New York Jets: Incrível Hulk ou o Shrek?

Paulo Pereira 3 de Março de 2014 Análises, NFL Comments
New York Jets

New York Jets: Incrível Hulk ou o Shrek?

A vida numa das mais populares franquias da NFL nem sempre é fácil. Perdão. Corrijo. Nunca é fácil. Nunca. A vida caótica, enérgica e narcisista na maior metrópole do mundo infecta tudo em seu redor. Gerir uma equipa profissional, num dos desportos mais excitantes, em Nova Iorque é sempre um exercício de equilibrismo. A imprensa, ávida e sedenta de notícias, é implacável. Na especulação. No detectar de fraquezas, escândalos ou pontos fracos. A atmosfera, quando não se consegue criar uma comporta hermética, que impeça o ruído, é a de um circo mediático. Os Giants passam quase incólumes, mantendo um low profile que proteje os jogadores e staff técnico. Os Jets são o oposto, quase clamando por atenção, sôfregos por mediatismo. Fazer um trabalho de construção, assim, é uma tarefa hercúlea. Criar uma dinastia constitui um objectivo que parece sempre ao alcance, mas fugidio, como uma miragem no deserto. Está ali, à mão de semear, mas furta-se, quando parece tão perto. Os Jets estiveram lá. Quase a alcançá-lo. Dobraram, finalmente, a sua besta negra, a Némesis que os persegue e incomoda na divisão. Rex Ryan levou a equipa a duas finais de conferência. Parecia que o sucesso, mais ano, menos ano, premiaria o clube, sobretudo quando os Patriots foram derrotados. Mas, na altura decisiva, a equipa claudicou. Dois anos a fio. E, como um baralho de cartas suspenso em fundações ténues, tudo ruiu. Aquele Super Bowl, vencido em 1969, continua solitário, na memória colectiva.

Os Jets encetaram, como qualquer outra franquia, a travessia do deserto, depois dessas suas finais de conferência. A equipa, que na altura parecia potente, forte e indomável, uma personificação do incrível Hulk, transformou-se num ser amorfo, digno de comiseração, um Shrek esverdeado que ninguém leva a sério. Três anos depois de terem beirado o sucesso, os Jets vivem uma crise de resultados. Três anos sem idas aos playoffs, numa seca que só encontra paralelo na década de 90, quando a equipa ficou 6 anos seguidos sem conseguir o passaporte para a postseason. Desde 2011, são 22 vitórias e 26 derrotas. E agora, que estão na encruzilhada, o que se seguirá?

Rex Ryan, que tinha a cabeça a prémio, conseguiu sobreviver mais um ano, com prolongamento do vínculo contratual até final de 2014. Prémio merecido, depois da campanha de 2013 ter surpreendido os mais cépticos. A equipa, sem estrelas, foi competitiva e venceu 8 partidas, recuperando algum do orgulho perdido e alimentando alguma esperança para 2014. Mas, para isso, John Idzik terá muito trabalho pela frente.

O general manager acabou o seu tirocínio. Depois do seu primeiro ano ao comando da equipa, o beneplácito terminou. Agora, é tempo de acção. E decisões. Difíceis. Eis algumas, que marcarão o quotidiano da equipa, até Setembro:

1. Quarterback

O que fazer, depois de ter gasto uma pick em Geno Smith? Será ele o franchise QB que a equipa necessita, depois dos sinais contraditórios deixados na temporada rookie? 16 jogos depois, que ilação tirar? Geno conseguiu ser calmo e preciso em Atlanta, ou em casa, contra Saints e Patriots. Mas foi uma máquina de turnovers, na maioria dos jogos, com questionáveis decisões que mostram que é ainda um projecto inacabado. A decisão mais inteligente seria dotar a equipa de um veterano confiável. A competição sadia que resultaria dessa aquisição poderia elevar o jogo de Smith ou, em última instância, permitir à equipa, quando em competição real, ter um backup sólido que fosse capaz de liderar o ataque. O rumor Michael Vick faz inteiro sentido. O veterano polémico tem ainda skills que o tornariam uma arma valiosa, se rodeado de alvos com qualidade, permitindo um aproveitamento melhor dos pontos fortes da equipa. Mark Sanchez, ainda no roster, é outra decisão que se aguarda com curiosidade. O jogador, mal-amado pela maioria dos adeptos, poderia preencher o requisito de um QB com experiência, evitando o recurso a Vick. Mas, como disse acima, é um atleta predisposto à asneira, dentro de campo, com um salário elevado quase proibitivo para o cap space da equipa. Opções não faltam, no mercado. Matt Schaub, provavelmente dispensado pelos Texans, quando o mercado de free agents abrir, em Março, poderia acrescentar algo à equipa, no curto prazo, permitindo um crescimento sustentável de Geno Smith, na sombra.

