Vikings @ Lions: Uma Lufada de Esperança…

Paulo Pereira 3 de Outubro de 2012 Análise Jogos NFL Comments

Minnesota Vikings @ Detroit Lions

1 2 3 4 F
Minnesota Vikings 10 3 7 0 20
Detroit Lions 3 3 0 7 13

…Colorida de Purple & Gold

Reconhecem o doce sabor da esperança? Aquela sensação que mistura ansiedade, expectativa mal disfarçada e uma confiança crescente? É isso que qualquer fã dos Minnesota Vikings sente, actualmente. Dilacerados pela perda de competitividade da equipa, no pós-Favre, prepararam-se mentalmente para o normal, nesta situação. Uma reestruturação, encetada quase do zero, planificada e maturada como é comum nos desportos americanos, para se criar uma potencial dinastia. Um trabalho árduo, de médio/longo prazo, em que é requerida aos adeptos uma dose industrial de paciência. Por isso, devia ser com resignação que qualquer fã dos purple & gold se preparava para a temporada 2012, lendo o que os experts escreviam sobre a equipa. A sentença, ditada por unanimidade, reconhecida pelos gurus mais mediáticos, estava estampada desde a offseason. Último lugar na NFC North. Sem lugar para sonhos. Mas é aqui que, quase como num conto de fadas, entra o melhor que o desporto (qualquer um) tem. A capacidade de superação. O espírito corporativo, que supre carências. E isso nunca é mensurável. Os Vikings são a prova evidente do que escrevi. O trabalho árduo e o empenho, extraindo o melhor das qualidades individuais, têm conseguido camuflar as evidentes lacunas.

E, assim, a equipa de Minnesota apresenta um inesperado recorde de 3 vitórias e apenas 1 derrota. Nem o fã mais empedernido e acérrimo teria feito o prognóstico de ver a equipa vencer, sucessivamente, os 49ers e os Lions. Tem algum significado, no cômputo geral, os Vikings estarem na liderança? Muito pouco. As vitórias apenas valorizam o esforço efectuado de tornar a franquia mais competitiva. Porque, mesmo agora, serão poucos que almejarão o título de divisão, significando o mesmo ficar à frente de Packers e Bears. Ou sequer um apuramento para os playoffs. Mas, quem sabe, jogo a jogo, apurando e usando o que de melhor tem apresentado (uma defesa sólida e um special team dinâmico), os Vikings podem continuar a surpreender.

Do outro lado, a única palavra que pode descrever o percurso dos Lions é desilusão. O ataque diligente e enérgico, que colocava os adversários em sentido, desvaneceu-se na offseason, com os erros a acumularem-se e Matthew Sttaford incapaz de recuperar a empatia com Calvin Johnson. Sem um jogo corrido consistente, marcado por lesões e baixas de produção, nota-se a clara dependência do jogo aéreo.

O Jogo

Vikings vs Lions Highlights

Highlights do Jogo entre os Minnesot Vikings e os Detroit Lions

Muito se falou de Christian Ponder, antes da partida, com a tónica colocada nos predicados que o quarterback dos Vikings vinha evidenciado. Um observador mais desatento, que por momentos parasse a ver o embate de divisão entre Vikings e Lions, acharia tudo um enorme exagero. E com alguma razão, se for tida em conta nessa análise superficial o último embate. Ponder foi quase irrelevante, limitando-se a ser o distribuidor de snaps e efectuando passes sem risco. Os Vikings planearam bem o jogo, sabendo quais os seus pontos fortes e partindo daí para a criação dum plano de jogo que os evidenciasse, ao mesmo tempo que camuflaria as insuficiências da equipa. E assim tudo foi apostado na defesa, sector mais forte da equipa, no jogo corrido, onde o regressado Adrian Peterson correu o seu 1º jogo em 2012 acima das 100 jardas e no special team. E resultou. Desde logo porque, do outro lado, a ausência dum jogo corrido estabilizado coloca a equipa dependente excessivamente de Matthew Sttaford. Antes do jogo existia enorme curiosidade em saber se Mikel Leshoure, o running back, repetiria a exibição da semana passada, mas desde o início da contenda se verificou que isso seria uma tarefa hercúlea. A linha ofensiva dos Lions padece dum problema grave, sendo incapaz de criar rotas para o seu jogo corrido, de forma consistente.

