Divisional Round II

Paulo Pereira 18 de Janeiro de 2013 Análise Jogos NFL Comments

Houston Texans, 28 @ New England Patriots, 41

Aqui, de forma clara, existia um favorito. A equipa da casa, cujo ataque demolidor provoca calafrios nos adversários. Na memória de todos que acompanham as incidências da NFL está o correctivo aplicado por estes Patriots aos Texans, numa memorável exibição colectiva que desnudou as evidentes dificuldades da turma de Houston. Os 42-14 com que foram humilhantemente despachados podem ter provocado um temor psicológico na abordagem a este encontro. Mas, por outro lado, será que o excesso de confiança, que Bill Billichcick procurou combater, faria relaxar a equipa de Boston?

Antes do Jogo

Parceria de sucesso, com mais de uma década: Bill Bellichick e Tom Brady

Parceria de sucesso, com mais de uma década: Bill Bellichick e Tom Brady
Fonte da Imagem: AP Photo/Stephan Savoia

Quando os Patriots aplicaram o blowout a estes mesmos Texans, o tight end Rob Gronkowski, uma das suas maiores estrelas, esteve ausente, curando as mazelas físicas. Com ele de regresso aos relvados será interessante verificar como o adversário lida com a sua presença em campo. Gronk é a principal ameaça na red zone, tendo 11 TDs em 11 jogos, com a sua envergadura física a constituir um obstáculo a uma marcação e cobertura adequadas. Tom Brady, mais preocupado em vencer o jogo, pode entrar na história, ele que já tem um papel de relevo no jogo. Se vencer ultrapassará o seu herói de infância, Joe Montana, e será o QB com mais vitórias na postseason. Um dos matchups mais interessantes é o confronto entre Aqib Talib, o mais experiente cornerback dos Patriots, e o receiver Andre Johnson, a principal ameaça dos Texans no jogo aéreo.

Do outro lado, a principal preocupação é retirar o ataque dos Patriots de campo, durante o maior tempo possível. Como fazer isso? Simples. Arranjar forma de pavimentar o caminho para Arian Foster fazer o que sabe melhor. Se os Texans conseguirem impor o jogo corrido, a probabilidade de vencerem aumenta de forma significativa. A outra unidade, a defesa, terá que jogar perto da perfeição. Existe enorme curiosidade em saber se Glover Quin, safety, conseguiria “secar” os tight ends dos Patriots, depois de ter feito exactamente isso a Jermaine Gresham, TE dos Bengals, no jogo anterior. O front seven terá que ser bem mais pressionante do que foi no passado. Contando com Brooks Reed, que falhou o embate anterior com os Patriots, a missão parece complicada. Chegar a Brady é um quebra-cabeças. O QB dos Patriots é aquele que, na liga, tem o lançamento mais rápido, evitando permanecer com a bola nas mãos mais tempo do que o necessário.

O jogo e os Destaques

Herói momentâneo, Shane Vereen mostra os seus dotes de potencial receiver

Herói momentâneo, Shane Vereen mostra os seus dotes de potencial receiver
Fonte da Imagem: AP Photo/Charles Krupa

