Cardinals @ Rams: Ponto Final na Invencibilidade

Paulo Pereira 8 de Outubro de 2012 Análise Jogos NFL Comments

Arizona Cardinals at Saint Louis Rams

1 2 3 4 F
Arizona Cardinals 3 0 0 0 3
Saint Louis Rams 7 3 0 7 17

Já Não Há Invictos na NFC West

Alguns mitos foram enterrados com este jogo e várias questões surgiram, com o desenrolar da partida. Mito nº 1 desfeito: Kevin Kolb é um “mariquinhas”. Nada mais errado. O quarterback dos Arizona Cardinals, pese o seu histórico de contusões e mazelas físicas, tem mostrado uma resiliência que importa salientar. Protegido (preencher o espaço aqui com uma sonora gargalhada) pela sua linha defensiva (novamente usar o tom histriónico anterior, e continuar a risada), Kolb é um jogador com a cabeça a prémio, sem possibilidade de efectuar o seu jogo com serenidade. Contra os Miami Dolphins sofreu 8 sacks. Frente a estes St. Louis Rams, a soma subiu. Foram 9, mais uma quantidade quase infindável de pancadas sofridas. O que leva, de imediato, a outra questão: quanto tempo durará Kolb, até sofrer uma lesão? Qual o limite de choque dum corpo humano, sujeito a um tratamento “a la Guantánamo”?

Cardinals vs Rams

Kevin Kolb dos Cardinals tenta avançar com a bola enquanto sofre um tackle por parte do Robert Quinn dos St. Louis Rams

Mito nº 2: Só Chris Long tem as skills de pass rusher nos Rams. Nope. Pensamento errado. Long tem evoluído de forma soberba, nas duas últimas temporadas. É, claramente, o melhor defensive end da equipa. Mas não é o único. Nem será imprescindível. JoLonn Dunbar tem trazido agressividade, para o corpo de linebackers. Mas, no front 4, Robert Quinn tem igualmente sido dinâmico, contribuindo de forma decisiva para que as atenções contrárias não se fixem apenas no parceiro do lado. A sua presença, cada vez mais preciosa, na defensive line dos Rams, tem permitido o aumento de pressão, que era requerida por Jeff Fischer.

O Jogo

Pequenos laivos de brilhantismo no ataque e sólida defesa, de parte a parte. Curiosidade número 1 para este jogo: conseguiria a linha ofensiva dos Cardinals impedir o festim esperado pelos pass rushers dos Rams? NÃO. E, desta feita, nem a óptima prestação da defesa conseguiu suprir as asneiras constantes no ataque. Estes Cardinals possuem qualidade e juventude, permitindo-lhes sonhar com outros feitos. Mas, convenhamos, será totalmente impossível desafiar os 49ers e Seahawks pela supremacia na divisão, enquanto a linha ofensiva não conseguir proteger Kolb e, ao mesmo tempo, criar condições para o aparecimento do jogo corrido. Este, pese o voluntarismo de Ryan Williams, mantém-se num nível desapontante, completamente um não-factor no ataque, incapaz de criar um complemento para o jogo aéreo. Quanto aos Rams, a vitória, 3ª no seu estádio, mostra quão acertada foi a escolha de Jeff Fischer para gerir o destino da equipa. A quantidade de sangue novo injectado no draft trouxe doses maciças de talento, conseguindo camuflar as inúmeras carências da equipa. Pode estar na forja o aparecimento de uma equipa que reviva o período áureo da franquia. No entanto, a vitória deverá ter deixado os responsáveis da equipa com um travo amargo. A lesão de Danny Amendola, o líder da equipa em recepções, jardas recebidas e touchdowns, ensombra o futuro imediato. Ele era – como aliás se viu neste jogo – a ameaça mais consistente e letal, uma deep threat capaz de ludibriar as defesas contrárias.