A protecção à corrida funciona, basicamente, quando defrontam linhas defensivas porosas e pouco agressivas, mas eclipsa-se quando do outro lado estão jogadores do calibre de Kevin Williams, Chad Greenway ou Jared Allen. E assim, pese alguma permeabilidade no jogo aéreo evidenciada pelo grupo de linebackers dos Vikings (particularmente Jasper Brinkley), os Lions nunca encontraram o ritmo e a fórmula para ultrapassar a solidez defensiva do lado contrário.

1º Período

Início demolidor dos Vikings. Pontapé de saída. Bola colocada bem dentro da end zone da equipa de Minnesota, quase a roçar o limite do touchback. Percy Harvin recebeu a bola…e arriscou. Uma corrida frenética, livrando-se de tackles, furtando-se às investidas dos adversários, com o special team a aplanar o caminho para a glória com vários bloqueios preciosos. 105 jardas depois, com meros segundos retirados ao cronómetro, os Vikings lideravam por 7 pontos. E faziam uma afirmação marcante, do ponto de vista psicológico. O tempo do saco de pancada na NFC North tinha terminado.
Esperava-se mais – bem mais – do ataque dos Lions, mas o front seven dos Vikings e um trabalho apurado da secundária, marcando agressivamente Calvin Johnson, limitaram os Lions a um mero field goal, respondido na drive imediata por um pontapé certeiro de Blair Walsh.

2º Período

Segundo período onde a esperada reacção da equipa da casa chocou sempre contra o pass rush dos Vikings e contra o acerto dos cornerbacks e safeties. Antoine Winfield prova, aos 35 anos, que é um dos cornerbacks de elite, numa marcação impiedosa sobre Calvin Johnson. Os 15 minutos esgotaram-se numa sucessão de punts, com apenas dois field goals para colorirem o marcador, um para cada lado.

NFL: Minnesota Vikings at Detroit Lions

A impiedosa marcação sobre Calvin Johnson
Fonte da Imagem: Tim Fuller-US PRESSWIRE

3º Período

Mais um momento mágico, que merece ser visto e revisto. Marcus Sherels, num retorno a um punt, galgou 77 jardas num ápice, apontando a tendência do resultado para os visitantes. O placard, cada vez mais dilatado, mostrava um inesperado 20-6.

4º Período

Defesa, defesa e mais defesa. Foi aí que assentaram as fundações da vitória dos Vikings, tapando todos os caminhos para a sua end zone. Pouco preocupados com o ataque, onde a palavra de ordem era não cometer erros, os Vikings foram pouco incisivos, optando por correr com a bola e esgotar os segundos preciosos. A reacção, esperada, dos Lions chegou apenas a pouco mais de 3 minutos do fim, numa longa drive de 75 jardas, culminada numa corrida de Matthew Sttaford, de 1 jarda, para colocar a liderança no marcador à distância duma jogada de ataque. O touchdown, no entanto, é extremamente polémico, parecendo que a bola nunca chegou a ultrapassar a linha de golo.

As Nossas Escolhas

MVP: Num jogo pouco conseguido a nível de ataque, por parte das duas equipas, soa estranho eleger Percy Harvin como o jogador mais influente e decisivo. Mas foi efectivamente o wide receiver dos Vikings o único dinamizador no ataque da equipa de Minnesota, com aquele seu explosivo retorno na jogada inicial a marcar indelevelmente a partida e a condicionar o resto do jogo.