Pese o equilíbrio verificado ao intervalo, a superioridade patenteada em campo era reveladora. Os Patriots estavam melhores e feriam, sempre que possível, os Texans. Josh McDaniels, o coordenador ofensivo da equipa de Boston, até pode nem ter sucesso como head coach, depois da passagem inglória por Denver. Mas é uma mente brilhante ao serviço dos Patriots, nas suas passagens pela franquia. Acreditando piamente no quarterback que a equipa tem, o ataque tem sido demolidor, com aquela vertente de up tempo a confundir os adversários e a nunca lhes dar espaço e tempo para rectificar situações. Talvez seja esse o segredo. Uma unidade que funciona e pensa como um núcleo, jogando quase de olhos fechados. Ter Tom Brady, mais do que qualquer outro jogador, é crucial para este sucesso. O resto parece dispensável. Vejamos o caso de Rob Gronkowski. É, quase unanimemente, considerado o melhor tight end da liga. Com ele, nos 11 jogos disputados, os Patriots conseguiram uma média de 35 pontos e 434 jardas. Sem ele, após a lesão, a equipa manteve quase inalterada a média. 34 pontos e 417 jardas, de média, permitindo concluir que a ausência de Grok não provocará mossa nos Patriots. Na falta dele, Brady elegerá um novo alvo. Contra os Texans, para lá da habitual parceria de sucesso com Wes Welker (8 recepções para impressionantes 131 jardas), Brady promoveu um desconcertante Shane Vereen para figura do jogo. O running back, que no jogo corrido acrescentou 41 jardas e marcou um touchdown, explodiu como referência no jogo aéreo, conquistando 5 recepções para ganhos de 83 jardas, onde marcou 2 TDs. Dinâmico e explosivo, Vereen foi a surpresa resguardada dos olhares dos Texans, até à hora decisiva. Brady, esse, esteve exímio, falhando poucos passes (25/40) e passando para 3 TDs (os 2 de Vereen e 1 de Lloyd). Nada disto seria possível, se não existisse uma linha ofensiva repleta de predicados. O trabalho de sapa deles (e falo aqui genericamente, abordando o conjunto da NFL) é bastante subestimado, sem grandes parangonas mediáticas. O lado esquerdo da OL dos Pats foi imperial. Logan Mankins e Nate Solder foram imbatíveis. Mais do que serem efectivos protectores de Brady, ambos elevaram o jogo para o chamado 2º nível, aparecendo a furar a oposição e chegando à linha de linebackers contrários, pavimentando o caminho para as corridas de Ridley e Vereen.

Para os Texans, a derrota nada tem de vergonhoso. A franquia, a mais nova na NFL, tem sabido evoluir de forma paulatina. Primeiro, conquistando a hegemonia na sua divisão, que venceu nos dois últimos anos. Depois, aparecendo nos playoffs, feito inédito na história da franquia, em 2011. Equipa sólida e consistente, poderia ter almejado a algo mais, mas fraquejou no final da época regular, perdendo o factor casa. E esse foi crucial. Com uma linha ofensiva de luxo, onde pontificam Duane Brown (um dos melhores left tackles da liga) e Chris Meyers (um center de elite), o pass protection é uma realidade, protegendo Matt Schaub de forma conveniente. A diferença, entre as equipas, poderá estar aqui. No posto de quarterback. Schaub não é mediano, mas também não atinge patamares elevados, quando é necessário arriscar no jogo de passe. Desempenha a função, de forma competente, mas sem brilho. E a equipa ressente-se disso, apoiando-se quase sempre na vivacidade de Arian Foster. O que mais se destacou, pela negativa, foi a falta de efectividade do pass rush. Connor Barwin, Brooks Reed, Whitney Mercilus e JJ Watt combinaram apenas para 1 sack, nunca provocando pressão suficiente para abrandar o ritmo de Brady. E assim, de forma natural, uns avançam para nova final de conferência e os outros entram de férias, com um travo amargo a frustração.

Seattle Seahawks, 28 @ Atlanta Falcons, 30

Um embate entre pássaros? Prometia. Os Falcons, mesmo com a 1ª seed na NFC, passam despercebidos. Equipa pouco mediática, low profile, com talento mas estranhamente esquecida, quando se fazem conjecturas para os prováveis vencedores da competição. A franquia tentou apagar o estigma que carregava, no pós-escândalo de Michael Vick. Fê-lo de forma competente. Com um novo dono – Arthur Blake, o fundador da Home Depot – e um general manager com o ADN dos Patriots – Thomas Dimitroff – a equipa focalizou-se no draft e na adição de free agents com o perfil correcto para as novas necessidades, crescendo de forma sustentada. Mas, mesmo com o reconhecido valor, continua a vigorar uma mácula. Falta a Mike Smith, o head coach, uma vitória nos playoffs. A ele e a Matt Ryan, juntos nesta aventura, desde 2008. Os Falcons desiludem os seus fãs, na fase a eliminar, presos dum temor que os leva a desbaratar o factor casa (como em 2010, frente aos Packers) ou a serem presas fáceis, on the road (o exemplo do ano passado, vergados facilmente pelos Giants). Pressentia-se que este embate representava bem mais do que um jogo. Era uma encruzilhada no destino dos Falcons. Seriam eles capazes de ultrapassarem o seu cabo das Tormentas?