2. Reconstruir o Ataque

O ataque tem vindo a deteriorar-se, ano após ano. Desde 2011, a falta de playmakers é notória, com os Jets a terminarem as temporadas nos últimos lugares dos rankings, em pontos marcados e jardas ganhas.Não é um caso isolado no reinado de Ryan na franquia. O background defensivo do técnico leva-o a ignorar, de forma quase ostensiva, o ataque, criando desequilíbrios notórios entre a defesa [sempre o núcleo duro da equipa] e o ataque [pedestre e falho de talento]. Esta offseason terá que assistir a uma dinâmica inversa. Os Jets terão que investir dinheiro, dotando o ataque de armas fiáveis. São precisos receivers e um tight end de qualidade, desde a saída de Dustin Keller. Santonio Holmes ainda está no roster, mas a presença do veterano raramente se tem feito sentir dentro de campo, devido a contínuas lesões. Para além dele, apenas Jeremy Kerley tem conseguido ser activo e diligente. Depois, um imenso vazio. Stephen Hill caminha a passos largos para ser um bust, depois de duas temporadas desapontantes. O mercado de free agents não terá grandes nomes, este ano, à excepção de Eric Decker. Este, que estará à procura dum contrato milionário, apresenta qualidades apreciáveis que o tornariam um upgrade imediato ao que existe. O draft tem, segundo os especialistas, uma das melhores classes de receivers de sempre. Muito talento e qualidade, numa fornada de atletas que podem entrar no radar dos Jets. Marqise Lee, Mike Evans, Kelvin Benjamin, Jarvis Landry, Odell Beckham, Paul Richardson e Sammy Watkins podem vestir de verde, em 2014, tal como Jace Amaro, Eric Ebron ou Austin Seferian-Jenkins, os 3 melhores tight ends do College.

3. Free Agents

O recente aumento do cap space, para 130 milhões, deverá ter sido bem acolhido por quase todas as equipas, Jets incluídos. O cap space não era um problema, e a provável libertação/dispensa de Mark Sanchez e Santonio Holmes permitiria recuperar 16 milhões que, juntando ao espaço existente, coloca a equipa cerca de 40 milhões abaixo do tecto máximo. O que fazer com tanto dinheiro? Uma reedição de 2008, em que a equipa, em situação similar, pescou Alan Faneca, Kris Jenkins, Calvin Pace e Damien Woody? Depende sempre da estratégia e filosofia de Idzik. Há quem prefira construir um roster pelo draft (filosofia base dos Packers, com vários seguidores noutras franquias) e aqueles que apostam as fichas todas na free agency. No draft os Jets têm, para já, 8 picks, número que subirá quando a NFL anunciar as compensatory picks, referentes a direitos de atletas que saíram. O primeiro passo será assegurar jogadores importantes, prestes a atingirem o mercado, como é o caso de Nick Folk. O kicker é o mais provável candidato à franchise tag, ficando mais um ano na cidade. Outro caso premente passa pela permanência de Austin Howard, right tackle, com uma época francamente positiva em 2013 a aconselhar um contrato de longo termo. Calvin Pace e Willie Colon podem ser peças importantes a reter, se o custo for relativamente moderado. Ambos são jogadores experientes, com qualidade aceitável para permanecerem no roster.

4. Limpeza de Balneário

É sempre a parte mais difícil, a que leva a cortar relações com veteranos com passado importante no clube. A NFL, no entanto, é um desporto que lida bem com essas decisões, tornando-as objectivamente parte do negócio, retirando-lhes a carga emocional. Mark Sanchez(se não for dispensado até Março, recebe um bónus previsto no contrato de 2 milhões), Santonio Holmes (um cancro financeiro, que enriqueceu à custa dum contrato obsceno dado por Mike Tannenbaum, o anterior GM) são fortes candidatos à dispensa, sobretudo pelo que escrevi acima: o valor que a sua saída permitiria criar, no cap space. Nenhum deles, nesta fase, acrescentaria algo de relevante à equipa, em termos de produção. Outro nome que se pode juntar, criando alguma celeuma, é o de Antonio Cromartie, cornerback Pro Bowler. Atleta caro, do ponto de vista financeiro, não capitalizou na totalidade a saída de Darrelle Revis para se assumir como o mentor da secundária. Algumas lesões, sobretudo na anca, abrandaram o ritmo de jogo, a que se junta um proibitivo salário para 2014: 5 milhões de bónus e 15 milhões a contarem para o cap space. A atitude mais sensata será a de propor um pay cut, tornando bem mais acessível a sua folha salarial. No caso duma recusa, a dispensa levaria o jogador ao mercado de free agentes, onde o clube poderia encontrar o seu sucessor (Alterraun Verner, com temporadas excelentes nos Titans, é um dos nomes mais apetecíveis no mercado).

Conclusão

E pronto. John Idzik terá uns meses ocupados, sabendo que o trabalho encetado agora dará frutos mais tarde. Os Jets estão em modo reconstrução, mas basta a introdução de algumas peças novas no ataque e teremos uma equipa mais competitiva, que poderá surpreender em 2014.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.