College Football 2014: Bowl Season 3

Paulo Pereira 2 de Janeiro de 2015 Análise Jogos College Comments
Fiesta Bowl

College Football 2014: Bowl Season 3

Dia 31 de Dezembro devia ser dia de preparativos para a festa, certo? De planos elaborados previamente, envolvendo diversão, grupos de amigos reunidos ou uma mais serena comunhão familiar. Certo? Sim, certo. Mas a bowl season não abranda, independentemente da data. Pode haver brindes em copos de champanhe, beijos atirados às pessoas que se amam, folia sem inibições. Mas só depois de se disputar mais um troféu. O último dia de 2014 deu-nos – a todos que veneramos este desporto – um prato cheio de bons jogos. Em vez de bolo-rei, passas e iguarias sem fim, capacetes e homens a lutarem, dentro de um relvado. Por mim, prefiro esta forma de tradição, mais viciante e empolgante do que a magia de cruzar a fronteira entre um ano velho e o novo.

Fiesta Bowl Bowl

Boise State, 38 vs Arizona, 30

Esta tem pedigree. A Fiesta Bowl é uma das mais afamadas, pertencendo ao Bowl Championship Series desde 1998. A abrilhantar a edição deste ano, o nº 20 do ranking, Boise State, da MWC e Arizona, da Pac 12, que terminou o ano num honroso e mediático 10º posto no top nacional. Se existia um favorito definido à partida, eram os Wildcats. A equipa de Rich Rodriguez esteve forte na regular season, perdendo apenas para UCLA e USC, mas atingindo a final da conferência, onde foi literalmente esmagada por Oregon. Apesar disso, foi Boise que entrou bem melhor no encontro, construindo uma confortável vantagem de 21-0, suportada sobretudo pelo agressivo jogo corrido. Nele pontifica um dos melhores running backs da competição, Jay Ajayi. O junior não acusou qualquer forma de pressão, estabelecendo desde cedo o running game e catapultando os Broncos para o triunfo. Logo na drive inicial, no seu primeiro snap, Ajayi correu 56 jardas intocadas, marcando um touchdown. Arizona reagiu. Com Anu Solomon e Nick Wilson, respectivamente quarterback e running back rookies, a tomarem conta das operações, os Wildcats mostraram-se dispostos a lutar pelo triunfo, trocando golpes com o adversário. E aproximando-se no marcador, mesmo com alguns custosos turnovers pelo meio (Solomon lançou duas intercepções, uma delas retornada para touchdown). Bowl que se preze tem que ter tensão e emoção. Esta teve. Um final digno de um thriller. Depois do festim de pontos na 1ª metade (31-17 ao intervalo), as defesas apareceram para jogar. Solomon reduziu a distância com uma bomba no 3º período, num passe de 51 jardas para Samajie Grant. O 4º período foi uma luta intensa. Um field goal colocou os Wildcats a 8 pontos. E, depois, a drive final. Jarda a jarda Arizona ameaçava marcar. O cronómetro era, no entanto, um adversário de peso. Tudo culminou, como um guião previamente concebido, nos últimos 10 segundos do jogo. A bola estava nas 10 jardas de Boise. Solomon tomou o snap, procurando um alvo para passar e marcar o TD. Tudo se desenrolou de forma rápida. O QB de Arizona sofreu um sack – Kamalei Correa foi o autor – sentenciando ali o destino de ambas as equipas. Nota final para a reedição da jogada que ficou conhecida nos anais da história como a ”Statue of Liberty”. Se nunca a viram, pesquisem no you tube. Em 2006, contra Oklahoma, Boise fabricou uma jogada de enorme criatividade. E copiou-a agora, com igual sucesso. Como dizia um cartaz do público: “Deja Blue”.

MVP: Jay Ajayi. Nem podia ser outro. Não foi o mais brilhante dos seus jogos. Aliás, Ajayi apenas conseguiu criar perigo e ser consistente no 1º período. E chegou. Mesmo parado, nos restantes 3 períodos do encontro, pela defesa dos Wildcats, o estrago já estava feito. Nesses 15 minutos iniciais, Ajayi correu 101 das suas 134 jardas, marcando também aí os seus 3 touchdowns. Toda a dinâmica do jogo foi afectada por essa performance prematura e pelos 21-0 precoces.

