Super Bowl XLIX: Clássico Instantâneo

Paulo Pereira 2 de Fevereiro de 2015 Análise Jogos NFL, NFL Comments
Super-Bowl-XLIX-Celebration

Super Bowl XLIX: Clássico Instantâneo

WOW.WOW.WOW.WOW.WOW.WOW.
WHAT.A.GAME.

[espaço pra respirar fundo]

[espaço – alargado – para recuperar os batimentos cardíacos]

É uma queixa comum, transversal a qualquer adepto, de qualquer franquia. A offseason é demasiado grande, obrigando cada fã a sofrer durante penosos 7 meses. É um facto. O futebol americano é um vicio e, todos nós, somos adictos, vivendo crises de abstinência, na ausência do produto. É, igualmente, um facto. Mas…
É um período retemperador. Sim, é uma opinião. Polémica. Mas quatro meses de regular season, sem paragens, com tanto para dissecar, com um mês intenso de playoffs, pontuado por jogos enérgicos e, depois, por uma final, suga a energia mental de qualquer um. Deixa-nos desgastados. Felizes, é certo, com um sorriso de satisfação no rosto. Mas cansados. Esgotados animicamente. A competição submerge-nos em histórias com heróis, vilões, acontecimentos relevantes, jogadas inesquecíveis, exibições memoráveis e criatividade sem limite. E, quando chegamos ao Super Bowl, que é acima de tudo uma festa, uma celebração, uma comunhão espiritual, um marco místico no calendário, exigimos um encerramento condigno. Mas nada nos tinha preparado para o que nos foi servido, em bandeja de prato, no deserto de Arizona? Ou tinha?

A final, essa festa pagã que para a América e vai tendo epicentros noutros locais do planeta, é um prémio. Geralmente, com mais ou menos questiúncula, é uma recompensa para as duas melhores equipas da prova. Este ano, isso foi evidente. Os Patriots e os Seahawks são diametralmente opostos. Em conceitos, na forma como abordam o mercado, seja o draft ou a free agency. E mesmo no sistema implementado na máquina ofensiva. Mas, no meio de tantas diferenças, existia um elo que unia as duas franquias. A forma séria, quase obsessiva, como se criam as fundações para que o sucesso não seja um acto efémero, um one-and-done. Se essa é a realidade da equipa de Boston, desde que Robert Kraft comprou o clube e apostou em Bill Bellichick, em Seattle trabalha-se igualmente com a mesma competência e dedicação, em evidente aposta na manutenção do êxito no longo prazo. Alguém, logicamente, teria que perder. Por contraponto, o vencedor seria coroado para a eternidade. E não é exagero afirmá-lo. Os Patriots são uma dinastia. É evidente. Uma força temível na AFC, com resultados consolidados e equipas competitivas. Ano após ano. Os 3 Super Bowls ganhos, que emolduram algures a prateleira de troféus, eram suficientes para cimentar essa ideia, de perenidade. Mas um quarto triunfo colocaria os rostos mais mediáticos da franquia – Bellichick e Brady – num panteão apenas destinado aos melhores. À elite. Os Seahawks, merce dum trabalho de sapa iniciado por John Schneider – general manager – e Pete Carroll, tornaram-se uma força. Primeiro, domando a divisão e tornando-a num exemplo de qualidade, tenacidade, rivalidade, invejável aos olhos das outras. Depois, conquistando o respeito da forma mais árdua. Com resultados, assentes num running game destruidor e numa defesa intratável. Dois títulos consecutivos validariam essa aposta, parabenizando o trabalho dos envolvidos e criando uma lenda em redor de Russell Wilson.
A esta hora já todos saberão como terminou o encontro. E remeto para a primeira linha deste artigo. WOW.WOW.WOW.

