Seahawks @ Texans: You Only Live Twice

João Morão 1 de Outubro de 2013 Análise Jogos NFL, NFL Comments
Seahawks vs Texans

Seattle Seahawks at Houston Texans

1 2 3 4 OT F
Seattle Seahawks 3 0 3 14 0 23
Houston Texans 0 20 0 0 0 20

You Only Live Twice

Numa semana recheada de grandes jogos, este Texans vs Seahawks aparecia como um dos jogos mais interessantes para os adeptos da NFL seguirem. As razões, mais uma vez, eram múltiplas:

  • Em primeiro lugar porque os Texans (que todos os analistas apontam como o roster mais equilibrado e completo da liga) começaram o ano de forma intermitente com duas vitórias arrancadas a ferros contra os Titans e Chargers e com uma clara derrota em Baltimore por 30-09. Esta tremedeira não estava nos planos de ninguém e começou a levantar sobrancelhas. O jogo em casa contra a muito forte equipa de Seattle podia servir como uma espécie de road map do que poderá vir a ser restante temporada para a equipa texana. No ar a expectativa de um caminho acidentado ou um percurso sobre um suave pavimento alcatroado.
  • Naquele que também para mim é o melhor roster NFL, continuam a pairar dúvidas permanentes sobre Matt Shaub. Será ele o franchise QB que a equipa precisa para atacar o Superbowl? Este jogo contra a melhor defesa da liga também podia trazer algumas respostas nesse sentido. A pressão adivinhava-se alta e normalmente apenas os QB de elite aguentam este tipo de desafios.
  • Do lado do Seahawks, seria importante perceber se a equipa estava pronta para sair do Century Link Field e ganhar. Não existe nenhuma equipa na liga onde o factor casa é tão importante. Mas uma equipa com aspirações à vitória final tem que conseguir ganhar os jogos fora de casa contra outros contenderes. Este era o primeiro teste para uma equipa que historicamente joga mal longe do seu público. Perder em Houston com o jogo de Indianápolis à porta podia também ser o princípio de uma época fracassada.
  • Depois as muitas lesões na Offensive Line dos Seahawks sem R.Okung, M.Unger e B.Giacommini. Dos três, Okung e Unger são pro-Bowlers e podia ser fatal para Seattle perder a protecção ao QB contra uma das melhores defesas da liga. Era altura também de analisar a propalada profundidade do roster dos hawks e a mobilidade de R. Wilson senão conseguisse a protecção a que está habituado.
  • Finalmente este jogo tinha uma motivação adicional para mim. Desde a pre-season apostei que estas equipas seriam as finalistas da AFC e NFC. De algum modo, quando domingo ao final da tarde me sentei a ver o jogo em directo. Estava a preparar-me para ver a “minha” final do super bowl. O espectáculo claramente prometia. E não desiludiu!

O Jogo

O jogo começou devagar com jogadas conservadoras fruto de duas equipas que se receiam e que querem testar as forças e fraquezas de parte a parte. Neste jogo previsível os Seahawks rapidamente ganharam vantagem no primeiro quarter. Com um pontapé aos postes de Steven Hauschka de 45 jardas e com uma intercepção de Brandon Browner num espectacular movimento colectivo da secundaria, pareciam a equipa que dominava os acontecimentos.

Puro engano.

O início do 2º Quarter mudou completamente a história do jogo. Um inspirado e atrevido Matt Shaub com um passe de 31 jardas para o TE G.Graham conseguiu um TD espectacular nas costas de R.Sherman. Seis minutos depois a culminar mais um drive fulminante dos Texans outro passe do QB desta vez para o Running Back A. Foster que coloca mais 7 pts no marcador.

A equipa de Seattle era uma sombra da formação organizada do 1º quarter. Destroçada pelo pass rushing de JJ Watt e W. Mercilus não conseguiam atacar. Enquanto isso a famosa defesa de Seattle era destroçada pelo running e passing game dos Texans. A. Foster com 110 jardas de rushing e 69 de passing era o grande desequilibrador. A. Johnson e O. Daniels dominavam os ares com quase 190 jardas combinadas em passing, enquanto B. Chusing e um espectacular J. Joseph, tornavam Seattle uma equipa banal. A pressão era tal que os sacks a R.Wilson eram frequentes e mesmo M.Lynch perdia a bola num raro turnover. Só existia uma equipa em campo. Os Texans.

