Bills @ Browns: Gato Por Lebre

João Morão 4 de Outubro de 2013 Análise Jogos NFL, NFL Comments
Bills vs Browns

Buffalo Bills at Cleveland Browns

1 2 3 4 F
Buffalo Bills 10 0 14 0 24
Cleveland Browns 0 17 7 13 37

Gato Por Lebre

No início da época quando estava a escrever os artigos dos Power Rankings e das divisões, os Cleveland Browns e os Buffalo Bills eram daquelas equipas que mereciam apenas duas linhas do meu tempo. Uma dessas linhas era usada num exercício arrogante de demonstrarão básica do meu conhecimento da modalidade quando enumerava os bons jogadores (CJ Spiller; Joe Thomas; etc…). A outra era para dizer com um certo desdém que este ano seriam equipas que não iam sair da cepa torta e que iam ficar em último lugar das suas divisões.

Passadas umas semana sobre estas falsas profecias que o meu pretenso entendimento deste desporto me levou a escrever. Olho para os Power Rankings da Week 4 e vejo estas duas equipas a subirem vertiginosamente na escala e acima de equipas que eu elogiei, admirei e a quem vaticinem um futuro bem melhor. i.e: os Steelers, os Vikings, os Buccaneers, os Giants, os Redskins, entre outros.

Por tal blasfémia cometida eu tinha que escrever a cronica deste jogo. A minha via-sacra de arrependimento e respeito por estas duas equipas tinha que ser percorrida. O seu a seu dono tinha que ser dado e humildemente aceitei conhecer um pouco mais sobre estas equipas que estão a ter um bom início de época. Facilmente lutei contra o sono e ontem à 01.30h da manhã, antes do jogo começar, já em modo analítico revia mentalmente os potenciais pontos de interesse a seguir na transmissão:

  • O primeiro ponto de interesse era o comportamento dos dois starter QB das duas equipas. EJ Manuel na equipa de Buffalo e Brian Hoyer na equipa de Cleveland. Apesar de terem percursos diferentes a expectativa à volta de ambos era enorme. EJ Manuel porque na linha da classe de QB do ano passado é o único rookie QB este ano que pode ter um impacto sério na liga. Já Hoyer passou por várias equipas desde 2009 sempre sem assentar em nenhuma até aterrar esta época em Cleveland. Nascido e criado no Ohio é considerado um “menino” da casa. Aliado a este facto e mais importante, é que desde que começou a jogar como starter substituindo Brandon Weeden os Browns começaram a ganhar tudo.
  • Curioso também o facto de perceber qual seria o comportamento dos Browns depois da saída da superestrela Trent Richardson para Indianápolis. Quando todos anunciavam em perfeito descredito que a equipa de Cleveland tinha destroçado a temporada de 2013 e que já só pensava no draft de 2014. És que começam a ganhar todos os jogos que lhes aparecem à frente. Na era Richardson somaram duas derrotas com os Dolphins e Ravens. Na era pós Richardson traziam 2 vitórias contra os Vikings e Bengals (!). Continuariam a série de vitórias ou seriam parados pelos Bills?
  • Por falar neles. Interessante seria também ver nos Bills a sua capacidade de sofrimento enquanto equipa. Uma equipa assimétrica com uma boa defesa (com Mario, Aaron e Kyle Williams, Alan Branch, entre outros), mas desequilibrada ofensivamente. Onde Spiller não tem brilhado. Mais ainda assim com um score de 2W 2L na Week 4.Apesar do bom score os jogos que tinha ganho contra Carolina e Baltimore tinham sido muito sofridos e por diferenças mínimas. Arrancados a ferros. Continuariam a trilhar este caminho difícil mas efectivo?
  • Um polo de interesse adicional na homenagem no intervalo do jogo a Jim Brown. Considerado o melhor jogador de sempre da equipa de Cleveland e um dos míticos running backs da NFL. Fica aqui também o registo e a nossa modesta homenagem. Mas passemos ao jogo que este mito este a acompanhar. Vídeo