Julio Jones, aqui travestido de defesa, capturando a bola, no Hail Mary desesperado dos Seahawks, no último segundo

Julio Jones, aqui travestido de defesa, capturando a bola, no Hail Mary desesperado dos Seahawks, no último segundo
Fonte da Imagem AP Photo/ David Goldman

O opositor é uma das novas coqueluches dos media e dos fãs casuais. Merecidamente. A franquia de Seattle, tal como o adversário, fez do draft uma coutada particular, elegendo de forma criteriosa talentos para as várias posições. A jóia da coroa é, claro, Russell Wilson, segredo bem guardado da universidade de Wisconsin, revelado este ano, após descoberta na 3ª ronda do draft. O rookie, aparentemente eclipsado na adoração pública, preterido a RG3 e a Andrew Luck, realizou uma temporada de sonho, liderando a equipa mais jovem da liga aos playoffs. Em excelente momento de forma colectivo, tudo era expectável para este grupo de jogadores. Depois de vencerem fora os Redskins, seriam eles capazes de vencer o cansaço (os Seahawks são a equipa, nos playoffs, que mais viajou de avião, com viagens a rondarem as 6 horas de duração) e triunfarem em Atlanta? E Wilson, voltaria a deslumbrar, ele que tem nos últimos 5 jogos 11 touchdowns (8 passados e 3 corridos) contra apenas uma intercepção?

Antes do Jogo

Dúvida primária nos visitantes: a perda por lesão do defensive end Chris Clemons seria sentida, ou Bruce Irvin daria conta do recado? A escolha de Irvin, no draft de 2012, não esteve ausente de polémica. Escolhido no 1º round, muitos consideraram a acção um reach, dado o jogador estar programado para sair, na maioria dos mocks drafts, apenas no 3º round. Os Seahawks, imunes à controvérsia, viram nele qualidades únicas de pass rusher. Usado como linebacker situacional, as suas skills estão claramente vincadas para o ataque ao passe, sendo inócuo no resto das funções. Chris Clemons, um defensive end importante no esquema 3-4 da equipa, tinha uma importância acrescida, sendo um bom run defender, mas nunca menosprezando o ataque ao QB adversário.

Quanto ao resto, vários factores de curiosidade. Os Falcons pareceram sempre uma equipa “manca”, ultra-dependente do jogo aéreo, com o seu jogo terrestre a obter números pedestres. Do outro lado, o denominado “beast mode” constitui sempre uma ameaça série e letal. Marshawn Lynch é um monstro, com 11 jogos na temporada acima das 100 jardas. A diferença no resultado final poderá bem-estar aqui, no enorme fosso que separa ambas as unidades de running backs.

O Jogo e os Destaques

Matt Bryant, kicker dos Falcons, rejubila após marcar o FG vitorioso

Matt Bryant, kicker dos Falcons, rejubila após marcar o FG vitorioso
Fonte da Imagem: AP Photo/John Bazemore

Correspondeu por inteiro às expectativas. Um jogo intenso, repleto de emoção e com um daqueles finais que perdurarão na memória de quem assistiu. Os Seahawks voltaram a dar metade do jogo de avanço, revelando uma total incapacidade para progredirem no terreno. O resultado de 20-0, ao intervalo, parecia carimbar uma vitória fácil e justa, para a equipa da casa. Como esperado, Matt Ryan não se coibiu de usar as suas duas armas no jogo aéreo, procurando amiúde Júlio Jones e Roddy White, mesmo com estes a emparelharem com dois dos melhores cornerbacks da liga: Brandon Browner e Richard Sherman. Isso não foi surpreendente. O que espantou os presentes no estádio – e todos os que assistiam via tv – foi o aparecimento do jogo corrido dos Falcons, com Michael Turner e Jacquizz Rodgers a serem instrumentais, conseguindo ganhos importantes e desestabilizando a defesa contrária. O bom dia dos running backs dos Falcons não pode ser dissociado da boa prestação dos offensive linemen, com blocos importantes.