Orange Bowl

Georgia Tech, 49 vs Mississipi State, 34

Isto já é território de excelência. Depois da Fiesta Bowl, a Orange Bowl, outra mítica final que preenche o imaginário dos fãs. Frente-a-frente duas das sensações da competição, com percursos diferentes mas reveladores de qualidade. Georgia Tech atingiu a final da ACC, apenas saindo derrotada pelos ainda invictos Seminoles. A universidade de Mississipi atingiu um patamar de eleição, ameaçando em grande parte da temporada os poderes instituídos na SEC. Também aqui, antes do início do jogo, existia um favorito vincado. Os Bulldogs, que apenas soçobraram na parte final da regular season, perdendo por 5 pontos para Alabama e no jogo final para o rival Ole Miss, queriam provar que mereciam mais do que o 7º posto no ranking nacional. Mas foram impotentes, desde início, para pararem a corrida. Foi essa a chave do jogo. A facilidade com que os Yellow Jackets conseguiam ganhar jardas no solo, rasgando a defesa contrária. Mississipi reagiu à desvantagem inicial (14-0), indo para o intervalo com o momentum, quando Dak Prescott lançou, sem tempo no cronómetro, um Hail Mary que teve sucesso (42 jardas, recebidas por Fred Ross na end zone, depois de enorme confusão). Podia ser o ponto de viragem no jogo, que estava equilibrado. Podia…mas não foi. Georgia Tech respondeu de forma contundente, mal se iniciou o 3º período. Primeiro, por Synjyn Days, numa gloriosa corrida de 69 jardas. É um dos mais impressionantes TDs corridos do ano, com o running back a quebrar sucessivos tackles, a aguentar-se junto à sideline sem a pisar e a encontrar o caminho para a end zone. Se os Bulldogs tinham o momentum, perderam-no logo. E, de seguida, a estocada final. Na drive seguinte, Justin Thomas mostrou porque é uma dual-threat. Se no passe foi pouco ousado (7 em 12, para 125 jardas, 1 TD e uma INT), no solo foi imparável, correndo 14 vezes, para 121 jardas e marcando 3 touchdowns. Logo a seguir ao de Synjyn, Thomas teve uma corrida de 32 jardas, colocando um the end prematudo no encontro. O 35-20 foi demasiado para as aspirações contrárias. 422 jardas no solo e 6 TDs corridos dão bem conta a dimensão dos estragos. Se os Yellow Jackets ainda não tinham o devido reconhecimento público, vão tê-lo agora. A run option continua a ser uma arma de destruição maciça, no college.

MVP: A dupla Justin Thomas e Synjyn Days. Thomas não seduzirá ninguém com o braço, mas nem é isso que se pretende, quando as skills do jogador são perfeitamente adaptadas ao jogo de ataque. Run the option tornou-se a religião base para Georgia Tech, com resultados impressionantes, contra todas as previsões de início da temporada. Se o quarterback foi imparável, recebeu uma enorme ajuda do seu running back. Synjyn correu 21 vezes, retirando pressão de Thomas, ganhou 171 jardas, muitas delas depois do contacto, marcando 3 touchdowns. A dupla merece uma standing ovation.

Chick-fil-A Peach Bowl

TCU, 42 vs Ole Miss, 3

Durante a temporada, fui seduzido pelas aventuras da rapaziada de TCU. O futebol empolgante, massacrante, foi colhendo benefícios e começou a merecer alguns tímidos elogios. TCU esteve quase, mas mesmo quase, a fazer parte do lote restrito dos 4 finalistas dos playoffs. Faltou pouco, mas essa ausência não deslustra o que de bom a equipa teve e fez, ao longo do ano. TCU só não obteve uma temporada perfeita devido à derrota contra Baylor (actual nº 5 do ranking), por 61-58, num jogo em que dominaram quase até final. A universidade, vinda da BIG 12, encarava esta bowl como a oportunidade perfeita para, defrontando uma equipa da SEC, mostrar à nação que as suas exibições não foram obra do acaso ou de um calendário fácil. O que se pode dizer, findo o jogo, é que não desperdiçaram o ensejo de enviar um recado. E que recado. Não se pode afirmar que caiu o mito da SEC, conferência que proclama ser a melhor, a nata, da competição. Mas Ole Miss, que entrou no ano com fortes aspirações, detentora de alguns hot prospects, foi completamente impotente para parar a máquina de ataque da Big 12. Nem se pode dizer que Trevone Boykin, o líder da equipa e o seu quarterback, tenha estado num dia inspirado. Boykin cometeu uma série de erros (3 intercepções), mas, ao contrário do seu colega do lado oposto, soube reagir, orquestrando algumas drives demolidoras (Boykin terminou com 3 passes para TD e 65 jardas no solo), contando com os suspeitos do costume a auxilia-lo. Aaron Green, também algo longe do fulgor da regular season, apareceu quando foi importante, marcando o score da praxe. Josh Doctson idem aspas. Jogou quanto baste, mas correspondeu no jogo aéreo, sendo o receptor de 2 touchdowns. Do outro lado, o último jogo de Bo Wallace não será recordado. O QB dos Rebels foi o mesmo dos últimos 3 anos. Inconstante, alternando o bom com o muito mau. Infelizmente para Ole Miss, nesta bowl apareceu o Bad Bo, como os próprios fãs da equipa o catalogam. 3 intercepções e 3 sacks, apenas na primeira parte, delapidando qualquer possibilidade de recuperação da equipa.

MVP: A defesa do Horned Frogs. Pressionante, disruptiva na DL, nunca dando conforto a Bo Wallace, produziu a sua dose de takeovers, retornando uma intercepção para TD. Foi a noite de um grupo que viveu sempre à sombra do ataque, ao longo do ano, mas que merece igual dose de crédito. Nota final para as palavras do head coach de TCU, Paul Johnson: “And for at least a week or two, we don't have to hear about the SEC.”. Amen!

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.