Divisional Round I

Paulo Pereira 15 de Janeiro de 2013 Análise Jogos NFL Comments

Green Bay Packers, 31 @ San Francisco 49ers, 45

E tudo se resume a isto. Um fim-de-semana intenso e repleto de acção, atempada e ansiosamente aguardado por milhões de fãs, sequiosos de verem os decisivos jogos dos playoffs. Um embate entre os Packers e os 49ers constitui um clássico. As franquias, das mais históricas na já ancestral prova, são reconhecidas potências actuais, dirimindo argumentos para chegar ao Santo Graal da NFL: o Super Bowl. Uma coisa era certa, antes do jogo. Ninguém, em pleno uso das suas faculdades mentais, conseguiria apontar um favorito claro para vencer a partida.

Antes do jogo

Depois de uma maratona de jogos, nenhuma equipa está isenta de lesões, algumas delas em jogadores nucleares. Os 49ers entravam na partida com algumas dúvidas. Justin Smith, o temerário pass rusher, jogaria limitado devido a uma arreliadora lesão nos tríceps. Ao contrário do ano passado, onde Alex Smith foi cimentando a sua imagem de jogador sereno e com qualidade, desta feita a liderança no ataque está entregue a Colin Kaepernick. No sempre cirúrgico posto de kicker, a inquietação crescente com os falhanços de David Akers levaram a equipa a procurar competição para o veterano, trazendo o proscrito ex-Raven Billy Cundiff. Finalmente, um estranho desaparecimento tem atormentado os fãs. O que é feito de Vernon Davis? Presença sempre sólida no ataque e principal alvo, em 2011, de Alex Smith, tem mantido uma estranha apatia nos últimos jogos da fase regular, com apenas 6 recepções nas 6 partidas finais.
Do lado oposto, a esperança – e fé – reside no emblemático Aaron Rodgers. Jogador instrumental, joga em qualquer lado e sob qualquer tempo, mantendo sempre a mesma bitola exibicional. Nos jogos on the road, este ano, o quarterback dos Packers passou para 22 touchdowns e cometeu apenas 5 intercepções, denotando uma invejável capacidade de resistência à pressão e hostilidade do público. Regressado de lesão, Charles Woodson, agora confinado ao posto de safety, constitui uma enorme mais-valia. Com ele em campo, os Packers usam mais as blitzes, algo que pode ser crucial, dada a relativa inexperiência de Kaepernick quando confrontado com elas. Por último, o actual estado de forma de Clay Matthews, importante na vitória sobre os Vikings, é um factor que pode desequilibrar a contenda. O linebacker, com a sua capacidade explosiva, será uma arma preciosa para arremessar contra a OL contrária.

O Jogo e as Figuras

Colin Kaepernick, MVP do encontro, corre para um touchdown

Colin Kaepernick, MVP do encontro, corre para um touchdown
Fonte da Imagem: AP Photo/Marcio Jose Sanchez