O Jogo

Jim Brown que foi um espectador atento da partida deve ter ficado satisfeito com o que viu. Bem. Para ser mais correcto, não deve ter gostado muito do primeiro quarter pois foi claramente dominado pelos Billis. Um começo de rompante da equipa de Buffalo deu-lhes vantagem de 7-0 logo nos primeiros snaps do jogo com um TD de Fred Jackson. Depois com cerca de 4 minutos de jogo decorridos. Um scramble (agora muito na moda) de Brian Hoyer, que estava a começar a jogar bem e a comandar com autoridade o ataque dos Browns é parado pelo Linebacker Kiko Alonzo numa dura placagem que tira definitivamente o QB do jogo. Antes ainda de acabar o primeiro quarter um pontapé do ex-Dolphin Dan Carpenter os Bills a ganhavam por 10-0.

A euforia esfriava. No fim do 1º Quarter os Browns dominados perdiam por 10-0 e perdiam também o seu Quarter Back. As coisas pareciam tremidas. Mas as grandes equipas não se fazem só no talento, fazem-se também na vontade. E não há nada como underdogs motivados. Assim no segundo quarter, mesmo com um tremeluzente Brandon Weeden ao leme os Browns iniciaram a sua resposta. Primeiro com um field-goal e TD de Billy Cundiff e do veterano ex-Bronco Willie McGahee. Nota para a determinação e vontade que o RB colocou no seu TD. Fantástico em esforço, elasticidade e aproveitamento das brechas criadas na defesa contrária.

Depois o momento mais alto de todo o jogo. Fantástico mesmo foi o punt return de Travis Benjamin para TD de 75 jardas a 2 minutos do fim do segundo quarter. Vejam em vídeo num qualquer you.tube perto de si, que nem me atrevo a descreve-la. Esta jogada tem que obrigatoriamente ser considerado como uma das obras-primas desta temporada. A ver e rever até fartar.

Em resumo e voltando ao jogo uma resposta forte dos Browns ao domínio inicial do Bills. Ainda assim os Bills no início do terceiro período empatam com mais um TD desta feita por CJ Spiller numa corrida de 54 jardas. O Jogo estava empatado, lançado e só podia melhorar. Então aconteceu o segundo momento marcante do jogo. A cerca de 8 minutos do fim do terceiro quarter EJ Manuel com a bola nas 30 jardas ofensivas, sem linhas de passe, corre para primeiro down, quando muito a semelhança de Hoyer é atingido no joelho pelo safety Tashaun Gibson. Irremediavelmente sai do jogo. Buffalo consegue colocar-se a frente do marcador com mais um TD do sempre presente Fred Jackson. Mas perdeu o seu playmaker. Com a entrada do rookie Jeff Tuel e saiu de campo toda a capacidade ofensiva da equipa de Buffalo.

A partir daqui só deu Browns. Primeiro algo que os adeptos dos Browns não estão habituados a ver: Um grande passe de 37 jardas de Weeden para o WR J.Gordon para TD. Depois no quarter final mais dois Field-Goals de Cundiff e um TD do Safety TJ Ward ao aproveitar um erro do imaturo Tuel que fechou o resultado e o jogo numa merecida vitória dos Browns.

Foi um jogo bom, como muitos pontos positivos e com emoção. Mas ao contrário da maior parte dos jogos da NFL que se desenrolam em crescendo até à decisão final. As saídas prematuras de Hoyer e de Manuel tiraram qualidade ao jogo e foram-no tornando lentamente menos emotivo e interessante. Cedo se percebeu que a entrada de Tuel tinha definido o jogo e que o monofásico Weeden pouco iria acrescentar a uma vitória anunciada dos Browns. Foi bom mais podia ter sido bem melhor. Dai quando desliguei a televisão a inegável e persistente sensação de ter comido gato por lebre.

