Vikings @ Seahawks: O Jogo dos Corredores Incansáveis

Paulo Pereira 9 de Novembro de 2012 Análise Jogos NFL Comments

Minnesota Vikings at Seattle Seahawks

1 2 3 4 F
Minnesota Vikings 7 10 3 0 20
Seattle Seahawks 14 6 7 3 30

O Jogo dos Corredores Incansáveis

Foi bom enquanto durou, para os fãs dos Minnesota Vikings. A expectativa semanal, a ansiedade fervilhante, o nervosismo que cresce desmesuradamente durante os jogos. A equipa de Minnesota fez sonhar, durante largas semanas, o seu enorme contingente de adeptos, crentes numa ida aos playoffs. Jogos árduos, vencidos de forma sofrida, mas com aquela aragem de esperança que o futebol fluido e as exibições superlativas conseguem dar. Parecia, por momentos, um conto de fadas. Uma daquelas histórias de superação, filmadas em alta definição, contando os feitos duma equipa que tinha superado os seus limites. Mas, inesperadamente, a equipa soçobrou. Quando parecia que era possível o revitalizar da franquia, eis que o ataque foi acometido por uma anemia estranha, no jogo aéreo. Os Vikings, num ápice, passaram a ser uma equipa apenas capaz de ferir o opositor no solo.

Adrian Peterson, numa investida ao seu estilo

Adrian Peterson, numa investida ao seu estilo
Fonte da Image: John Froschauer/AP Photo

Tem Adrian Peterson num momento sublime de forma. Mas isso, na NFL, não chega. Como se viu em Seattle.

Os Seahawks são uma equipa jovem, que traçou um trilho e segue por ele, teimosamente. Pete Carroll, carregado de experiência pelos anos passados no College, onde levou USC ao sucesso várias vezes, é um estratega incomum. Sabe criar dinâmica, laços emocionais fortes com os seus jogadores e é avesso a dogmas. Como bom artesão que sabe do seu métier, começou de forma paciente a criar qualidade na defesa, dotando-a de armas que impermeabilizaram a secundária e acentuaram a agressividade no front seven. Na secundária, o par de safeties pode reivindicar, sem qualquer ponta de arrogância, um papel de relevo na lista dos melhores na posição. Earl Thomas e Kam Chancellor tornaram-se um dos dínamos da equipa, parecendo omnipresentes naquela zona de terreno. O duo titular de cornerbacks é, igualmente, cumulado de elogios. Brandon Browner será um dos mais underrated defensive backs da liga, enquanto ao seu lado vai crescendo qualitativamente Richard Sherman. O jogador, no seu 2º ano na NFL, ameaça ser um caso sério no futuro a curto prazo. Mas foi no ataque que o pensamento fora da box de Carroll se evidenciou, não tendo pruridos em entregar o comando do ataque a um quarterback rookie, pejado de motivos de preocupação, em qualquer relatório de scouts. A baixa estatura, diziam eles, criaria sérias dificuldades para Wilson gerir o ataque. O seu braço, pouco consistente nos lançamentos longos, penalizaria a equipa, presa fácil a um jogo de slants e screens. Carroll deve guardar, no seu arquivo pessoal, todo esse rol de críticas. E, acredito eu, de quando em vez relê o que foi escrito pelos supra-sumos, rindo-se depois, a bandeiras despregadas. Criam-se dogmas na NFL, impedindo muitas vezes que jogadores talentosos consigam um lugar ao sol, vítimas de preconceitos e ideias preconcebidas. Wilson tem sido uma revelação, gerindo bem a pressão de ter que lutar diariamente contra essas ideias instituídas e a presença no roster de Matt Flynn, pago a peso de ouro para pretensamente ser o franchise quarterback da franquia.

O Jogo

Foi interessante, competitivo e de resultado imprevisível, quase até final. É o que se pode esperar dum jogo, naquela que deve ser a melhor competição profissional do Mundo. Foi, também, um duelo empolgante entre dois running backs, que mantiveram um aceso despique para ver qual deles infligia mais danos à estrutura defensiva contrária. Terminado o jogo, cantadas as hossanas a vencedores e vencidos, o que sobra de elemento diferenciador? O papel de ambos os quarterbacks, como elementos preponderantes no estabelecimento de um jogo fluído. Se Russell Wilson continua a trilhar um caminho de sucesso, completamente integrado no colectivo, capaz de mover o ataque de forma suave, ora optando por endossar a responsabilidade a Marshawn Lynch, ora preferindo usar os alvos no jogo aéreo, Christian Ponder entrou numa espiral negativa, parecendo um corpo estranho no ataque dos Vikings, completamente ineficaz. E depois, como se isso não bastasse, a defesa contra o jogo corrido, anteriormente tida como quase inexpugnável, está agora em modo permissivo. Quarto jogo seguido a permitir mais de 100 jardas ao adversário, no solo. Depois dos Redskins, reabilitaram LaRod Stephens-Howling, deram rédea livre a Doug Martin e agora foram estropiados por Marshawn Lynch. O problema, nos Vikings, não é apenas Christian Ponder. Será, no ataque, uma culpa repartida entre a insegurança do quarterback, um corpo mediano de receivers (com a única excepção a ser Percy Harvin) e um play calling deficitária e conservador, incapaz de explorar as debilidades dos adversários e as qualidades existentes na própria equipa. Os Vikings têm subsistido, até agora, graças ao papel importante do special team (que quase garantiu sozinho a vitória contra os Lions), à defesa (unidade marcante contra os 49ers) e a exibições individuais, com Percy Harvin e Adrian Peterson a insuflarem ânimo.

