College Football: Week 1

Paulo Pereira 6 de Setembro de 2013 Análise Jogos College Comments
College Football

College Football: Week 1

Sinto-me como se tivesse 7 anos. Na véspera de Natal. Sabem aquela ansiedade crescente, que provoca “borboletas” no estômago e que nos faz suspirar, a cada 10 segundos? O desejo, quase incontrolável, de abrir as prendas e deparar com os nossos sonhos concretizados? É assim que eu me sinto, actualmente. A NFL arrancou hoje. A sério, sem os sensaborões jogos da preseason. E o College, essa antecâmara antes da NFL, protagonizada por atletas cheios de qualidade, começou. Finalmente. Ao fim de 7 meses, here we go…

Começou numa 5ª feira, madrugada em Portugal. Fê-lo da melhor forma, colocando frente-a-frente South Carolina, da SEC, e North Carolina, da ACC. A partida, mais do que simbolicamente dar o pontapé de saída numa competição que nos entreterá nos próximos meses, colocou sob enorme mediatismo Jadeveon Clowney, apontado precocemente como o provável nº 1 do draft de 2014. O defensive end, atleta poderoso e com capacidades tremendas, não conseguiu um jogo memorável. A recuperar do ataque de um vírus, que o debilitou, pareceu sempre lento e cansado, longe da imagem de fulgor que deu em 2012. Saiu, já com o resultado favorável confortavelmente para South Carolina, depois dum tackle dum adversário, feito à margem das leis, que o deixou combalido. A partida, vencida facilmente por South Carolina, habitual integrante do top-25, teve alguns destaques, o maior dos quais Mike Davis, running back dos Gamecocks, que conseguiu 115 jardas no solo e um touchdown, numa bela corrida de 75 jardas.

Week 1, em 10 Pontos

1 – É uma tradição enraizada na já quase secular prova. Haverá sempre underdogs. Existirão sempre surpresas. Alguma universidade personificará a bíblica luta de David versus Golias. As honras da semana couberam a North Dakota State University. Who, perguntarão muitos. Kansas State ficou a conhecê-los melhor, depois de uma derrota humilhante (relembro a excelente prestação de Kansas State, em 2012, que os catapultou para a parte cimeira do top-25, liderados por Collin Klein), por 24-21, culminada a 28 segundos do final, num fatídico field goal. Os actuais campeões da Big 12 estreiam-se da pior maneira na nova época, averbando uma comprometedora derrota que pode fazer perigar a revalidação do título na conferência. Perante a 2ª maior assistência de sempre no seu estádio, North Dakota resistiu a um atraso de 14 pontos, para vencer, de forma galvanizadora.
A segunda surpresa veio da derrota de Oregon State, classificada no lugar 25, derrotada por 49-46 perante a desconhecida Eastern Washington. Mas é aí que reside o interesse e a magia da competição. O resultado, que chamou a atenção de muita gente, colocou sobre as luzes da ribalta o quarterback dos Eagles de Washington. De seu nome Vernon Adams, o sophomore teve uma prestação simplesmente inacreditável. Vejam os números: preciso no passe, terminou o jogo com 23/30, para 411 jardas e 4 touchdowns. No solo, Adams mostrou que é uma dual-threat, dizimando a defesa dos Beavers de forma impiedosa. 16 corridas, 107 jardas e mais 2 touchdowns. A prestação da sua contraparte, no adversário, ficou ofuscada por esta performance, mas Sean Mannion merece crédito pelo que fez na partida, tornando-a numa espécie de duelo particular entre quarterbacks. Um verdadeiro tiroteio. Mannion terminou com 37/43, 422 jardas e 3TDs, atraiçoado por uma defesa permeável, que tudo deitou a perder.