Vibrante. Empolgante. Excitante. Não se podia desejar mais. Começou com um erro crasso de Kaepernick, lançando uma pick 6, capitalizada por Sam Shields. Pensou-se que seria o rastilho para uma exibição catastrófica do quarterback, adensando dúvidas quanto à correcção da medida que levou à destituição de Alex Smith, anterior titular. Mas Colin Kaepernick mostrou ter nervos de aço, suportando bem a pressão e reagindo, de forma espantosa. O QB terminou a contenda com 263 jardas passadas, dois TDs, juntando a esse pecúlio obscenos números na corrida. Atentem: 16 corridas. 181 jardas. 2 touchdowns. Repito um número que constitui recorde na NFL, para um jogador naquela posição. 181 jardas corridas. Kaepernick nunca se limitou a explorar as suas evidentes qualidades com as pernas. Beneficiando dum fantástico trabalho da linha ofensiva, que o protegeu como se fosse uma guarda pretoriana, Kaepernick usou os seus alvos de forma regular, explorando os passes longos, onde desenvolveu uma empatia enorme com Michael Crabtree. Kaepernick conquistou inúmeras jardas e preciosos primeiros downs. No ataque, Michael Crabtree continua na fase ascendente da sua carreira. Chegado à liga com enorme hype em redor do seu nome, tardou em mostrar os predicados. Mas, de forma paulatina, tem crescido imenso, explodindo esta temporada. Nos playoffs tem sido letal. Frente a uma secundária onde pontificam Charles Woodson, Sam Shields e Tramon Williams, Crabtree nunca se atemorizou, criando rupturas e dinamizando o ataque. Foram 9 recepções, 119 jardas e duas finalizações, mostrando que será uma das figuras incontornáveis da franquia. Nome já decorado e transformado em herói é Frank Gore, que voltou a ser o de sempre. Um trabalhador infatigável, ajuda preciosa no jogo corrido, ajudando Kaepernick a dinamitar o front seven contrário. O veterano, mais fresco este ano pela profundidade existente no corpo de running backs dos 49ers, carregou a bola 23 vezes, correu 119 jardas e marcou o TD da praxe. Da OL já se falou, em termos elogiosos. Uma unidade que pavimenta o caminho para a corrida como nenhuma outra na liga. Funcionando como um harmónio, não cedeu qualquer sack, limitando Clay Matthews a meras pressões inconsistentes. Joe Staley, o left tackle, mesmo jogando visivelmente com dores, foi um pilar no lado esquerdo, formando um tandem com Mike Iupati que parece impenetrável. Do lado direito, Anthony Davis, o right tackle, abusou dos seus adversários directos, abrindo constantes rotas de fuga para Gore e Cª. A única nota negativa vem das “mãos de manteiga” de Delaine Walker. O tight end começa a ser conhecido pelos constantes drops, largando bolas fáceis e revelando enorme inconstância.

Seria difícil, num jogo parcialmente transformado num tiroteio, passar à margem de Aaron Rodgers. Único entre os seus pares, o quarterback dos Packers é vítima da porosidade da sua linha ofensiva, que raramente lhe concede protecção adequada. Mesmo assim, furta-se à pressão dos pass rushers com relativa facilidade, carregando a equipa nos ombros. Não tendo sido imperial, como noutras situações, mostrou a sua precisão habitual (26/39 no passe), terminando com 257 jardas, 2 TDs e uma INT. Com os pés conquistou 28 jardas, em apenas 3 corridas. DuJuan Harris, um random que os Packers descobriram recentemente, conseguiu mostrar algumas qualidades no jogo corrido, mostrando resiliência face às difíceis condições, defrontando uma intratável defesa. As suas 4.8 jardas de média, nas 11 corridas a que teve direito, mostram capacidade de furar tackles e poder físico que lhe garantirão um lugar no roster, em 2013. O jogo, uma reminiscência da jornada inaugural da temporada, voltou a colocar a nu as fragilidades da equipa, nomeadamente no sector defensivo. A defensive line foi impotente para travar as investidas terrestres, com CJ Wilson e BJ Raji a serem dominados pela OL contrária. A run defense foi catastrófica, com as culpas a incidirem igualmente no corpo de linebackers. Eric Walden e Dezmon Moses mostraram falta de dinamismo e vários tackles falhados. É um GAME OVER para os Packers e uma forte declaração dos 49ers, cada vez mais favoritos na NFC.

Baltimore Ravens, 38 @ Denver Broncos, 35

Seria este o último jogo do mítico Ray Lewis? Conseguiria Peyton Manning manter a sua invencibilidade, sempre que defronta a equipa de Baltimore? Perguntas que permanecerão sem resposta, até ao final do jogo. Uma coisa é certa. Ninguém, no ano passado, mesmo após o “milagre” de Tebow contra os Steelers, admitiria, nem de forma remota, que estes Broncos seriam sérios candidatos a vencerem a prova. Beneficiando da recuperação de todas as faculdades de Manning, a equipa solidificou-se de forma exemplar, entrando numa série de consecutivos triunfos que a tornaram a 1ª seed da AFC e, por isso, com o benefício de disputarem todos os jogos da postseason no seu terreno. Vendo os Ravens, longe da qualidade que exibiram em anos recentes, a contenda parece um mero pró-forma, com o triunfo garantido para os Broncos. Mas os Ravens são da estirpe do “antes quebrar do que torcer” e a forma como despacharam os Colts, na semana anterior, comprova que podem fazer mossa.

