E a NFL Veio à Europa…

Paulo Pereira 4 de Outubro de 2013 Análise Jogos NFL, NFL Comments
A NFL em Londres

E a NFL Veio à Europa…

Déjà-vu? Nem por isso. As emoções, a ansiedade, a inquietação. Tudo foi igual. Estreei-me nestas idas a Londres, para ver jogos da NFL, no ano passado. Foi uma decisão quase compulsiva, tentando mitigar o crescente anseio de querer mais. Já não me contentava com os jogos na TV, cortesia do Game Pass. Ou contentava, e a ida era apenas a extensão lógica do tempo e paixão dispendidos ao futebol americano? Independentemente da resposta, vivi o Patriots vs Rams como um miúdo a quem, de repente, tivessem franqueado a entrada num mundo mágico. Repleto de brinquedos apetecíveis. Nem a ausência de um tailgate condigno desse nome me defraudou as expectativas. Deslumbrado, tentei reter na memória cada recordação. Cada pedacinho daquele momento, que uniu fãs de toda a Europa. Decidi, no exacto momento em que saí na estação de metro de Wembley, empurrado por uma mole humana compacta, que estaria lá no ano seguinte, ainda longe de imaginar que essa promessa me colocaria, um ano depois, na esteira dos Vikings, a minha equipa predilecta. Dizem que a experiência costuma trazer calma e pacatez, em doses suplementares, nas vivências fora do contexto habitual. Tretas. O nervosismo apoderou-se de mim, dias antes. Ora era a previsão meteorológica que me incomodava, pesquisando quase de hora a hora a possibilidade de chuva ou frio. Ou, num comportamento obsessivo-compulsivo, verificava a mala, para analisar pela centésima vez se não me tinha esquecido de nada. Máquina fotográfica? Check. Carregador? Check. Escova de dentes? Check. Muda de roupa? Check. Libras? Check. Fazia isto, num ritual diário. E o bilhete? O maldito bilhete, perguntava aquela vozinha interior? E lá ia eu desarrumar tudo outra vez, à procura do rectângulo mágico de papel. Ufa. Ainda lá estava.

Antes de vos falar do jogo, eis uma preparação de viagem a Londres, para aprendizes:

  • Bilhete. Pesquisar, com meses de antecedência, o site europeu da NFL, para ter possibilidade de escolha. Saber de antemão quanto se quer gastar. Para os Patriots x Rams em 2012, escolhi o bilhete mais barato (50 libras), calhando-me em rifa uma zona lateral (nada mau), no anel superior do estádio. Tive, na altura da compra, a possibilidade de escolher a fila, dado que nos aparece o esquema dos assentos do estádio. Escolhi a fila da frente, nesse anel superior, ficando com uma vista totalmente desimpedida para o campo e com possibilidade de uso contínuo da máquina fotográfica. Para o Vikings x Steelers, abri os cordões à bolsa, escolhendo um bilhete de 100 libras, numa das zonas mais centrais do estádio e bastante perto do capo. O objectivo? Poder tirar fotos (uma das minhas paixões) em condições bem superiores às do ano passado. Basta ter máquina e lentes para o efeito.
  • Hotel. Não há que enganar. Londres tem preços totalmente díspares, para todo o tipo de bolsas. Se a intenção da trip é ver o jogo e, se possível, dar uma olhadela aos principais ex-libris da cidade, nada como encontrar um hotel central, barato e com qualidade. Já estive várias vezes na capital inglesa, passando por várias experiências de alojamento. A melhor? A relação qualidade/preço aconselha o hotel Comfort Inn Buckingham Palace Road, situado a escassa centena de metros da Victoria Station. E este pormenor faz a diferença. Aterrando no aeroporto de Gatwick, a opção mais prática e rápida a nível de transporte para a capital é o Gatwick Express, um comboio que em meia-hora nos coloca no centro do turbilhão da terra de Sua Majestade. O Gatwick Express termina a viagem na referida Victoria Station. Já estão a acompanhar? Sair, 2 minutos até ao hotel, pousar as malas, 2 minutos para a estação e, de lá, apanhar o Metro. Prático, eficaz e com enorme poupança de tempo. Usei o Booking.com para efectuar a reserva a pagá-la, através de cartão de crédito. Preço? 279 libras, para 3 noites, para um quarto de casal com pequeno almoço incluído.
  • Avião. É o que quiserem. Ryanair, Easy Jet ou a TAP. A palavra de ordem é comprar com antecedência, conseguindo com isso melhores preços. Optei, tanto em 2012 e 2013, por viajar na TAP. A diferença de preço para as low-coast não é significativa (paguei mais 30 €, sensivelmente), com o vôo a partir às 9 da manhã do Porto, ao invés do madrugador vôo da Ryanair, às 6,30 da manhã. Para quem viaja para o aeroporto, de longe (sou de Aveiro), o ganho no horário é significativo. É lógico que também tem o seu lado reversível. Com a TAP chega-se mais tarde a Londres, com o voo a aterrar perto das 11.30 em Gatwick. Daqui para a cidade não tem nada que saber. Novamente. É fazer uso do computador e do cartão de crédito e comprar uma viagem de ida e volta no Gatwick Express. Este é um comboio que faz a ligação entre o terminal e a estação de Victoria, em Londres, a cada 15 minutos. Demora cerca de 30 a 40 minutos a percorrer a distância. E pronto. Estamos em Londres. Até à hora do jogo, o que fazer?