2 – Um dos jogos que atraía o interesse de toda a gente era o de Texas A&M. Johnny Manziel, depois de cumprido o castigo de meio-jogo, regressou. Fê-lo como sempre. Com qualidade, colocando um ponto final na especulação sobre a sua preseason, feita de festas e eventos. Rice, não sendo um adversário de reconhecido valor, deu a luta necessária para manter o entretenimento. Johnny Football lançou pouco (6/8), para parcas 94 jardas, mas fê-lo com elevado acerto, conseguindo 3 touchdowns. As principais armas ofensivas dos Aggies funcionaram quase em pleno. Mike Evans (WR) marcou 2 touchdowns, tantos quantos os do RB Tra Carson. Ben Malena, outro RB que entra no ano sénior, teve um jogo produtivo, com 86 jardas e 1 TD. Uma das apostas da temporada, o wide receiver freshman Ricky Seals-Jones, conseguiu ter impacto na sua estreia. 3 recepções, 84 jardas e um TD para mostrar à família.

3 – Sem Everett Golson, dispensado da equipa, e com Theo Riddick e Cierre Wood no jogo corrido, agora que foram para a NFL, Notre Dame não deu mostras de qualquer fraqueza, vencendo Temple com facilidade e mostrando os predicados do ano passado. Defesa quase inexpugnável, agressiva e opressiva e um ataque que contou com uma boa prestação de Tommy Rees. O QB dos Irish esteve perfeito na primeira metade do encontro, tendo terminado a partida com 16/23, 346 jardas e 3 passes para TD. A prova será dura, com a necessária integração de novos valores a poder ter um impacto negativo, mas a forte presença de alguns veteranos na defesa, permite pensar que Notre Dame pode emular a temporada de 2012. Um dos talentos emergentes parece ser Amir Carlisle, RB vindo de USC e que perdeu 2012, por lesão. 7 corridas para 68 jardas, com uma arrancada impressionante, de 45, logo no 1º quarto, dão alento a quem espera que o jogo corrido tenha a predominância do ano passado.

4 – Já estivemos na SEC, com a menção a Johnny Manziel e os seus Aggies. Regressamos novamente lá. LSU vs TCU era um dos jogos mais apetecíveis da jornada, com duas equipas com talento a defrontarem-se em campo neutro. O jogo não defraudou expectativas. Os Tigers de Les Miles mostraram predicados para serem uma equipa a ter em conta na competitiva SEC. Liderados por Zach Mettenberger que, pese ter sido algo errático no passe, mostrou resiliência e maturidade no pocket, LSU venceu, ancorada no óptimo jogo do WR Odell Beckham. O ataque pressionou sempre a defesa de TCU, mantendo-a em campo longo tempo e desgastando-a em jogadas longas. LSU converteu 13 em 19 third downs, retirando precioso tempo de jogo ao adversário. Este, por sua vez, vive numa encruzilhada, sem decisão sobre o QB principal. Casey Pachall regressou de suspensão e jogou, sem qualquer brilho particular, na 1ª metade do encontro. No pós-intervalo, Trevone Boykin assumiu a batuta de maestro, com sucesso relativo. LSU foi superior em tudo. Jardas ganhas (448 contra 259), na defesa, onde apenas o número anormal de penalidades serviu para equilibrar a contenda e no ataque, onde o dedo de Cam Cameron (coordenador ofensivo, que passou pelos Ravens, no ano passado) começa a funcionar. Mettenberger lançou quase tanto, na 1ª parte (22 passes tentados), do que a média de passes por jogo que trazia de 2012 (apenas 27 tentativas). A ênfase parece clara, numa evidente aposta no passe em detrimento da corrida. Ou isso deveu-se apenas à excelente prestação do front seven de TCU, indomável perante o jogo corrido?