Antes do jogo

A luva. Isso mesmo. Quando um QB como Manning começa a usar uma luva, dum momento para o outro, isso é notícia. O que levou o veterano jogador a usar o adereço, nas últimas partidas? Explicado pelo próprio, sem qualquer subterfúgio, a falta de sensibilidade nas mãos, com as baixas temperaturas, levou-o a adoptar uma superfície mais rugosa, permitindo que a bola ganhasse maior aderência à mão. Do outro lado, depois do despedimento de Cam Cameron, o ex-coordenador ofensivo, Joe Flacco provou ter qualidade para levar a equipa ao título, com uma excelente prestação frente aos Bengals. A questão é se beneficiaria da ajuda de Ray Rice, ou se o running back voltaria a comprometer, depois dos dois fumbles contra a equipa de Cincinnati. O jogo teria sempre um interveniente menos conhecido, mas com capital extra de experiência e conhecimento íntimo de Manning. O coordenador defensivo dos Ravens, Dean Pees, antigo treinador assistente nos Patriots, onde defrontou várias vezes Manning, poderia aproveitar esse traquejo para criar a perfeita limitação das reconhecidas capacidades do adversário. Conseguiria?

O Jogo e as Figuras

Jacoby Jones comemora o empate, quando o tempo se escoava

Jacoby Jones comemora o empate, quando o tempo se escoava
Fonte da Imagem: AP Photo/Joe Mahoney

Melhor jogo do ano? Não sei responder a isso. Mas apetece escrever que, agora sim, começaram os playoffs. Wildcard Weeekend? Pfff. O melhor fim-de-semana do ano, na NFL, é este, quando a divisional round começa. E que melhor maneira de abrir as hostilidades do que um jogo emocionante, com direito a duplo prolongamento? A partida foi atípica. Pareceu, desde cedo, controlada pelos Broncos, que davam razão ao claro favoritismo e exibiam um domínio que, não sendo intenso e total, mostrava diferença na qualidade. Mas, sempre que a equipa de Denver parecia querer resolver a contenda, aparecia uma big play inesperada, do lado contrário. Vamos por partes, sob pena de perdermos protagonistas: Trindon Holliday saiu do anonimato onde vivia mergulhado, transformando-se num dos protagonistas do encontro. Quem é ele? Bem, para responder a isso é necessário recuar no tempo. Ouvi – e vi – falar dele num vídeo no youtube, onde exibia a camisola de LSU numa prova de track&field. Holliday, velocista exímio, venceu a prova nacional dos 100 metros, derrotando Jeff Demps, medalhado nos últimos Jogos Olímpicos na estafeta dos 4×100 metros. Por isso, quando foi escolhido pelos Texans, segui a sua carreira com atenção. A preseason foi demolidora, com Holliday a justificar a aposta e a ser um retornador de kicks e punts explosivo. Marcou dois, permanecendo no roster. Mas, durante a época regular, e depois dum fumble e de algumas jogadas menos conseguidas, foi “despachado”. Os Broncos resolveram dar uma oportunidade ao miúdo. Em boa hora. Holliday, baixo e franzino, parece incapaz de quebrar um tackle. Também não precisa. Só necessita de open field para depois ligar o turbo. Marcou dois touchdowns na época regular, mostrando consistência. E explodiu literalmente neste encontro. Primeiro, num retorno de 90 jardas, correndo intocável para abrir as hostilidades no marcador. Os Ravens ripostaram, de forma espectacular. Joe Flacco explorou a velocidade de Torrey Smith e a debilidade na marcação de Champ Bailey, para um dos grandes lances do encontro. Foi a fase louca da partida. Peyton Manning lançou uma pick6, aproveitada por Corey Graham. Os Broncos revertaram o avanço do adversário no placard, com o mesmo Manning a redimir-se a lançar para dois TDs (Brandon Stockley e Knowshon Moreno). Novamente os Ravens, parecendo cansados e perdidos, empataram, com Flacco e Torrey Smith a humilharem Champ Bailey, em nova jogada fantástica. Trindon Holliday apareceu, no 3º período, retornando um kick para TD, em alucinante correria de 104 jardas. Parecia um conto de fadas, com o estádio lotado a celebrar um feito inovador na história dos playoffs. Os contos de fadas nem sempre têm finais felizes. Ray Rice empatou. Demaryius Thomas colocou os Broncos novamente à frente e, depois, apareceu o desmancha-prazeres. O ambiente festivo era uma realidade. O cronómetro, impiedoso, mostrava apenas 1 minuto para terminar o jogo. Tudo parecia terminado. Até Flacco receber a bola nas mãos. Apenas 3 homens dos Broncos apareciam no pass rush. Era evidente o conservadorismo da abordagem, com John Fox a preferir manter 8 homens na cobertura de qualquer rota. Todos vivemos para momentos destes, que nos exaltam as emoções. Encostados às cordas, como um boxeador à beira do nocaute, Flacco fez um passe miraculoso, fazendo a bola sobrevoar toda a defesa, para aterrar nas mãos de Jacoby Jones. 70 jardas surpreendentes, desnudando o mau jogo da defesa dos Broncos, estranhamente inquieta e tensa. O empate, obrigando o jogo a ir para prolongamento, foi apenas uma prenda para os fãs, presos e fascinados neste duelo empolgante. No final, prevaleceu o underdog. Os Ravens, mercê dum FG de Justin Tucker, venceram um combate faiscante, proporcionando mais uma semana de esperança a Ray Lewis, que se despedirá no final da temporada. Conseguirá ele um anel de campeão?

