Um Conto de Hipocrisia, em 3 Lições [por Roger Goodell]

Paulo Pereira 26 de Novembro de 2014 Diversos, NFL Comments
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Um Conto de Hipocrisia, em 3 Lições [por Roger Goodell]

É um artigo diferente. Mais do que focalizar a acção dentro de campo, decidi colocar a luz da ribalta fora dele. Numa semana recheada de grandes momentos, de big plays estonteantes, parece um tiro no pé falar de algo que acontece nos gabinetes, em lugares obscuros, longe das luzes da ribalta. Mas todos os grandes momentos da jornada já foram dissecados. Aqui, no nosso fantástico roster de colaboradores e noutros sites similares, sempre com um denominador comum. O amor pelo futebol americano. Mas essa paixão também passa por termos opinião. Sobre tudo e todos, sobre quem legisla e quem pune, sobre quem sente o aguilhão da injustiça e é sentenciado. Vamos, por isso, passear. Até aos bastidores do maior espectáculo do Mundo. É lá que reside e reina um dos homens mais poderosos da indústria futebolística. Este não é um artigo normal. É um conto. Sobre hipocrisia, moral de pacotilha e incongruências. É, por isso, polémico. E tendente a discussão. Não se acanhem. Opinem. Discutam. Troquem opiniões. O foco é, como disse, Goodell e a sua política ditatorial, num afã histérico de tentar transformar a competição numa prova de pureza, de linhagem comprovadamente inócua e de comportamentos esterilizados. Nem que seja à força. O homem parece uma locomotiva imparável, atropelando tudo à sua passagem, respaldado no apoio que os donos das franquias lhe vão dando. Nesse trilho obstinado que segue, vai-nos dando ensinamentos, regras inquestionáveis e castigos duros. Tudo numa esquizofrenia comportamental que o transforma num caso de estudo.

Alerta: Contém linguagem susceptível de ferir as personalidades mais sensíveis. E dado que não temos provedor do cliente, quem optar por continuar a leitura, fá-lo por sua conta e risco. Não digam que não foram avisados.

Lição 1, by Roger Goodell – Don’t Get High!

Todos aprendemos valiosas lições enquanto se acompanha fervorosamente a NFL. Este ano, então, tem sido difícil memorizar tantas, dadas por essa alma benevolente, carismática e altruísta que é Roger Goodell. O homem a quem entregaram os destinos e gestão da liga tem andado num corrupio mediático e sistematicamente no centro das polémicas, dando o peito às balas, como um mártir que merece ser relembrado. Grande Goodell, todos nós sentiremos a tua falta quando, por um azar do destino, tiveres que sair da cadeira dourada que agora ocupas. Vamos lá então à lição nº 1 do, a partir de agora, designado por mito. Mito Goodell soa bem, não soa? Dá-lhe aquele ar épico e ligeiramente incompreendido de quem caridosamente trata dos problemas que incomodam terceiros. É pena que parece um elefante numa loja de porcelana (adoro esta analogia). Em 2014 aprendemos que é possível castigar um jovem jogador (Josh Gordon), vindo de uma temporada magnífica, por este ter decidido, duas vezes na sua carreira, fumar marijuana. Getting high, no léxico corrente, é – doutrina de Goodell – algo que merece ser punido severamente. Tão grave que o pobre do Gordon levou com uma punição 5 vezes superior a quem resolveu espetar um soco nas trombas da esposa (sim, esta é contigo Ray Rice). Por isso, já sabem. Antes de pegar num charro e relaxar um bocado, pensem duas vezes. Mais vale espancar a senhora com quem saem actualmente do que ser apanhado a curtir “uma ganza”. Não faz sentido, pois não?

Lição 2, by Roger Goodell – Olha para o que eu digo, mas não para o que faço!