5 – O jogo grande era, sem dúvida, Georgia versus Clemson. Duas equipas poderosas, de conferências diferentes, mas com objectivos similares para a nova época. Georgia, na SEC, assumia uma posição de outsider, resguardada na excelente época de 2012, que os levou às portas da final nacional. Clemson, tendo perdido Andre Ellington (RB que foi para os Cardinals) e DeAndre Hopkins (WR dos Texans), tem o seu calcanhar de Aquiles na defesa, habitualmente porosa, reunindo as esperanças no amadurecimento de Tahj Boyd, um dos melhores quarterbacks da competição. Pois bem, o encontro mostrou que Clemson pode assumir, sem qualquer ponta de vergonha, uma candidatura ao título. O jogo viveu para as expectativas geradas, com Boyd a mostrar uma maturidade impressionante, controlando o ataque da sua equipa com uma frieza digna de registo. À sua conta, foram 270 jardas aéreas (18/30), passando para 3 TDs, com mais 42 no solo e dois touchdowns. Sammy Watkins, a outra offensive weapon de Clemson, mostrou o dinamismo que o caracteriza, sendo sempre um perigo à solta na defesa contrária. 6 recepções, 127 jardas e 1 TD. Do lado do adversário, mais uma vez o destaque foi o running back Todd Gurley. Apenas no seu 2º ano na universidade, Gurley é intimidante na abordagem aos jogos, indiferente aos adversários que enfrenta. 12 corridas, 154 jardas e 2 touchdowns, mantendo sempre os Bulldogs na luta pelo encontro.

6 – É sempre bom dar as boas vindas a jogadores especiais, vindos de lesão. James Franklin, QB de Missouri e Henry Josey, RB da mesma equipa, regressaram. Em grande estilo. O adversário, Murray State, é medíocre, mas isso não impede aquela onda de felicidade, ao analisar a prestação individual de dois talentos. Franklin lançou para 318 jardas, passou para 3 TDs e ainda correu 68 jardas, parecendo refeito das várias mazelas que o apoquentaram, em 2012. Josey correu 13 vezes, adicionando 113 jardas, 68 delas conseguidas num TD impressionante.

7 – Alabama continua igual. Certo? Se atentarmos no resultado contra Virginia Tech, um opositor sempre incómodo, podemos responder que sim. Mas VT apenas se pode queixar de si mesma e do péssimo trabalho do seu special team, que permitiu dois longos touchdowns a Crimson Tide, no resultado de retornos de kicks. Se a isso adicionarmos uma pick 6, numa má leitura de jogo do QB Logan Thomas, chegamos à conclusão que o 35-10 foi resultado de iniciativas individuais/erros primários, do que ao jogo avassalador de Alabama. A equipa orientada por Nick Saban pareceu enferrujada, como colectivo. A rever, em futuros testes…

8 – Um dos jogos mais trepidantes da ronda colocou frente a frente duas equipas que acalentam aspirações semelhantes. Ole Miss e Vanderbilt aparecem em 2013 depois de percursos distintos. Os Commodores têm crescido deforma sustentada na SEC, começando a recolher elogios ao trabalho desempenhado nos últimos anos. Ole Miss, caída em desgraça, tenta agora recuperar algum do poder, confortada por uma óptima campanha de recrutamento, que trouxe alguns prospects interessantes à universidade. O jogo valeu pelos últimos 4 minutos, com várias alterações no marcador. Ole Miss marcou o TD decisivo, já no último minuto, após uma corrida insana do seu RB Jeff Scott de 75 jardas. O esforço inglório de Jordan Matthews, WR de Vanderbilt, merece reconhecimento. O jogador, no seu ano senior, será um dos mais interessantes receivers no draft de 2014. Terminou o encontro com 10 recepções, para 178 jardas e um TD.