Foi épico. Dramaticamente competitivo. Um thriller, à moda de Hollywood, que nos mantém agarrados à cadeira, incapazes de desviar o olhar, por um segundo sequer. Teve os ingredientes todos. Não misturados, como se fosse uma caldeirada de emoções, mas servidos de forma gradual, como um menu gastronómico de eleição. A vantagem inicial dos Patriots, anulada pela recuperação dos Seahawks. As duas drives cirúrgicas comandadas por um frio e robótico Tom Brady, expondo fraquezas, conectando-se com Julian Edelman, um dos estóicos soldados da equipa. A vantagem no marcador, com os segundos a esgotarem-se. O nervosismo evidente na sideline, quando Russell Wilson procurava a glória. Os passes milagrosos, primeiro numa catch de Lynch. Depois, na insana recepção de Jermaine Kearse. Novamente uma recepção sobrenatural, que parecia retirada de traumas passados dos Patriots, sempre assombrados por jogadas fisicamente impossíveis. A intensidade do jogo chegou a um pico elevado. E, depois, A jogada. Uma daquelas que faz história. Uma call ousada, questionável, polémica. Um passe, quando se pedia uma corrida. A intercepção. Um herói imediato, até ali anónimo, como tantos outros na já longa história da modalidade. Malcolm Butler, provavelmente com a melhor jogada de sempre na história dos Patriots. Tanto para absorver. Tanto para comentar. Tanto para analisar. É um Super Bowl que não se esgota naquelas horas de jogo. Que apaixona. Que cativa. Que marca, para sempre, com os momentos mais emblemáticos guardados na memória colectiva, para preservação futura.

Como Jogaram os Seahawks

Ataque

Russell Wilson voltou a encontrar enormes dificuldades para impor o seu jogo, tal como na final da NFC, contra os Packers. O quarterback dos Seahawks terminou o encontro com 247 jardas no passe, provenientes de um 12-21 em tentativas, mas não completou um único passe nos primeiros 19 minutos da partida. Mas, depois, já ritmado, pareceu imparável, transformando Chris Matthews [recordam-se dele, ao interceptar o onside kick contra os Packers?] num notável receiver. Quatro recepções, para 109 jardas, aproveitando as deep balls, seriam uma feel good story…não fosse o desfecho final do encontro. Matthews é apenas mais um exemplo na forma exemplar como os jogadores da franquia são desenvolvidos, maturados, até estarem prontos a explodir. De jogador da practice-squad até figura maior num Super Bowl foi um curto passo.

O jogo corrido foi alimentando as drives e contornando as dificuldades no ataque. Será um exagero dizer que Marshawn Lynch é imparável, mas será um dos poucos running backs da actualidade que destila medo nas defesas contrárias. O front seven dos Patriots lidou como pode com o habitual ímpeto do running back, travando-o com esforço, mas Lynch cumpriu a sua parte. 102 jardas em 24 corridas e um touchdown. E, para sempre, ficará a eterna dúvida: porque é que não correram com a bola, na jogada fatídica?

Defesa

Era uma das histórias mais apetecidas do confronto, um dos embates mais apimentados. Saber como encaixariam o ataque dos Patriots e o seu jogo aéreo e a defesa dos Seahawks, no quesito passing defense. A dúvida foi rapidamente dissipada. Não se encaixaram. Se a secundária – com a ajuda de Bobby Wagner – pode ser creditada com duas meritórias intercepções de Brady, pode também ser apontada como impotente e incapaz de parar o jogo aéreo. Tom Brady nem sequer contou com a ajuda do jogo corrido, lançando e lançando, atingindo um quase obsceno número de tentativas para uma final (50) e de passes completos (37). Foram, no cômputo geral, 328 jardas e 4 touchdowns. Os Seahawks podem queixar-se de várias coisas, desde a falta de profundidade no posto de cornerbacks, fragilizado ainda mais com a lesão de Jeremy Lane, até à evidente exposição de Simon. Mas disso serão os únicos culpados. A defesa do passe foi, numa derradeira análise, a culpada da derrota. Cliff Avril fica ligado também ao resultado final, concedendo um alivio momentâneo ao ataque opositor, ao cometer uma infracção (entrou na neutral zone), num 3-and-3. A dádiva das 5 jardas da penalidade manteve a drive viva e, 3 jogadas depois, Brady encontrou Gronk na end zone para um 14-7.

