A View From the Bay: Uma Bomba!

Hugo Taxa 8 de Novembro de 2015 NFL Comentários Desligados
San Francisco 49ers

A View From the Bay: Uma Bomba!

A notícia caiu como uma bomba: o Presidente e o General Manager foram despedidos!

Nos 49ers? Infelizmente, não… nos Detroit Lions. No entanto, este desfecho é a prova que se a ownership da equipa pode usar da “bomba atómica” para revolucionar uma equipa e passar a mensagem de que não há “intocáveis”. No entanto, para isso é necessário que esta não esteja comprometida com o rumo incutido à nau pela gestão de topo. Nos 49ers o dono –  Jed York – está completamente comprometido com Trent Baalke, senão vejamos:

  • Ao longo da temporada passada, as diversas fugas de informação que davam como certa a saída de Harbaugh no final da temporada tiveram, com grande probabilidade, origem nele;
  • Fez um Tweet  durante o jogo de Thanksgiving com os Seahawks que destruiu por completo a relação com Harbaugh;
  • Tomou partido, dando o seu apoio, a Trent Baalke na “guerra” interna que este e Harbaugh travaram; preferindo assim “despachar” um treinador abrasivo mas com resultados provados, a tentar lidar com o seu estilo, colocando os seus interesses pessoais à frente dos interesses da equipa;
  • Tentou forçar que alguns candidatos a treinador – por exemplo, Adam Gase – aceitassem que o seu staff fosse escolhido por ele (e assim, fosse garantida a continuidade de Jim Tomsula no staff técnico);
  • Afastou um fortíssimo candidato ao lugar de treinado principal – o antigo coordenador defensivo Vic Fangio;

, pelo que muito dificilmente tomará esta atitude … a não ser que as coisas fiquem muito negras.

Para já, o modus operandi da cúpula procura replicar o ano passado: durante a semana passada vários rumores começaram a sair que teria havido em diversas reuniões intra- jogadores elementos que questionaram e confrontaram abertamente a atitude de Kaepernick (Vernon Davis) e outros que o defenderam (Joe Staley). Mais rumores apontavam que Kaepernick, com a sua maneira de ser acabrunhada – como já antes apontei no caso do jogo com os Cardinals – não se consegue impor em termos de liderança no locker room (o que não surpreende, observado-se a sua atitude nos jogos), vital para ultrapassar os momentos complicados de uma temporada muito difícil; ao mesmo tempo que os receivers se queixam que Kaepernick não tem confiança neles, não fazendo passes na sua direcção excepto quando eles estão completamente desmarcados, com medo de sofrer intercepções. A própria interacção com a linha ofensiva (basicamente os jogadores que lhe protegem o “couro”) durante os jogos é mínima – após cada série ofensiva não se vê Kaepernick a falar com os seus Linemen, ao contrário do que é costume ver em QBs de elite. E, adicionalmente, é do conhecimento geral que Kaepernick não tem relação próxima com nenhum dos líderes da equipa, preferindo a companhia de jogadores “marginais” – no jogo com os Rams, foi visto a conversar bastante com Kendall Gaskins, RB que tinha acabado de entrar na equipa. Ora QB que não se impõe como líder, não tem uma relação própria com os líderes do locker room, não têm confiança nos seus receivers, e nem sequer estabelece uma relação de proximidade com os seus Linemen, é, à falta de melhor palavra, um QB “morto”. Assim, não surpreende a notícia de que este próximo fim-de-semana Blaine Gabbert seja titular, relegando Kaepernick para o banco. Vai resolver tudo? Nem de perto nem de longe, mas talvez o ataque comece a marcar alguns pontos e a dar algum descanso à fustigada defesa.

Kaepernick é assim o terceiro “bode expiatório” da “troika” York-Baalke-Marathe, depois de Greg Roman (recordar o tweet de filha de Trent Baalke) e Jim Harbaugh.

No entanto, como a saida de Kaepernick do lineup não vai resolver milagrosamente os problemas da equipa – agora amplificados pela perda de Vernon Davis (trocado por uma pick de sexto round para os Broncos, e actualizando a contabilidade da semana passada, permanecem no plantel apenas 3 dos últimos 13 jogadores escolhidos na primeira ronda) e pelas lesões de Carlos Hyde, Mike White (mão, lesionou-se contra os Rams) e Reggie Bush (joelho, lesionou-se contra os Rams e já foi colocado em IR, pelo que está fora para o resto da temporada) – é natural que rápidamente novos “culpados” sejam apontados e posteriormente derrubados, como peças de dóminó, na expectativa que a cadeia, como que por milagre, seja interrompida.