Num encontro repleto de histórias, com heróis e vilões, Peyton Maning será o mais crucificado. O desporto é assim. Um jogo mau e, onde anteriormente existia idolatria, surge a censura. Manning foi magnífico, neste seu regresso à competição. Infelizmente, para ele e todos aqueles que desejariam um embate (mais um) entre ele e Tom Brady, Manning cometeu erros. Demasiados. A pick 6, se polémica porque parece que Eric Decker sofre um pass interference, ditou 7 pontos para o opositor. Depois, um fumble perdido, levou a nova pontuação do adversário. Finalmente, no prolongamento e quando qualquer erro poderia ditar a derrota, Manning errou um lançamento, permitindo a intercepção. Com ela o adeus, doloroso, ao sonho acalentado por tantos, durante a época. Champ Bailey, o cornerback Pro Bowler, coleccionou desaires sucessivos, vivendo um jogo de pesadelo, incapaz de travar Torrey Smith. Questiona-se se a opção técnica de deixar o veterano em man coverage, perante um dos receivers mais rápidos da liga, terá sido a indicada. Normalmente, os adversários que defrontam os Ravens, optam pelo uso duma garantia suplementar: um safety, acorrendo em socorro, caso exista separação na rotas corridas. Finalmente, Rahim Moore terá muito que explicar, Como é possível o safety, na jogada final do tempo regulamentar, ter permitido a recepção a Jacoby Jones, falhando completamente na cobertura e no tempo de salto?

Nos Ravens, habituados a vencerem nos playoffs pelos esforços da defesa, foi o dia dos dogmas quebrados. A defesa permitiu 35 pontos, o máximo na história da franquia, nos jogos a eliminar. Foi o ataque, capitaneado por Joe Flacco, que resolveu a contenda, de forma impressiva. O quarterback parece ter beneficiado da troca de coordenador ofensivo, aparecendo mais solto e procurando os passes longos. Flacco foi instrumental, sem ter cometido erros e passando para 3 touchdowns e ganhando 331 jardas. É impossível passar ao lado da performance de Corey Graham, o cornerback que foi contratado para ser um elemento fulcral no special team, mas que se tornou crucial nesta partida, com as suas duas intercepções (uma delas retornada para TD). A run defense, liderada por Haloti Ngata, coadjuvado pelo mítico Ray Lewis, e com as preciosas contribuições de Courtney Upshaw e Kemoeatu, tiveram um peso acrescido, retirando de jogo um dos maiores perigos do adversário. Tudo somado, a equipa de Baltimore mostrou uma resiliência que a coloca perante um déja-vu. A repetição da final da conferência, contra os Patriots. No ano passado, Lee Evans, dropando um TD certo, e Billy Cundiff, falhando um FG, impediram Ray Lewis de estar presente em novo Super Bowl. E desta vez, quem prevalecerá? Não perca, Domingo, numa televisão perto de si…

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.