Denver Broncos: A Temporada à Lupa

Paulo Pereira 24 de Fevereiro de 2014 Análises, NFL Comments
Denver Broncos

Denver Broncos: A Temporada à Lupa

Maior Surpresa

Até se pode menorizar os feitos dos Denver Broncos, afirmando sem pudor que a schedule da equipa era fraca. Soa a azedume, sinceramente. A equipa, pese a valia dos opositores, jogou quase sempre em grande nível, desbaratando recordes no ataque e dando espectáculo. Não se pode afirmar que eram favoritos no Super Bowl. Salvo raras excepções, o jogo final da NFL coloca frente-a-frente as melhores equipas, aquelas que conseguiram sobreviver a uma extensa maratona, pejada de obstáculos. Por isso, independentemente da valia dos Seahawks, a maior surpresa foi o descalabro da equipa de Denver. Quando se esperava um jogo renhido, um braço-de-ferro entre duas potências, assistiu-se a uma das maiores tareias na história da competição, com uma diferença gritante de qualidade. Isso sim, foi uma surpresa. Os Broncos não apareceram no Super Bowl.

Maior Desapontamento

O que escrevi acima podia ser repetido aqui. Existe maior desapontamento do que chegar ao 19º jogo e perder, daquela forma a roçar o patético? Como isso já foi dissecado, e numa temporada em que a equipa, salvo uma ou outra excepção, cumpriu religiosamente as expectativas geradas, pode-se apontar como grande desapontamento a temporada novelesca de Von Miller. Ele é o melhor jogador da defesa. Não é uma afirmação ousada, nem rebatível. Parece pacífico apontá-lo como a força motriz do pass rush, cujo nome destila medo nas linhas ofensivas. A época começou mal, com Miller a cumprir 6 jogos de suspensão. Os Broncos sobreviveram, sem grandes sobressaltos. Quando regressou, mais pesado e fora de ritmo, viu-se que a reedição dos 18,5 sacks do ano anterior era uma miragem. Menos explosivo e determinante, Miller não foi o factor extra esperado. E, pior, terminou a temporada pouco depois, com um famigerado torn ACL. A equipa, que contava com ele para os playoffs, sentiu o golpe. E sofreu as consequências.

Maior Necessidade

A janela de oportunidade dos Broncos ainda se mantém intacta, mas diminuiu o tamanho. É o karma de todas as franquias. Quando se consegue conjugar uma série de factores, criando uma equipa sem fraquezas assinaláveis, o factor tempo é sempre crucial. No caso da franquia de Denver, a idade de Peyton Manning desempenha um papel primordial no ataque ao título. Os Broncos já desperdiçaram duas oportunidades, em 2012 e 2013. Terão, quando muito, mais uma, em 2014. Se algo se pode extrair das recentes derrotas, na fase decisiva, é a falta de agressividade da linha defensiva, que apenas obteve um sack contra Brady (2011, com Tebow aos comandos), Flacco (2012) e Russell Wilson (2013). Nos jogos decisivos, os Broncos claudicaram, o que não deixa de ser estranho, dado que John Elway gastou sempre picks altas em pass rushers nos 3 drafts da sua responsabilidade (Miller, Derek Wolfe e Sylvester Williams). Este ano poderá continuar a senda de escolhas de pass rushers, mas mantendo sempre debaixo de olho a possibilidade de draftar ajuda para outro sector defensivo: a secundária.

MVP

Peyton Manning. Não podia ser outro. Ame-se ou odeie-se o mais velho dos irmãos Manning, há que glorificar o que ele fez, com 37 anos e depois de 3 operações ao pescoço. Manning pode ter um registo mediano nos playoffs. Pode ser acusado de fraquejar nos momentos mais importantes. Mas é inegável que foi o factor que impulsionou o ataque da equipa para números impensáveis. 55 touchdowns (recorde na NFL), 5477 jardas passadas (recorde na NFL) e 606 pontos (recorde na NFL) dão bem a ideia da capacidade do veterano quarterback. O seu profissionalismo, a forma exemplar como se dedica ao jogo, tornam-no num caso de idolatria merecido.

Posição a Posição

Quarterbacks

O maior destaque no ataque e o verdadeiro dínamo da explosão ofensiva que marcou a temporada regular dos Broncos. Manning mostrou que ainda pode jogar a um nível elevadíssimo, pese a idade e o recente histórico de operações. Voltará, para mais um ano, naquele que deve ser o derradeiro ataque ao Super Bowl, que teima em lhe fugir. Depois dele, não se sabe bem o que a equipa tem. Zac Dysert e Brock Osweiler estão intestados, remetidos a um limbo de aprendizagem, até que Manning resolva pendurar as botas.

Running Backs

O grupo tem qualidade e profundidade, características que geralmente fazem a felicidade dos coordenadores ofensivos. Knowshon Moreno foi o running back mais destacado, nos primeiros 10 jogos, contribuindo no solo e como regular receiver. Terminou a época com aceitáveis 1038 jardas, adicionando-lhe uma importância crescente no jogo de passe, com 60 recepções. Montee Ball cresceu, com o desenrolar da época, mostrando capacidade de explosão e velocidade que o tornam no futuro, a curto prazo, da franquia. No meio desta “guerra”, Ronnie Hilman regrediu, perdendo espaço na equipa e vendo diminuir os seus snaps.