Cardinals vs Rams Highlights

Highlights do Jogo entre os Arizona Cardinals e os St. Louis Rams

1º Período

Quantos de nós já foram ao cinema, depois de vermos um trailer fascinante, trepidando de acção? Muitos, provavelmente. E depois, saímos de lá algo frustrados, pelo facto do filme não ter correspondido por inteiro às expectativas. Os trailers são montagens astuciosamente feitas, procurando ludibriar o incauto potencial espectador. E qual é a relação desta conversa cinematográfica com um jogo da NFL? Muito simples. Se alguém realizasse um trailer deste jogo, usaria quase exclusivamente as imagens da primeira drive dos Rams. Pena que o resto do jogo não copiou essa entrada de rompante, com as jogadas de ataque a serem coreografadas ao milímetro. Foi servido, logo de entrada, a iguaria principal, deixando a comida sensaborona para o resto da partida. Os Rams entraram a todo o gás, com Bradford a fazer passes sucessivos (um deles espantoso, para uma recepção acrobática de Amendola, num ganho de 44 jardas), demorando pouco mais de 2 minutos até marcarem um touchdown, por Lance Kendricks. Foram 69 jardas em apenas 5 jogadas. Os Cardinals responderam quase na mesma moeda, com uma longa drive (17 jogadas) de 63 jardas a culminar num field goal de Jay Feely (35 jardas). A acção atacante acabou aqui, no 1º período. Os restantes 9 minutos foram uma sucessão enfadonha de punts, com as defesas a mostrarem os seus predicados.

2º Período

A monotonia atacante apenas foi rompida por um dos suspeitos do costume. Greg Zuerlein e o seu pontapé poderoso aliaram-se para novo field goal, de 53 jardas. Parece não haver limites para a destreza de Zuerlein, que capitalizou uma curta drive, com as jardas a virem do jogo corrido, através do esforço de Steven Jackson. Não tendo sido um factor decisivo no desenrolar do jogo, Steven Jackson conseguiu amealhar perto de 80 jardas e alguns primeiros downs importantes. A 3 minutos do final, Jay Feely teve uma oportunidade soberana para reduzir distâncias. Mesmo sofrendo alguns sacks e consequente perda de terreno, Kolb encontrou várias vezes os seus alvos (Early Doucet, Rob Housler e Larry Fitzgerald) para colocar uma distância aceitável para o field goal. 40 jardas que, no entanto, foram desperdiçadas.

3º Período

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Um bocejo, com ataques desinspirados e a patética prestação da linha ofensiva dos Cardinals a facilitar a vida a Robert Quinn e Cª. O único momento de frisson aconteceu a 6 minutos do final, quando um passe de Sam Bradford para Brian Quick, um dos rookies vindos do draft, foi interceptado por Pstrick Peterson. Mas, novamente as mesmas deficiências nos offensive tackles – Bobby Massie tem sido duma nulidade aterradora e D’Anthoine Baptiste não é deste campeonato – impediram o prosseguimento da jogada. Quando ambos não estavam a ser ultrapassados, cometiam penalidades (sobretudo o “holding”), reveladores da insuficiência técnica que grassa naquela unidade. Pobre Kolb.

Cardinals vs Rams

O quarterback dos Arizona Cardinals, Kevin Kolb, sofre mais um sack desta vez por Jermelle Cudjo
Fonte da Imagem: AP Photo/Seth Perlman

4º Período

Tal como no 1º período, os Rams entraram a toda a velocidade, usando o jogo corrido, com alternâncias entre Jackson e o rookie Daryl Richardson. Depois de uma penalidade que custou 10 jardas à equipa (ilegal uso das mãos), Sam Bradford atirou uma bomba, perfeita na precisão, que aterrou docilmente nas mãos de Chris Givens, mais um rookie. 51 jardas, num momento de enorme impacto visual, colocando uma rotunda exclamação no resultado final. Touchdown, comemorado de forma efusiva e um THE END prematuro, com perto de 14 minutos para jogar. Esse hiato de tempo foi passado com os Cardinals a colocarem o modo de desespero em ON. Um tudo-por-tudo, terminado na end zone, com um fumble de Kolb, após sofrer o impacto de novo sack.