Se a defesa do passe foi horrível, o oposto aconteceu à rushing defense, limitando o jogo corrido dos Patriots a apenas 57 jardas, nunca permitindo qualquer veleidade de LaGarrette Blount e Shane Vereen. Michael Bennett foi um monstro, nunca dando descanso à OL dos Patriots, trazendo disrupção e procurando sempre colocar Brady fora da zona de conforto.

Coaching Staff

Não há mais nada a dizer, dado que tudo se resume a um mero lance. Os Seahawks traziam a lição aparentemente bem estudada, conseguindo criar condições para colocar o running game adversário inofensivo, o que obrigaria o adversário a apostar no passe. Isso efectivamente aconteceu, mas o jogo aéreo não foi parado, como o plano teórico preveria, o que manteve o equilíbrio no resultado até final. Antes do intervalo, a agressividade e risco do game plan colheram dividendos. Na linha de 10 jardas dos Patriots, mas com apenas 6 segundos para jogar, a maioria dos treinadores teria optado pela solução mais consensual, tentando o field goal. Carroll resolveu apostar…e ganhou, com Wilson a encontrar Chris Matthews na end zone para empatar o jogo. Mas, depois, com a vitória nas mãos, com pouco menos de 30 segundos para jogar e a uma mera jarda da goal line, o plano de jogo optou pelo risco, quando se pretendia apenas o óbvio: correr com a bola. Nunca se saberá se Marshawn Lynch ou, em última instância, Russell Wilson, conseguiriam ganhar a derradeira jarda, mas a opção pelo passe, naquela altura, não fez qualquer sentido. A slant route colocou Lockette em posição de recepção, na end zone, mas o receiver fez um mau trabalho na preparação do lance e na protecção à bola, permitindo a intercepção. Foi um game over cruel, que assombrará os Seahawks – e o seu coaching staff – nos anos vindouros. Carroll já se justificou, defendendo a opção, por achar que uma incursão na corrida, se parada antes da end zone, retiraria tempo precioso ao cronómetro. É um argumento válido…se os Seahawks não tivessem descontos de tempo para gastar. Mas, mesmo tendo, é possível fazer de advogado do diabo e defender o passe. Pelo menos, momentaneamente. Os Seahawks encaravam a jogada com um set de 3 WR e 1 TE, uma formação algo frágil contra uma goal line defense agressiva. A tentativa de passe rápida pode ser entendida como uma forma de apanhar o adversário desprevenido. Mas, optar por uma slant route, para aquela zona específica do terreno, parece-me descabido. E ultra-arriscado.

Como Jogaram os Patriots

Ataque

É um mantra, repetido por muitos treinadores aos seus pupilos, mas Bellichick sempre fez enfase do seguinte: preparem-se para tudo, em qualquer dia, pois qualquer jogador pode elevar o seu jogo e ajudar-nos a vencer, ou qualquer adversário pode bater-nos. É uma espécie de “be ready” virtual, afixado nas mentes de todos. E isso fez-se sentir, pese as dificuldades. Um triunfo é sempre saboroso, mas quando é conseguido depois de ultrapassar sérias dificuldades, torna-se único. O ataque dos Patriots fez tudo o que foi possível para vencer. E, na maior parte dos casos, fê-lo de forma correcta, expondo o adversário no jogo aéreo. Para tal, os Patriots usaram quase sempre um set de 3 wide receivers, obrigando os Seahawks a desmultiplicarem-se na cobertura, com efeitos nefastos. Brady foi o quarterback vintage de antigamente, conseguindo carregar a equipa às costas, usando o braço de forma cirúrgica. Sim, foi interceptado, mas nunca soçobrou aos erros. No pós-intervalo fez 20 em 27, 177 jardas e 2 touchdowns, com a última drive a percorrer 65 jardas, num 8 em 8 perfeito. É isto que se espera dum líder. A capacidade de elevar o seu jogo, quando tudo está em risco.