Wide Receivers

É uma unidade de sonho. Uma daquelas capaz de provocar espasmos de prazer a qualquer treinador. Tem Demaryius Thomas, um receiver que pode ser classificado como elite e a deep threat da equipa. Tem Eric Decker, que explodiu em 2013, dando consistência às rotas mais curtas e retirando pressão adicional de Thomas. Será unrestricted free agent e poderá ganhar o contrato de uma vida. Wes Welker foi o receiver esperado, dinâmico no slot, mas menos produtivo do que o habitual, pela dispersão de passes face à quantidade de alvos.

Tight Ends

A unidade ficou marcada pelo aparecimento de Julius Thomas, que tinha perdido a época anterior por lesão. Com skills de jogador de basquetebol, Thomas cedo revelou aptidão para ser um receiver e uma ameaça letal na red zone. Grande temporada, pese ter sido abrandada por alguns problemas físicos. A profundidade foi dada por Jacob Tamme, um habitual nas equipas de Manning (acompanhou-o dos Colts, nesta aventura) e Virgil Green foram efectivos, sempre que chamados à acção. Joel Dreessen não foi usado nos playoffs, numa unidade que tem qualidade de sobra.

Linha Ofensiva

Peyton Manning sempre se ajudou a ele mesmo e às linhas ofensivas. O quarterback tem uma qualidade extra na identificação de ameaças, seja em blitzes ou em extra rushers, livrando-se da bola com rapidez. A OL dos Broncos ficou marcada pela perda de Ryan Clady, um dos melhores left tackles da liga. O seu substituto, Chris Clark, foi excelente, se exceptuarmos o Super Bowl. Louis Vasquez, contratado na free agency, foi o melhor elemento da OL, jogando a um alto nível. Manny Ramirez, na sua primeira temporada como center, foi consistente. Em suma, uma boa temporada, que não foi perfeita devido às dificuldades sentidas quando defrontaram defesas agressivas fisicamente. Como a dos Seahawks.

Linha Defensiva

Mesmo sem Von Miler, na maior parte da temporada, a DL exibiu-se a um bom nível, sobretudo contra a corrida, onde Terrance Knighton foi um monstro. O jogo dele, nos playoffs, contra os Patriots mostrou um run stuffer puro. Na regular season, Shaun Phillips, vindos dos vizinhos Chargers, suprimiu a ausência de Miller, tal como Robert Ayers. Mas, na ponta final da temporada, a dupla acusou o desgaste físico, deixando de ter qualquer relevância em termos de pressão. Jeremy Mincey foi escolhido, já no limite do prazo, para dar uma ajuda.

Linebackers

Teve uma das estrelas da Cª, o faz-tudo Danny Trevathan, que jogou como Pro Bowler, numa unidade que mostrou algumas deficiências nos tackles mas em que, globalmente, toda a gente jogou dentro do expectável. Destaque para Paris Lenon, com boa prestação, ele que tinha sido escolhido apenas para fazer número e Nate Irving, com bons momentos.

Secundária

Champ Bailey está já na fase moribunda da carreira, fisicamente incapaz de corresponder ao mais alto nível. Numa unidade que foi a responsável pela derrota frente aos Ravens, nos playoffs do ano anterior, as lesões não ajudaram, em 2013. Dominique Rodgers-Cromartie e Chris Harris Jr jogaram em bom nível, mas falharam jogos. A falta, sobretudo a de Chris Harris, fez-se sentir bastante nos playoffs. Os Broncos têm muitas decisões a tomar, neste grupo, dado que a maioria dos jogadores (DRC, Chris Harris, Tony Carter e Quentin Jammer) serão free agents em Março. Assinar com Chris Harris parece prioritário, mas o jogador ainda cura um torn ACL, o que pode refrear os ímpetos do staff técnico. A secundária foi o pior sector da defesa…

Special Team

Trindon Holliday deixou de ser um factor, enredando-se numa série de fumbles e nunca conseguindo ser a ameaça que tinha sido nos retornos, em 2012. Faltou sempre velocidade e disciplina no special team, onde apenas Matt Prater (kicker) e Britton Colquitt (punter) foram eficazes. Prater entrou para a história, ao bater o recorde de jardas num field goal.

Coaching

Tem uma rising star na figura de Adam Gase, o coordenador ofensivo, que mostrou criatividade no ataque. A época ficou marcada pela operação ao coração de John Fox que, no entanto, não teve repercussão na orientação da equipa. Globalmente, o trabalho foi óptimo, mas o Super Bowl, onde a equipa pareceu sempre ultrapassada em qualquer situação de jogo, deixou um travo amargo de frustração. Os Broncos não pareciam preparados para jogar aquele nível, o que deixa em causa a orientação técnica.

Inspirado no original de Jeff Legwold | ESPN.com

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.