Debaixo de Mira…

Na calha perfilam-se:

  • Geep Chryst - o actual coordenador ofensivo era até à temporada passada o QB coach de Kaepernick, e portanto a pessoa que melhor conhecia os seus defeitos e virtudes. Assim, deveria ser a pessoa ideal para criar um plano de ataque talhado à imagem de Kaepernick. Os resultados estão à vista em 8 jogos. Se Gabbert conseguir ter uma performance razoável neste próximo fim-de-semana, e conseguir agarrar a oportunidade de ser titular, talvez escape ao cadafalso.
  • Steve Logan - o QB coach actual era jornalista de rádio até ao início desta época, e foi contratado para ajudar Kaepernick a evoluir. Tal não se tem visto, e ao contrário de outras posições, QB não sofreu nenhuma deserção. A sua posição é muito frágil.
  • Jim Tomsula - Adam Gase, Mike Shanahan e Vic Fangio foram preteridos em favor de Jim Tomsula. Tomsula, as palavras de York e Baalke foi sempre o candidato mais forte, tendo ficado com o posto. O apoio “incondicional” não sobrevive no entanto ao “teste do algodão”: o score actual – 2-6 – é indissociável do treinador principal, se bem que este apenas indirectamente possa ser responsabilizado pela sangria da off-season, ou regressão de Kaepernick. De qualquer modo, com as semanas a passar e sem perspectivas de melhoras, Tomsula começa a entrar em linha de fogo. E não é de admirar que após mais uma (inevitável?) derrota com os Seahawks, comecem a aparecer rumores de que a razão de alguns jogadores se terem retirado foi falta de confiança no treinador principal, e que o balneário não acredita em Tomsula. Daí até ele ser sacrificado, será um instante.
  • Eric Mangini - em 4 anos de Vic Fangio como coordenador defensivo, os 49ers foram sempre uma das 5 melhores defesas em termos de jardas permitidas aos adversários. Com meia temporada já devidamente registada, os 49ers estão neste momento em 28º lugar nesta categoria. Se é verdade que a perda de nada menos do que 8 influentes jogadores nesta unidade pode explicar uma parcela substancial desta súbita quebra, não é menos verdade que a incapacidade notória ao logo dos jogos já decorridos do ataque se manter em campo, e, desta forma, permitir que a defesa consiga descansar um pouco, também é relevante. Mesmo assim, Mangini está um pouco mais resguardado que Tomsula devido a dois factores:
    • É uma opção viável para assumir o comando interino da equipa, caso Tomsula seja imolado;
    • O impacto mediático da saída de um coordenador defensivo durante a temporada é sempre menor do que o da saída do seu equivalente ofensivo ou mesmo do treinador principal.
  • O departamento de scouting – como vimos na semana passada, o conjunto de más decisões quer a nível de draft quer a nível de free-agents, é responsabilidade de alguém, no caso, de Trent Baalke. No entanto, antes de este levar uma bala, é garantido que se vai escudar atrás do seu departamento de prospecção e muito provavelmente surgirão também rumores sobre falhas neste departamento, de modo a fazer rolar algumas cabeças em desespero de causa e antes de se chegar a …
  • Trent Baalke - Na conferência de imprensa de apresentação de Jim Tomsula, Jed York disse que o grande objectivo dos 49ers era ganhar SuperBowls, e que Jim Harbaugh tinha falhado esse objectivo. A verdade é que Harbaugh esteve quatro anos nos 49ers com um palmarés de 36 vitórias, 11 derrotas e um empate (41-14-1, contando com os playoffs), três presenças nos playoffs, três finais de conferência e uma presença no SuperBowl. Trent Baalke tem oito anos de posições de topo nos 49ers – últimos cinco como GM, e antes disso um ano como Vice-Presidente de Player Personnel, e dois como Director de Scouting – sendo que nos outros quatro o palmarés é de 23 vitórias e 33 derrotas sem presenças nos playoffs. Harbaugh pegou numa equipa que tinha terminado o ano de 2010 com o score de 6-10, quase sem alterações, e mesmo depois de uma off-season mais curta devido ao fim do acordo colectivo de trabalho, acabou a temporada 13-3, e a uma jogada de ir ao SuperBowl. Nas palavras de Scolari, “E o burro sou eu?”. Aliás, Baalke, na mesma conferência de imprensa disse que este ano seria um ano de ligeiros retoques e não de reconstrução da equipa … esta expressão demonstra o seu grau de contacto com a realidade – nenhum! – e devia dar direito a despedimento por justa causa.

Na lista anterior, faltam dois nomes na lista, nomeadamente Paraag Marathe – Presidente dos 49ers e responsável pelo Salary Cap (que aparenta ser um dos pontos menos negros dos 49ers); e Jed York – o dono. Bom, bom, era despachar também estes dois “artistas” e trocá-los pelos saudosos Eddie DeBartolo e Carmen Policy, obreiros das grandes equipas dos anos 80 e 90.

Vamos seguir com atenção os próximos desenvolvimentos. O certo é que se está a assistir ao desmantelamento sistemático e completo de uma equipa que foi a três finais de conferência consecutivas e a um Super Bowl, e ao afundar de uma equipa de referência da NFL em mais um período negro. Temo que nem daqui a 3 anos os 49ers sejam novamente competitivos.

Jogadores de vidro, “palas nos olhos”, total aversão ao risco, e uma solução para o futuro.