As Nossas Escolhas

MVP: Robert Quinn, defensive end dos Rams, numa noite brilhante. Três sacks e uma capacidade poderosa de romper a frágil linha ofensiva dos Cardinals. Quinn, no seu 2º ano, tem padecido dum problema crónico, revelando uma fraqueza constrangedora contra o jogo corrido. Perante este adversário, sem um jogo corrido consistente, Quinn pode respirar de alívio e concentrar-se naquilo em que ele é melhor: a pressão constante contra o jogo aéreo. Para além dos sacks, foi interventivo na linha de scrimmage, desviando dois passes de Kolb. Tem tudo para formar uma parelha demolidora com Chris Long, o seu parceiro do lado oposto.

Positivo: Destaque inicial para dois jogadores que, em função da posição, passam a maioria do tempo despercebidos do grande público. Quando, na offseason, os Rams decidiram cortar os laços que tinham com o punter Donnie Jones e com o kicker Josh Brown, muita gente criticou a medida, por ela favorecer dois rookies, repletos de inexperiência e sem qualquer prova dada. O tirocínio de ambos tem sido feito em jogos exigentes, nunca tendo defraudado quem apostou neles. Greg Zuerlein é a revelação do ano, até ao momento, com uma perna-canhão que o tem feito bater os recordes da franquia. Um após outro. Não tendo sido muito participativo, neste jogo, marcou o único field goal que dispôs, num remate de 53 jardas. Johnny Hekker, o punter, mostrou igualmente que possui uma perna forte, acabando a partida com uma média de 56,9 jardas nos seus remates (7 punts) e com três deles direccionados à linha de 20 jardas do adversário.

Janoris Jenkins, uma das apostas no draft de 2012, foi excelente na cobertura dos receivers dos Cardinals. O jovem, com uma série de alertas comportamentais a acompanharem-no e a exigirem um acompanhamento rigoroso por parte da sua entidade patronal, revelou enorme agilidade na cobertura, conseguindo alguns momentos brilhantes, na defesa do passe.
Chris Givens, wide receiver, mostrou para que servem os rookies. Para entrar e ter impacto imediato. Os Rams pareciam perdidos no ataque, com a ausência de Amendola (saiu lesionado), até que Sam Bradford encontrou Givens colado à lateral. O passe (único feito na direcção do WR) saiu perfeito, tal como a recepção e posterior concretização, numa jogada de 51 jardas. Finalmente, na defesa, merece crédito JoLonn Dunbar, o linebacker que veio de New Orleans, que estabilizou o grupo e tem desempenhado um papel fulcral nas blitzes (participou numa série delas, conseguindo um sack e mais três pressões) e contra o jogo corrido.

Nos Cardinals destaque óbvio para Kevin Kolb. Os seus detractores encontrarão motivos de sobra para a contínua campanha de críticas. Mas Kolb foi, surpreendentemente, bom. Conseguiu colocar os Cardinals várias vezes na red zone, sucumbindo pela ausência de alternativas credíveis no jogo corrido. Com a linha ofensiva incapaz de travar quem quer que fosse, Kolb viveu uma noite atormentada, sem espaço nem tempo para ponderar as jogadas de ataque. Em via disso, optou pelo óbvio. Proteger a bola, não dando azo a oportunidades para o adversário. Daryl Washington parece ser um daqueles casos dum atleta subestimado, mas com exibições notáveis. Washington é o líder dos Cardinals em sacks (colecionou mais um contra os Rams) e em pressões sobre o quarterback. Fazendo parte duma unidade sólida e eficaz, Washington não tem merecido o crédito da imprensa, demasiado focada em Patrick Peterson ou Calais Campbell, mas o seu jogo tem poucos pontos fracos. Patrick Peterson começou de forma lenta, cometendo uma penalidade e deixando que Amendola amealhasse jardas, mas rapidamente se recompôs para conseguir mais uma intercepção (onde demonstrou uma agilidade espantosa) e um passe defendido, em zona limite.

Negativo: O factor que desequilibrou a contenda foi claramente a prestação da linha ofensiva, que roçou o patético. Bobby Massie e D’Anthoine Baptiste, os dois offensive tackles, formaram uma barreira porosa e facilmente dissolvida, com um mínimo de pressão. Também Adam Snyder, guard, se junta a este duo, responsável por vários sacks e pressures sobre Kolb.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.