Bem, é uma pergunta que tem respostas variadas. E com variáveis. Tudo é possível em Londres. Bem, quase tudo. Jantar com a Jessica Alba, a Charlize Theron ou a Scarlett Johansson não está no cardápio. Só mesmo para os mais afortunados. Devaneios românticos à parte (sobretudo porque fui acompanhado pela cara-metade nesta aventura), para os fanáticos pela Premier League, nada melhor do que fazer um mini-rodeio pelos estádios do Arsenal, Chelsea e Tottenham, gastando umas libras suplementares nas megastores dos clubes. Se a intenção é manter o foco na NFL, porque não uma ida a Regent Street, bem perto de Piccadilly Circus? Lá, no Sábado que antecede o jogo, costuma realizar-se um evento que recria um pouco da atmosfera de um jogo nos States. Um palco, profusamente iluminado, adornado por um grupo de cheerleaders, condimentado depois pela panóplia de animação: música exageradamente alta, torneios de kickers amadores (quem sabe um de vocês não impressiona um scout) e merchandising dos clubes, tentador e caro. É o primeiro contacto com o pulsar do futebol americano, com sotaque british. Uma amálgama de gente, proveniente de todos os confins da Europa. A Torre de Babel, descrita na bíblia, mudou-se de armas e bagagens para a terra de Sua Majestade, dando colorido, alegria e animação a um local que nunca teve falta dela. Confesso. O impacto visual é tremendo. Acelera o coração. Ver as bandeiras da NFL, penduradas lá no alto, enquanto caminhamos nas ruas londrinas, dá uma crescente sensação de ansiedade. Vale a pena vivenciar esta realidade. Sem tabus ou preconceitos. Disparar a máquina fotográfica vezes sem conta, enquanto captamos pormenores anteriormente acessíveis apenas nas transmissões televisivas. Percam a inibição. Juntem-se ao resto do clã. Tirem fotos dos fãs mais entusiasmados ou com as melhores vestimentas, para mais tarde recordar. Convém chegar cedo, por volta da hora de almoço. Há uma profusão de lugares para saciar o apetite, enquanto se aguarda a chegada dos jogadores, numa breve mas impressiva aparição. Depois, é só deambular, rua abaixo, até chegar à nova Meca do consumo. A Nike Town, armazém de 5 andares, bem perto da rotunda de Oxford Circus. O piso de baixo é, nessa altura, inteiramente dedicado ao futebol americano. Camisolas, bonés, t-shirts alusivas do evento e restante merchandising repousam nas prateleiras. Comprei lá o item que desejava. A camisola dos Vikings, de Adrian Peterson. Linda. O tamanho? XL Kid. Perfeito. Assenta como uma camisola de soccer, relativamente justa ao corpo, sem dar aquele ar de rapper, como se vê na maioria dos adeptos. O preço: 55 libras. E isto foi apenas o aperitivo. O festim estava marcado, para o dia seguinte, em Wembley.