Em meros 15 minutos os Texans vergam e destroem os Seahawks com 2 TD e 2 Field Goals colocando o marcador em 03-20. A extrema-unção dada e o jogo decidido. A superioridade de Houston era tal que fomos todos para intervalo com a clara ideia que o jogo estava acabado.

O 3º quarter foi um permanente relembrar do penoso que o jogo estava a ser para a equipa do Noroeste dos Estados Unidos. Incapacidade de atacar com os wideouts sempre fora dos lances. A pressão sobre R. Wilson a manter-se e este sempre dentro do pocket que insistia em colapsar sob a pressão dos Texans. Todos de Seattle à espera que o jogo acabasse com a menor humilhação possível. A extrema-unção já tinha sido dada e a equipa estava morta e enterrada. O field-goal conseguido por Seattle no final do 3º quarter era mais um relembrar da inoperância ofensiva em conseguir um TD. Não havia esperança na recuperação.

Dizem que na génese dos tempos bons estão os factores que vão causar as grandes crises. E durante este amorfo 3º quarter aconteceram dois factos que foram determinantes para o resultado final do jogo. Primeiro: A lesão de B. Cushing que sofreu uma concussão numa placagem a S. Rice e que abandonou o jogo. Segundo: O 3º quarter reforçou o sentimento de indolência e de superioridade dos Texans sobre os Seahawks e esse facto veio a revelar-se fatal.

Existe uma frase que já apliquei em quase todas as cronicas de Seattle e que vou deixar em arquivo para no futuro fazer copy / paste. Costumo escrever que quem acompanha a equipa dos Seahawks sabe que eles numa desistem e sabe que acabam sempre muito mais forte que começam. Como um eléctrico desgovernado numa descida, começam de modo lento, desajeitado e a chiar, para acabarem lançados, a grande velocidade e a levar tudo à frente. Esse momento aconteceu ontem quando se decidiu que R. Wilson devia começar a jogar em read optins como nos jogos finais da regular season do ano passado. Sim pode ser que lhe acertem umas pancadas valentes (e de facto acertaram algumas que até mim me doeram). Mas o tipo com a bola na mão em scramble é diabólico. Parece quase um desenho animado a escapar-se de situações improváveis e impossíveis.

Então começa a reviravolta: A 13 minutos do fim e com o resultado 06-20 em 3 ou 4 jogadas de rushing, Wilson ganha mais de 50 jardas, colecciona primeiros downs. Tudo culmina com um facílimo pass para M.Lynch conseguir o primeiro TD dos Seahawks. Nesta altura faltam cerca de 7,30´para acabar o jogo. Este ressuscitar dos defuntos Seahawks teve o condão de acordar a equipa de Houston que voltou a colocar pressão no jogo. Infelizmente para Houston teve também o condão de levar o seu QB para aquilo que normalmente tem feito quando está sobre pressão. I.e. Asneira!

Assim a 3 minutos do fim do jogo, num drive dentro do território dos Seahawks, M.Shaub faz um passe para O. Daniels que tem tanto de arriscado com de disparatado. O melhor (e mais liguarudo) corner da liga, R.Sherman faz a intercepção e corre sozinho, sem oposição para o TD dos Seahawks. Antes do aviso dos 2 minutos o jogo estava empatado. Mas mais importante o momento do jogo tinha mudado.

O momento em que Richard Sherman dos Seattle Seahawks interecpta a bola e muda o curso do jogo Foto de Bob Levey/Getty Images

O momento em que Richard Sherman dos Seattle Seahawks interecpta a bola e muda o curso do jogo
Foto de Bob Levey/Getty Images

Os Seahawks estavam por cima e os Texans devastados por terem deixado fugirem uma vantagem tão grande. O Over Time foi espelho de uma equipa de Seattle a atacar e defender bem e de uma equipa de Houston a atacar mal e a defender sem cabeça. A falta estupida de Kareen Jackson sobre Doug Baldwin que coloca os Steven Hauschka em posição de mandar aos postes e assegurar a vitória é o corolário disso mesmo.

Uma palavra final para a equipa dos Texans que pelo domínio e superioridade em quase toda a partida (355 jardas contra as 123 jardas de Seattle) não mereciam perder este jogo. De certeza que apreenderam duas lições: A primeira é que “justo” é um fato apertado e a segunda é que na NFL “You Only Live Twice”.