Viram o jogo entre os Patriots e os Colts, na semana 11? Se viram, assistiram a um belíssimo espectáculo. Quem acompanhou a emissão do Sunday Night Football com o som original, e com atenção, deve ter dado conta de um momento em que o duo de comentadores – os reputados Al Michaels e Chris Collinsworth – elogiava a performance de Rob Gronkowski, achando que apenas LaRon Landry, safety dos Colts, o poderia parar. E aí entramos num território similar ao do twilight zone, com música a condizer e tudo. Durou breves instantes, mas os suficientes para uma torrente de intoxicantes aplausos, elogios e encómios ao físico de Landry e à forma como o mesmo poderia, face a esse exuberante estado muscular, digladiar-se com Gronk. Nada contra. Numa emissão ao vivo, que dura mais de 3 horas, é expectável que existam alguns lapsos em quem comenta, sejam referências erradas, resultados anteriores desvirtuados, etc. Mas, neste caso, o estranho foi mesmo o tom laudatório ao físico de Landry. É que o mesmo foi obtido PELO CONSTANTE RECURSO AO CARALHO DE ESTERÓIDES ANABOLIZANTES E SIMILARES. ASSIM, TAMBÉM EU! E NÃO É POR ACADO QUE O LARON LANDRY NÃO ESTAVA EM CAMPO. POIS NÃO, DUO DE PATETAS? FOI SUSPENSO – adivinhem lá porquê? – POR VIOLAÇÃO DA POLÍTICA DA LIGA DE “PERFORMANCE-ENHANCING DRUGS”. Mas nem é isso que incomoda. É mesmo o discurso oficial da NFL sobre “player safety and the long-term health of its employees. E é um discurso enjoativo, repleto de demagogia. O que faz a liga para despistar casos como o de Landry, sempre no superior interesse da segurança dos atletas? Realiza, em cada jornada e de forma aleatória, testes em 5 jogadores de 8 equipas. E isto é considerado uma melhoria ao que existia. Nem me dei ao trabalho de saber qual era a politica, antes desta “melhoria”. Contas feitas, 5 x 8 = 40. 40 jogadores por jornada. 40 x 17 jornadas = 680. Parece muito, não parece? Não abanem a porra da cabeça em concordância, se fazem favor. Pensem. Não parece nada. Cada franquia tem um roster activo de 53 atletas. 53 x 32 franquias = 1696. Grosso modo, apenas 10% dos jogadores são testados, no decurso de uma época. Um ciclo de HGH (a hormona do crescimento), usada como acelerador da maturação muscular, tem ciclos de vida de um mês. O que é que isso significa? Que, muitas vezes, vale a pena arriscar. Existem 90% de possibilidade de não ser testado e escapar impune. O maquilhado discurso de “limpar o jogo” e de “prioridade máxima” no combate ao elemento nocivo que é o uso de esteróides tem dois significados. Um é o que ele efectivamente significa. Outro, é o que Goodell ACHA que significa. O importante, aparentemente, é recolher chorudos cheques provenientes de multas, punir prevaricadores que batem em esposas e linchá-los publicamente, numa reedição moderna da Inquisição. Mas trabalhar efectivamente para tornar o jogo mais puro, na sua verdadeira essência, é que não. Dá trabalho. E não muita popularidade.

Lição 3, by Roger Goodell – A Criação de um Scumbag

Agora, vou puxar a brasa à minha sardinha (amigos brasileiros, isto é uma expressão tipicamente portuguesa, que significa que agora vou ser parcial). Adrian Peterson. Jersey dos Vikings. Nº 28. Linda. Aquele purple & gold exalta os sentidos. Esteticamente é perfeita. Mas está enclausurada no meu armário, esquecida num cabide, longe dos olhares púdicos do público em geral. Não que eu não a possa usar. Posso, livremente. Em Portugal, o boom da NFL é uma realidade visível, mas ainda longe de ter uma percentagem de aceitação elevada. Provavelmente, num dia normal, das 500 pessoas que se cruzariam comigo, apenas 2 ou 3 (na perspectiva mais optimista) saberiam quem era All Day. Mas nem é isso que importa. É mesmo o labéu que foi colocado sobre o jogador. O repúdio e recato que todos devemos ter em relação a algo assim, pelo qual é acusado. Caramba, eu sou pai. Duas vezes. Ninguém, na posse do mais elementar bom senso, puniria uma criança – A SUA PRÓPRIA CRIANÇA – com chibatadas nas pernas, provocando-lhe feridas extensas. Essa prática confere a Adrian Peterson o epíteto de scumbag. De forma merecida. Mas o homem já foi privado de jogar 10 jogos. Foi punido ao abrigo da nova política de conduta, se bem que o seu crime tenha sido cometido quando ela não existia. Ou seja, foi condenado PESADAMENTE (ÉS TÃO SCUMBAG COMO ELE, ROGER GOODELL) retroactivamente. Parece um cenário digno de Kafka. Alguém punido por uma lei que, quando o crime é cometido, ainda não existia. Mas nem é isso que chateia. Essa hipocrisia instalada confortavelmente no trono da NFL dita as suas próprias leis, mesmo desafiando a coerência. Peterson foi colocado numa lista chamada de “exempt list”. Essa lista é um limbo para onde vão as almas condenadas, à espera da fogueira eterna. Soa melodramático? Mas é isso que ela é. Goodell, que meteu os pés pelas mãos no caso Ray Rice, não quis cometer o mesmo erro duas vezes, preocupado com a repercussão pública do caso. Resolveu suspender indefinidamente o atleta, até as acusações serem estabelecidas, reservando o direito de o readmitir a jogar, mal isso acontecesse. Mas, quando as acusações saíram finalmente, nos tribunais civis, Goodell resolveu emendar o que tinha decidido anteriormente. Confuso? Habituem-se. É a maneira de actuar de Goodell. Peterson foi legalmente acusado de “misdemeanor”, que é um delito leve, penalmente falando, o que lhe abriria as portas do regresso. E aqui entra a teoria da conspiração. O regresso coincidiria com o jogo caseiro contra os Packers, uma das franquias predilectas do sr. Goodell, por tudo o que representa ao nível de audiências. Pois bem, os Packers parecem demolidores, certo? E são. Em casa. 5 jogos, 5 vitórias. Mas fora de portas, o caso muda de figura. 5 jogos, 3 derrotas e dois triunfos, um deles milagroso, em Miami. O jogo em Minnesota, contra uns Vikings reforçados pela sua principal estrela, não dava grande jeito, pois não scumbag Goodell? QUATRO MESES DE SUSPENSÃO NÃO CHEGAVAM, SON OF A*****? Eis o que vamos tendo, mês após mês. Uma competição brilhante e popular, conduzida por gente esquizofrénica.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.