Apesar do jogo começar às 18 horas, convém ir cedo. Por dois motivos: o primeiro é evitar as aglomerações no underground, o metro de Londres. A linha usada, a Jubilee Line, parece um comboio regional, com paragem em todos os apeadeiros. Contem sempre com uma viagem que dura entre 20 a 30 minutos. É uma altura que pode ser aproveitada para trocar impressões com os outros fãs que lotam as carruagens. Como aquela família (pai, mãe e dois filhos maiores), vindos de Minnesota, num périplo europeu que passou por Londres (com direito a ida ao estádio), Barcelona e Lisboa. A realidade americana, a nível de segurança dos jogos, raia a paranóia securitária. Em Londres, ainda é outro mundo. Mochilas, todo o tipo de sacos e máquinas reflex, com lentes ajustáveis, tudo proibido nos States, mas com entrada permitida no mais famoso estádio de Inglaterra. Quando o metro chega e se desce a extensa escadaria de Wembley Park (estação de metro que serve o estádio) é possível ver já a loucura que grassa em redor do evento. O estádio, lá no fundo da ampla avenida, é apelativo, com o arco que o circunda a permitir mais uns disparos fotográficos. A estes seguem-se as habituais poses, na entrada da avenida, junto das fotos em tamanho gigante dos principais jogadores de ambas as equipas. Eu tenho as minhas, religiosamente guardadas, tiradas junto de Greg Jennings e All Day. Tailgate propriamente dito não existe. Essa realidade, tipicamente americana, não consegue ser emulada nos hábitos europeus. Mas há de tudo, por lá. Tendas enormes, com venda de camisolas e bonés (contem com filas de acesso de exasperar a paciência de qualquer um) e as habituais barracas de comes e bebes. Mas é na deambulação sem rumo que se vive a gratificante experiencia de partilhar uma paixão com milhares de outras pessoas. O contacto com polacos, austríacos, espanhóis, alemães ou italianos, todo feito de risos e felicidade em estado puro. Mais tarde, já dentro do estádio (uma garrafa de água custa 2,5 libras e uma cerveja atinge as 3,5 libras) é sentar e participar na festa. E que festa. É impossível descrever em palavras. Basta dizer que não existem tempos mortos. Desde o arrepiante momento dos hinos cantados à “capela”, passando pelas coreografias das esculturais cheerleaders ou pelos bombos e tambores vindos de Minnesota  (o grupo, que faz um espectáculo rítmico notável, chama-se Skol Line), tudo serve para prender a atenção, nas paragens do jogo. Há, claro, os ecrãns gigantes, sempre a debitarem imagens da partida, glorificando as big plays, as mascotes das franquias, nas linhas laterais ou os espectáculos pirotécnicos, que dão uma ideia aproximada do que será o inferno. Tudo sempre acompanhado por música, no limite dos decibéis suportados pelo ouvido humano, verdadeiras injecções de adrenalina que impedem alguém de ficar parado no seu assento. Nas bancadas, a agitação é enorme, quase como se toda a gente estivesse inebriada pela atmosfera, num ritual pagão que glorifica aqueles homens de capacete na cabeça. Mais do que tudo, é isso que importa. A festa. Lá dentro, os Vikings ganharam, com jogadas magistrais de Adrian Peterson (who else?) e Greg Jennings. No final, exausto mas feliz, prometi a mim mesmo que regressaria, em 2014.