Jogo Contra os St. Louis Rams

O jogo contra os Rams não tem grande história, e apenas com meia dúzia de notas é possível traçar o retrato relevante. Num jogo muito feio e pobre de ambas as partes – com 10m35s para jogar no segundo período eram mais as faltas do que os primeiros downs combinados – cumpre registar que os 49ers conseguiram o seu primeiro fumble recovery da época. O punter Bradley Pinion, até agora incapaz de demonstrar consistência ou sequer força de perna ao nível do já saudoso Andy Lee, lesionou-se, quiçá por excesso de “trabalho” e obrigou a que Phil Dawson tivesse que assegurar também um punt. Relembro que este senhor – Pinion – foi escolhido com uma pick do 5º round, e que Andy Lee foi trocado por uma pick do 7º round – ou seja, ficou-se com um jogador pior e desceu-se duas rondas no draft – trabalho do “génio” Baalke!

A meio do primeiro período, na sequência de um punt return, Reggie Bush – RB titular devido à ausência por lesão de Carlos Hyde – escorrega já fora do terreno, embate com o joelho numa parede e lesiona-se sozinho. Há jogadores que parecem feitos de vidro, e Reggie Bush sempre foi um deles. Tenho mesmo a impressão que a sua carreira acabou naquele momento. Nesse punt return, uma sucessão de faltas de San Francisco faz com que a bola seja colocada na sua linha das 3 jardas. Já com Mike White a RB, o playcalling previsível e conservador volta a aparecer em toda a sua força, tanto é assim que no primeiro down, o CB que devia cobrir Torrey Smith borrifa-se para o tema, e vai ajudar a defender a expectável jogada de corrida interior de San Francisco. Torrey Smith completamente liberto, tenta chamar a atenção de Kaepernick, e este, com “palas nos olhos”, ou na minha modesta opinião, a ser simplesmente Kaepernick, não vê e entrega a bola a Mike White, que perde uma jarda (ver vídeo).

Duas jogadas exactamente iguais depois, safety, e a sensação que se vai perder o jogo. O ponto positivo é que aparentemente esta jogada absolutamente miserável – e, essencialmente, devido a toda a atenção mediática que recebeu – foi a gota de água que fez com que o copo Kaepernick transbordasse.

A defesa aguentou o que pôde – impediu as primeiras nove tentativas de conversão de 3rd down dos Rams, mas já no terceiro período e a começar de acusar sinais de desgaste, lá cederam uma conversão. Uma conversão em doze 3rd downs para os Rams – acho que não se pode exigir muito mais à defesa – convinha era que o ataque fizesse algo mais do que three-and-outs.

No entanto, e para mim o momento mais importante ocorreu no final do segundo período: os 49ers a perder por 10 e com 6m52s para jogar, sabendo que a bola será dos Rams no início do segundo período, conseguem uma drive relevante, avançando até à linha das 9 jardas de St. Louis com um first-and-goal. Três passes miseráveis depois – que renderam um total de duas jardas – e com 1m56s no relógio, Tomsula entrega o jogo ao não arriscar o 4th down, mandando entrar Phil Dawson para um pontapé aos postes. 3 pontos, os Rams recuperam a bola na sequência do touchback e galopam 80 jardas em 1m30s para colocarem o resultado em 20-6.

Ball game, season’s over, fiquem com Bowman, Hyde, Staley, Lynch e Reid e despeçam toda a restante gente, desde o faxineiro ao York, fechem o “tasco” e metam um relvado decente, e voltem só para o ano que vem …

About The Author

Hugo Taxa

Em meados da década de 80, e após ver vários episódios do "Eight is enough" na televisão (onde o filho mais novo aparecia no genérico com um capacete dos 49ers) tornei-me fã dos 49ers. A partir de 1990 tive a sorte de ter um vizinho de origem americana que recebia a Sports Illustrated, e que me dava as revistas após acabar de ler as mesmas. Segui assim as temporadas de 90, 91 e 92 pelas revistas (com de cerca de 3 meses, entre o jogo acontecer e eu ler a crónica sobre o mesmo na revista) até ver o meu primeiro Super Bowl na SIC em 1993, em directo. Tinha um teste na terça-feira seguinte, mas a antecipação era tanta que não me consegui concentrar no estudo durante o fim--de-semana ... e chumbei - tive que ir a exame!

Em 1996 acedi ao meu primeiro site na internet - espn.com. O objectivo era apenas seguir a NFL; e com o aparecimento da DSF no alinhamento da TV Cabo finalmente comecei a ver a Regular Season na TV - com comentários em Alemão!
20 anos depois me ter estreado a ver Super Bowls, acho que me posso gabar de apenas ter perdido o de 2000, e de ter visto em directo alguns dos momentos emblemáticos da NFL: Dan Marino a obter o recorde de jardas; Barry Sanders e Terrell Davis a correrem para 2000 jardas; Emmitt Smith a quebrar o recorde de Walter Payton; John Elway a "fazer de helicóptero" para ganhar o seu primeiro Super Bowl; e o melhor jogador de sempre - Jerry Rice - a dinamitar defesas adversárias.
A NFL pauta-se pelo equilíbrio, o que se traduz em todas as equipas terem os seus momentos altos e baixos. No entanto, mesmo em épocas difíceis como 2003 ou 2004 a fé nunca esmorece - 49ers Faithful!