As Nossas Escolhas

MVP

Russel Wilson. Foi sem dúvida o MVP. 12 Passes conseguidos em 23 tentativas. 123 Jardas e uma intercepção não é grande coisa em termos de números. Mesmo com um registo de 4W e 0L é claramente um QB a não escolher para quem joga Fantasy pois não dá muitos pontos (Eu que o diga!). Mas a maturidade, o porte e a capacidade com que pega na equipa quando mais é necessário, torna-o em Elite. Não tem a espectacularidade nem capacidade de um A. Luck. Mas é dos QB mais eficientes e produtivos da liga. O jogo para ele é a vitória e nesse aspecto ele já tem o calo de um veterano.

O famoso scramble entre defesas, vai dar muitos filmes na NFL e vai leva-lo ao Hall of Fame. Oxalá o que escrevo seja profético. Que se salve de lesões graves. Pois mais tarde ou mais cedo ele vai-se aleijar.

Positivo

A defesa dos Texans ganha todo o destaque: J. Joseph absolutamente dominante e espectacular. Os Wideouts de Seatlle nem se viram. Estava em todo o lado e parecia um polvo no que não deixou jogar e no que consegui dar a jogar à sua equipa com a sua intercepção. Fabuloso. JJ. Watt e acima de tudo Wayne Mecilus com 2.5 sacks. Sempre na bola e sempre na pressão. Só quando deixaram fugir o QB do pocket é que sofreram um pouco. Mas também não podiam fazer tudo.

J.J. Watt dos Houston Texans

J.J. Watt dos Houston Texans não estava contente com o resultado final do jogo
Foto de David J. Phillip

Positivo também o desempenho de R.Sherman um “talk the talk and walk the walk”. Tem muita conversa, mas também consegue o respeito pelo que faz em campo. Se isto pega, qualquer dia todos os corners da liga são wide receiver falhados. Palavra final para Doug Baldwin, numa equipa que não é famosa pelos seus wide outs, teima em destacar-se e em estar nos momentos grandes da equipa. Quer com catchs impossíveis (ontem foi mais um), quer em estar sempre nos momentos decisivos. E no jogo de ontem outra vez, quando foi preciso resolver, D. Baldwin foi novamente o “go to guy”.

Negativo

Muito negativo o desmembrar mental de Matt Shaub. A derrota assenta-lhe a ele e só a ele. Quem fez a falta estupida que permitiu Seattle fechar o jogo foi K. Jackson. Mas foi Shaub que a ganhar, em território adversário e a 3 minutos do fim, ofereceu o TD aos Seahawks. Se continua assim, não acaba esta época a jogar. Pois numa equipa perfeita não há lugar para este tipo de incapacidade.

Mal também a Offensive Line dos Seahawks. Sem o milagre de Wilson seriam uma equipa vulgar. Dominada e espezinhada. Ele teve que fugir de lá para jogar. O Pocket não era uma protecção, era uma armadilha. Tanto se fala na profundidade do roster de Seattle, mas nesta zona as águas andam rasas. Alguém teve saudades do Giacommini? Eu tive!

Finalmente muito negativas as lesões de B.Cushing (que enorme jogador!) e de M. Bennett (Deffensive End dos Seahawks). São lesões que nos relembram permanentemente a violência do jogo e que nos aproximam mais da logica de player safety. Pelo menos eu sou cada vez mais adepto.

About The Author

João Morão

As causas são múltiplas: Primeiro em 1998 colocado pela minha empresa na Alemanha, passei alguns fins-de-semana a jogar flag futebol numa base militar americana maioritariamente com a boa gente de Seattle. Desta altura vem o gosto. Depois em 2005 em Jackson Hole (Wyoming) assisti em directo à transmissão do Super Bowl XL dos meus Seahawks contra os Steelers. Foi um jogo de má memória e de pior arbitragem que me deixou um amargo permitido apenas pela perda de algo de que gostamos muito. Desta altura vem a militância. Finalmente: A desilusão e desgaste causado pelas assimetrias, manobras, golpadas e falta de fair-play do soccer, viraram-me definitivamente para um desporto mais justo, mais sério, mais competitivo, mais brutal (é certo), mas de maior entrega e de incomparavelmente maior emoção: O Futebol Americano. Nas horas “vagas” sou pai de 4 filhos (Um deles é dos Giants vai-se lá saber porquê!?).