Fãs dos Vikings

Uma amostra da atmosfera vivida durante o jogo
Foto de Getty Images

Sobram, para o final, alguns percursos turísticos para quem nunca esteve na capital inglesa. Para aqueles que, em Outubro, vão no dia do jogo, ficando apenas com a 2ª feira livre para visitar algo, aconselho seriamente o uso dos autocarros turísticos, designados por sightseeing, tradicionalmente de dois andares, com o superior a ser descoberto. O preço não é convidativo (cerca de 30 libras por pessoa), mas permite ver de forma rápida e cómoda os principais ícones de Londres, com passagens pela Tower of London, Tower Brigde, Palácio de Buckingham e muitos outros. Geralmente (dependendo da companhia que opera) existem três rotas, que permitem a saída em cada atracção e posterior entrada, noutro autocarro. O bilhete de 30 libras tem validade de 24 horas. Para aqueles que vão com mais tempo, o metro de Londres abarca uma enorme extensão e permite acesso fácil às mesmas atracções. Preparem-se para andar bastante e para gastar cerca de 8 libras por dia (passe válido para as zonas 1 e 2, onde estão as principais atracções). Nas inúmeras e quase infinitas possibilidades na capital, é imperdível:

  1. Tower of London (complexo fortificado onde estão as jóias da Rainha) e a Tower Bridge, adjacente ao complexo. É uma zona virada para o rio Tamisa, com uma paisagem fantástica. Atravessando a Tower Bridge, tem-se do outro lado a City Hall, um edifício envidraçado oval e o The Shard, o novo arranha-céus que domina o skyline citadino. Em ambos os sentidos, existe um passeio, repleto de esplanadas e restaurantes, bem como de bancos que permitem uma contemplação mais passiva do meio envolvente. É aqui que a vida da cidade mais pulsa, com as multidões a convergirem para lá. Percorrendo esse passeio, temos acesso rápido à Tate Modern (entrada livre, sendo obrigatório ir ao 2º andar, com uma varanda virada para o rio e ao último piso, dominado pelo restaurante, com uma imperdível vista de Londres). Em frente à Tate a famosa Millennium Bridge, ponte pedonal saída do génio criativo de Norman Foster, um dos mais prolíficos arquitectos britânicos. A travessia da ponte é dominada pela vista da cúpula da Catedral de St.Paul, outro dos pontos de paragem obrigatória. Continuando a percorrer o Queen’s Walk, vamos passar pelo Shakespeare Globe, famoso teatro londrino. Mantendo-nos do lado do southbank, passamos pela Oxo Tower, até chegar à London Eye (aconselho a compra de bilhetes online, evitando as filas numerosas para os adquirir no local), que permite uma visão espantosa de Londres. A viagem, que dura cerca de 30 minutos, tem um custo de 20 libras. Depois disto, basta atravessar a ponte de Westminster e estamos junto às House of Parliament e ao famoso Big Ben, bem como da Abadia de Westminster.
  2. Palácio de Buckingham, por motivos óbvios, passando pela casa dos guardas, geralmente com exibição de cavalaria. Depois das fotos da praxe, em frente dos portões e monumento em honra da Rainha Vitória, um curto passeio até ali ao lado, a St.James Park. O parque, enorme extensão de verde, entrecortado pelo lago, vale claramente uma visita. Não pisem é os esquilos, em abundância e sem grande temor pelo movimento. Depois, seguindo o The Mall, um percurso de 10/15 minutos até Trafalgar Square. O que ver lá? Tanta coisa, começando pela National Gallery, com os seus quadros famosos, passando pelo National Portrait Gallery. Podem, de seguida, caminhar até Leicester Square, zona de teatros e cinemas, à moda antiga, com neons e cartazes gigantescos a promoverem os espectáculos. Ali, bem perto, entra-se noutra realidade: Chinatown e a peculiar cultura chinesa, presente no comércio, casas de apostas e restaurantes. No final deste passeio, chegamos a Piccadilly Circus, com os seus fotogénicos écrans gigantescos e lojas onde se pode comprar um pouco de tudo.

Enjoy!

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.