. O que importa aqui é a pick 70, que os Browns “deitaram” fora. Com ela, Pioli escolheu um linebacker de Georgia, chamado Justin Houston. O mesmo Houston que, no ano passado, obteve 22 sacks e que é um dos mais temidos pass rushers da liga. E assim se vai perpetuando o ciclo de infelicidade em Cleveland.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.