Se tanto foi exigido a Brady foi porque a unidade de running backs nunca conseguiu dar o equilíbrio necessário ao rácio de passe/corrida. Blount e Vereen tiveram inúmeras dificuldades para ganhar jardas, raramente encontrando espaço para correr. É de destacar, aqui, o excelente trabalho dos linebackers contrários e de Kam Chancellor, primordial a parar o jogo terrestre.

Defesa

A defesa jogou, a nível de secundária, conforme o previsto, em man-coverage, com Darrelle Revis a seguir Doug Baldwin e Brandon Browner, ex-Seahawks, a ser o marcador de Jermaine Kearse. O nível de sucesso, esse, foi variável. Se a avaliação pendesse apenas nos primeiros 30 minutos, a passing defense dos Patriots teria uma nota elevada, dado que “secou” completamente Russell Wilson. No pós-intervalo,  no entanto, as dificuldades aumentaram exponencialmente, com Wilson a conseguir encontrar o seu ritmo e a não ter receio de explorar as bolas longas, conectando-se com um até então desconhecido Matthews (cuja cobertura era da responsabilidade de Logan Ryan ou Kyle Arrington). No 3º período parecia que o momentum tinha mudado, em que tudo corria bem aos Seahawks e, por contraponto, mal aos Patriots (como no lance do TD de Baldwin, em que Revis choca com um dos árbitros). No final, pese algumas big plays permitidas ao adversário, salvou-se a honra do convento, com uma providencial intercepção de Malcolm Butler.

A rushing defense teve uma árdua tarefa, conseguindo abrandar Marshawn Lynch que, mesmo assim, provocou estragos e manteve vivas algumas drives, marcando um TD e passando das 100 jardas.

Coaching Staff

O plano de jogo global foi excelente, tirando partido da secundária batida dos Seahawks (Earl Thomas e Richard Sherman com problemas físicos e limitativos, agravada depois com a lesão de Lane), conseguindo explorar essas debilidades. A OL nem sempre conseguiu suster a agressividade dos pass rushers, em especial de Michael Bennett, prejudicando algumas jogadas, mas existiu um notório esforço no pass coverage, como instrumento principal para estabelecer o jogo de ataque. Na maior decisão de todas, valeu a crença e sangue frio de Bellichick que, mesmo com os segundos a esgotarem-se no cronómetro e com o adversário a uma jarda de passar para a frente, obstinadamente não usou nenhum desconto de tempo e acreditou que seria possível suster o avanço. Costumo acompanhar os jogos ao mesmo tempo que uso o twitter, analisando o que se escreve sobre as partidas. Era uma ideia praticamente unanime, nesse avanço que parecia imparável dos Seahawks, sobretudo depois da catch milagrosa de Kearse, que Bellichick devia permitir o TD, resguardando alguns segundos no cronómetro para tentar, depois, o field goal que levaria tudo a prolongamento. Essa táctica foi aliás usada pelos Patriots no último Super Bowl, contra os Giants. Mas, desta feita, o lendário coach da franquia de Boston apostou na sua defesa e a crença…valeu o título. O não uso do timeout, como profetizado por tantos, foi uma jogada genial, que obrigou Carroll a decidir qual jogada tentaria, acossado pelo tempo. É que os Patriots tinham os efectivos próprios para parar uma incursão e, com o set que os Seahawks tinham em campo, claramente vocacionado para uma jogada de passe, uma jogada corrida obrigaria a mudar alguns dos jogadores. Nesse braço-de-ferro, para ver quem cederia e chamaria o desconto de tempo, prevaleceu o sangue-frio e a capacidade analítica de Bellichick.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.