Positivo: Nos Vikings Percy Harvin, jogador polivalente. Não existe melhor definição para o irreverente atleta, que tanto marca um touchdown de 105 jardas num retorno do pontapé de abertura do jogo, como de seguida aparece no slot recebendo um passe ou, mais tarde, usado como running back numa jogada na red zone. Harvin é um atleta quase insuperável, com uma velocidade estonteante e umas mãos sólidas, que raramente largam uma bola. Com Adrian Peterson a restabelecer-se lentamente da grave lesão (o running back da equipa ultrapassou as 100 jardas, mostrando uma evolução agradável neste seu regresso), Harvin tem sido o abono de família do ataque, praticamente a ameaça mais letal usada por Christian Ponder. Harrison Smith continua a ser uma revelação, tendo solidificado um dos sectores mais problemáticos dos Vikings: a sua secundária. O safety vindo de Notre Dame tem sido precioso no fundo do campo, estando quase sempre no cerne da acção. Teve uma jogada espantosa, efectuando um tackle na end zone sobre Calvin Johnson, quando este descia já com a bola perfeitamente controlada para um touchdown que relançaria a partida. O hit, bastante duro, acertou nas mãos e bola, provocando a perda do esférico e salvando 6 pontos certos. O trabalho dele não se limitou a esse momento. Smith foi interventivo, sobretudo contra o jogo aéreo do adversário, defendendo dois passes e auxiliando os cornerbacks. Leslie Frazier merece os parabéns pela sua primeira vitória contra um rival de divisão (à 8ª tentativa), sendo que o triunfo colocou um ponto final em 11 derrotas consecutivas, frente aos referidos rivais. Se Percy merece crédito pelo retorno, igual elogio terá que ser endereçado a Marcus Sherels, pelas 77 jardas percorridas num punt return, noutro momento mágico da noite.

Nos Lions o jogador mais surpreendente foi o habitualmente mau Gosder Cherilus, o right tackle, inacreditavelmente sólido contra Biran Robinson, o defensive end que tão bem tem estado nos Vikings. Cherilus conseguiu manter a solidez na linha ofensiva, nunca permitindo qualquer veleidade ao ser adversário directo

Negativo: Retirando o kick return de Harvin e o posterior retorno de um punt, que valeram 14 pontos aos Vikings, o ataque foi sempre soluçante, denotando enormes dificuldades na progressão. A estreia de Jerome Simpson dotou o ataque de novo alvo confiável e com características peculiares (Simpson, não deslumbrando, conseguiu 4 recepções para 50 jardas), mas a defesa dos Lions conseguiu sempre parar os Vikings bem longe da red zone. Quatro drives terminarem em distâncias de field goal (Blair Walsh marcou 3, falando o seu primeiro da temporada). Também Brandon Fusco, o right guard, continua a denotar dificuldades em suster os adversários, tornando o lado direito da linha ofensiva bastante permeável, facto explorado pelos adversários.

Nos Lions, foi apenas mais um jogo para esquecer de Brandon Pettigrew, o tight end que veio do draft de 2009 com a aureola de “NFL ready”. Até agora, pese o seu potencial, Pettigrew namora com a catalogação de “bust”, encabeçando, ano após ano, os lugares cimeiros na lista dos atletas que mais passes “dropam”. Neste jogo foram mais dois, um deles num potencial touchdown que relançaria o encontro. Se no passe ele é inconstante (e dizer isso é um eufemismo), como run blocker roça a nulidade, sendo absorvido sistematicamente pelo adversário. Qualquer análise que seja efectuada, sobre um jogador, nunca poderá escamotear a sua posição, o seu raio de acção e, claro, a tarefa primária que lhe é destinada. Stephen Tulloch, o middle linebacker, tem como principal missão parar o jogo corrido do opositor. É ele, em primeira instância, o responsável por efectuar tackles em campo aberto, se o running back foge do backfield, ou participar na linha de scrimmage para estancar de imediato a corrida. Aí, terá sempre que vencer o duelo com o guard ou fullback adversário, que o tentará impedir de atingir o running back. Tendo isto em consideração, Tulloch realizou um jogo horrível, repleto de erros, ora batido por Adrian Peterson, ou sustido pelo marcador. Logo numa das primeiras jogadas corridas, Tulloch foi bloqueado exemplarmente por Rhett Ellison, que abriu caminho a uma corrida de 16 jardas de Peterson. E isso foi só o início duma tarde repleta de equívocos.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.