9 – E os restantes candidatos aos lugares cimeiros, com possibilidade de disputarem a final nacional? Todos eles, de uma forma ou de outra, satisfizeram os seus adeptos. Oregon, mesmo sem Chip Kelly (actualmente a treinar os Eagles), manteve o ataque demolidor, com três dos seus atletas a averbarem mais de 100 jardas terrestres. O QB Marcus Mariota obteve 113 jardas em apenas 5 corridas, com 2 TDs. Byron Marshall adicionou 124 em 8 corridas e mais um TD para De’Anthony Thomas, um dos mais empolgantes jogadores universitários, fazer o resto: 128 jardas e 2 touchdowns. Mesmo perante um débil adversário (Nicholls State), os Ducks mostraram predicados que os tornam favoritos na conferência.
Ohio State, a equipa liderada por Urban Meyer, que terminou 2012 invicta, tem este ano uma aparente prova de fogo. A universidade, já refeita dos castigos que impediram a sua ida às bowls, quer provar que pode perfeitamente ombrear com as equipas da SEC. O calendário parece feito à medida, com poucos jogos de elevada dificuldade. Na week 1 desenvencilharam-se de Buffalo, perante 103 mil espectadores. Num encontro mais equilibrado do que o esperado, a principal estrela da equipa, o QB Braxton Miller, esteve algo apagado, contribuindo mesmo assim para 2 touchdowns passados. O herói dos Buckeyes foi o running back Jordan Hall, com 159 jardas e 2 TDs.
Os Gators, mantendo imutáveis os pergaminhos recentes, com a força da equipa a residir na defesa e no jogo corrido, não facilitaram e levaram de vencida Toledo, com Mack Brown (RB) a ter o jogo da sua carreira, com 112 jardas e 2TDs. Quanto ao resto, Jeff Driskel liderou o ataque com eficiência, sem grandes sobressaltos, falhando apenas 5 passes no jogo todo.

10 – No duelo particular entre as equipas da Califórnia, habitualmente dominado por USC, 2012 trouxe um novo contendor. UCLA, liderada por Johnathan Franklin, running back agora no roster dos Packers, quebrou essa hegemonia, vencendo a sua zona sul da PAC-12 e disputando a final da conferência contra Oregon. Uma das lufadas de ar fresco da prova foi a efectiva participação de Brett Hundley, quarterback dos Bruins que, no seu ano freshman, mostrou as ferramentas para se tornar um caso sério, a nível nacional. 2013 começou sobre esse auspício. Hundley liderou UCLA a uma vitória contra Nevada, com concludente exibição. 274 jardas aéreas, 62 no solo e um total de 4 touchdowns. USC, ainda órfã de Matt Barkley e de Robert Woods, ambos na NFL, conseguiu vencer fora de portas a dura equipa de Hawai. Nesta luta entre o triunvirato, o único derrotado acabou por ser Cal, que sucumbiu à sempre talentosa equipa de Nothwestern. Esta última é uma das minhas equipas do College predilectas. Kain Colter, Venric Mark e o neófito Treyvon Green são explosivos e merecedores duma olhadela mais prolongada, por parte do fã mais casual. O espectáculo, esse, é garantido.

Jogador da Semana

Quem mais do que Tahj Boyd, quarterback de Clemson? Impressionante no jogo contra Georgia, Boyd torna-se um dos prospects mais desejados para o draft de 2014. A sua curva de aprendizagem tem sido visível, desde 2011, com a evolução natural do atleta a atrair atenções. A vitória é importante, por variadas razões. Clemson entrou na nova temporada no 8º lugar do ranking, dois abaixo do seu adversário de ocasião. Força emergente na ACC, Clemson tem vivido sobre o escrutínio da imprensa, que sempre olhou de soslaio para as equipas da conferência, em comparações nem sempre justas com a SEC. Depois de ter vencido LSU, na Chick-a-fil-Bowl, no final da época passada, Clemson mostra quão desmerecidas são as críticas às equipas de topo da ACC. Se a defesa sempre foi o calcanhar de Aquiles, levando a equipa a perder a supremacia na conferência para Florida State, o jogo contra Georgia mostrou que a força do ataque pode ser suficiente para levar a equipa a outros vôos. Para já, ficou feita a declaração. No sítio e na altura correcta. Clemson é para ser levada a sério.

Menção honrosa para outro quarterback. O jovem Teddy Bridgwater, no seu ano junior, tem visto crescer o hype em seu redor. Aparecendo como o QB nº 1 da competição, em muitos rankings, mereceu atenções redobradas dos scouts da NFL, que compareceram em peso ao jogo contra Ohio Bobcats. Ninguém deu por mal perdido o seu tempo. Bridgwater começou em grande estilo, com 9/9 nas duas primeiras drives, passando para 122 jardas e 2 TDs. Terminou o jogo, deixando água na boca, face aos números finais: 23/28, 355 jardas, 5 TDs e uma INT. Impressionante, com vários passes de mais de 25 jardas.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.