Matt Ryan, com 3 passes para TD e duas intercepções, teve um jogo atípico, denotando algum nervosismo durante a partida. A sua segunda INT podia ter custado a vitória no encontro. Mas o quarterback, a que muitos alcunharam de “Ice”, pela frieza que demonstra, fez jus a esse epíteto, mesmo no final. A equipa perdia por 1 ponto. A bola estava na linha das próprias 28 jardas. O relógio mostrava que faltavam apenas 30 segundos. Ryan arriscou. Primeiro, para Harry Douglas, o terceiro wide receiver da equipa, e principal ameaça no slot. O ganho, de 22 jardas, permitiu a manutenção da esperança. De seguida, quase como selando um compromisso, Ryan conectou-se com Tony Gonzalez, o mítico tight end que procurava a sua primeira vitória nos playoffs. As mãos seguras e confiáveis de Gonzalez permitiram um ganho de 19 jardas. E pronto. Num passe de mágica (Ryan já tinha feito o mesmo, na época regular, contra os Panthers) os Falcons salvaram in-extremis um jogo que tinha a palavra derrota escrita, em letras garrafais.

Se a primeira parte foi um passeio, a segunda foi um pesadelo, com a cobertura a cargo da secundária a mostrar sinais de debilidade. Dunta Robinson e Asante Samuel permitiram várias recepções e ganhos importantes, com Sidney Rice e Golden Tate a aproveitarem. William Moore, regressado de lesão, sentiu também dificuldades no fundo do terreno, enquanto o corpo de linebackers nunca encontrou a fórmula para parar Zach Miller.

O tight end dos Seahawks realizou um jogo fabuloso, correspondendo por inteiro aos passes de Russell Wilson. Miller recebeu 8 bolas para um ganho abissal de 142 jardas, marcando um TD. Nessa recuperação, iniciada após o intervalo, apareceu Russell Wilson, em todo o seu esplendor. Será difícil escamotear a candidatura dele a rookie do ano. Wilson, quer com o passe, quer fugindo do pocket e conseguindo as jardas necessárias, realizou as tarefas com brilhantismo. Preciso, conseguiu 24/36 no passe, lançando 385 jardas e conseguindo 2 TDs. No jogo terrestre foi o elemento mais destacado, conseguindo 60 jardas em 7 corridas e marcando o TD da praxe. Ele, mais do que ninguém, merecia o prémio de disputar a final de conferência. E ela esteve perto. A meros 30 segundos. Foi esse o tempo que Matt Ryan, com os Falcons a perderem por um ponto, necessitou para colocar Matt Bryant em field goal range. As 49 jardas, quando o cronómetro mostrava apenas 8 segundos para o fim, foram electrizantes. Quase como se de um thriller se tratasse, Bryant partiu para a bola, preparando o remate, sabendo que aquele field goal era o mais importante da sua carreira. Um falhanço e os Falcons seriam alvo de escárnio, por terem claudicado novamente. Um remate certeiro e a tensão, visível e palpável, seria aliviada. Pete Carroll, o treinador dos Seahawks, pensou o mesmo. Num gesto usual, como estratégia para abalar a concentração do kicker, pediu um desconto de tempo, coincidindo com o momento em que Bryant rematava. Ironia do destino. Aquele FG foi falhado e, se não fosse esse timeout, a equipa de Seattle teria obtido uma vitória homérica. Ao invés, o kicker teve direito a nova oportunidade. E não a desperdiçou. Os 21 pontos sem resposta, conquistados pelos Seahawks, depois de perderem por 27-7, revelaram-se vãos. O desporto tem também esta faceta, de pura crueldade, quando o derrotado sente que foi injustiçado. Os Seahawks foram, contudo, mais réus do que vítimas. A finalizar a primeira parte, e a apenas 10 jardas da end zone adversária, a má gestão do cronómetro levou a que fosse desperdiçada a possibilidade de colocar pontos no marcador, deixando o tempo esvair-se. Já antes tinha sido questionável, com a equipa a perder por 10 pontos, a opção por um 4-and-1, em detrimento dum FG de fácil execução. Tudo somado, demasiados erros próprios, que levarão certamente a alguma maturação e ganho de experiência, para que em 2013 não se repitam. Nota final para o mau desempenho de Marshawn Lynch, com novo fumble comprometedor (já tinha acontecido o mesmo contra os Redskins, na ronda anterior), nunca conseguindo impor o seu poder e vigor físico. Anulado, com relativa facilidade, Lynch foi um não-factor na procura da vitória, deixando a equipa demasiado dependente do jogo aéreo e de Russell Wilson.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.