As Nossas Escolhas

MVP

Fred Jackson: Num jogo de muitos protagonistas. A minha escolha recai em Fred Jackson. Primeiro pelos números que apresentou: 2 TD com 53 jardas de rushing e 40 jardas de receiving. Capacidade de correr e apanhar a bola fruto de sua excelente dinâmica e mobilidade em campo. Depois porque está a capitalizar a fraqueza de CJ Spiller a estrela da equipa que tarda em arrancar.

Adicionalmente minha escolha deve-se talvez por inconscientemente apreciar jogadores baixinhos que vencem as probabilidades estereotipadas e conseguem construir uma carreira profissional. De jogador de indoor a RB de uma equipa da NFL, a MVP num jogo muito disputado. É sempre uma história que merece ser valorizada e contada.

Positivo

Muita coisa mesmo: Começo por referir novamente a obra-prima que foi o punt return de Benjamin. Tem que ir direita para o Louvre NFL onde se guardam e apreciam as preciosidades. Ainda nos Cleveland dá gosto ver um WR como J.Gordon e um TE como J.Cameron. São jogadores que longe da sombra de Trent Richardson afirmam a capacidade da equipa jogar e atacar de outra maneira: Mais versátil e menos previsível. Queres ver que os tipos dos Browns que eu ridicularizei a quando daquela patética conferencia de impressa a justificar a fuga do seu melhor jogador para Indianápolis… Afinal tinham razão?

Destaques ainda para o omnipresente Joe Thomas e para Willie McGahee a conseguir provar a toda a gente que ainda está para as curvas.

Do lado dos Bills além do MVP pena a saída de EJ Manuel. Se eu tinha dúvidas sobre a sua capacidade com futuro QB, neste jogo deixei de as ter. A jogar muito melhor que RGIII. Vamos ver agora em circunstancia de igualdade (Ambos lesionados no joelho e a jogar). Qual dos dois faz uma melhor época.

Negativo

Para não acabar sempre as minhas cronicas a falar de lesões. Nesta cronica, é o primeiro ponto negativo que aponto. EJ Manuel e Brian Hoyer, nenhum acabou o jogo e os dois saíram lesionados por tackles nos joelhos quando estavam a fazer de running backs. Quando os meus amigos que seguem menos Futebol Americano, vêm um QB em rushing a fazer uma boa jogada e me perguntam: “ É pá. Mas porque é que os Quarter Backs não correm mais com a bola nas mãos? É que resulta!” Eu, silenciosamente, vou passar as imagens deste jogo e não tenho que lhes dizer mais nada.

Outro ponto negativo para a gestão da equipa de Buffalo por terem mandado Travaris Jackson embora. A entrada de um QB rookie sem experiência destruiu quaisquer hipóteses que tinham de ganhar este jogo. Com a pré-epoca e mesmo o cheirinho que Travaris Jackson deu contra os Jaguares, em grande forma… Nesta altura Doug Marrone e Doug Whaley devem estar a chorar.

About The Author

João Morão

As causas são múltiplas: Primeiro em 1998 colocado pela minha empresa na Alemanha, passei alguns fins-de-semana a jogar flag futebol numa base militar americana maioritariamente com a boa gente de Seattle. Desta altura vem o gosto. Depois em 2005 em Jackson Hole (Wyoming) assisti em directo à transmissão do Super Bowl XL dos meus Seahawks contra os Steelers. Foi um jogo de má memória e de pior arbitragem que me deixou um amargo permitido apenas pela perda de algo de que gostamos muito. Desta altura vem a militância. Finalmente: A desilusão e desgaste causado pelas assimetrias, manobras, golpadas e falta de fair-play do soccer, viraram-me definitivamente para um desporto mais justo, mais sério, mais competitivo, mais brutal (é certo), mas de maior entrega e de incomparavelmente maior emoção: O Futebol Americano. Nas horas “vagas” sou pai de 4 filhos (Um deles é dos Giants vai-se lá saber porquê!?).