Os Seahawks, por sua vez, podem sonhar. Talvez a equipa ainda denota alguma inconsistência e imaturidade, para poder reivindicar a hegemonia na divisão, pertença dos 49ers. Mas todos os sectores estão revestidos de qualidade que permitem aferir, com razoável grau de certeza, que num futuro a curto prazo é possível atingir metas mais ambiciosas. No ataque começa a solidificar a química entre Russell Wilson e Golden Tate, com Sidney Rice a fazer a sua aparição, numa fase crucial. Com um jogo corrido sólido e eficaz, uma defesa jovem e atlética, os playoffs podem ser já um dado adquirido em 2012.

1º Período

Que melhor início se podia pedir do que o oferecido pelos Vikings? Quando eu quiser viciar o meu filho no maravilhoso mundo da NFL (o Tomas, com os seus 6 anos, ainda prefere outro tipo de entretenimento visual) vou-lhe criar uma compilação de jogadas espantosas, daquelas de cortar a respiração a quem assiste. Nela, vai figurar a arrancada de Adrian Peterson. O running back, depois do snap, correu por trás da linha de scrimmage, furtou-se a um adversário, usou o stiff arm para derrubar outro opositor, endireitou a rota, fintou dois tackles e entrou em campo aberto, correndo de forma galvanizadora em direcção à end zone. Não concretizou o touchdown, mas amealhou 77 jardas, deixando todos atónitos com a sua tremenda demonstração de vitalidade. O TD acabou por aparecer, marcado por si, na jogada seguinte, dando um início de jogo de sonho à equipa de Minnesota. O momentum foi, no entanto, quebrado logo de seguida, quando os Vikings recuperaram a bola, depois de pararem o ataque dos Seahawks. O culpado foi um insuspeito Percy Harvin. No seu papel de faz-tudo, Harvin arrancou para conseguir um first down, ao bom estilo de um running back. Mas um tackle cirurgicamente aplicado provocou um fumble ao wide receiver, na linha de 17 jardas de Minnesota. Marcus Trufant comemorou exuberantemente a jogada. Percebia-se o motivo. O tempo veio dar razão ao jogador dos Seahawks. Galvanizados por essa jogada, a equipa de Seattle rapidamente capitalizou em pontos o lance. O terreno foi preparado com duas arrancadas consecutivas de Lynch, corredor incansável. Depois, a frieza e precisão de Russell Wilson fizeram o resto, num bem medido passe para Golden Tate, de 6 jardas. Empate na partida.

Os Vikings fizeram um 3-and-out, entregando a bola novamente ao ataque contrário. Começou a aparecer Sidney Rice. Primeiro, num belo passe para o meio do tráfego, com o receiver a superiorizar-se ao rookie Josh Robinson, num ganho de 23 jardas. Depois, surpreendentemente, Sidney Rice emulou Russell Wilson, tornando-se por instantes num quarterback. O passe do receiver, numa jogada bem planeada, foi perfeito, encontrando o tight end Zach Miller isolado junto à linha lateral. 25 jardas que colocaram os Seahawks bem dentro da red zone, ameaçando novo parcial. Pela terceira vez na drive, o nome de Rice foi entoado pelos adeptos. Passe de Russell Wilson, de 11 jardas, encontrando o wide receiver na end zone. Touchdown. 14-7 e o 1º período com muitas histórias para desfiar.

2º Período

Lá diz o ditado. Quem não tem cão caça com gato. Snap após snap, bola nas mãos de Peterson e jardas corridas, uma após outra. Os Vikings procuravam não se atrasar no marcador. Marcus Trufant, que tinha sido inestimável no 1º período, ao provocar o fumble a Percy Harvin, viu-se no lado oposto, provocando um pass interference que penalizou a sua equipa em 24 jardas. Adrian Peterson agradeceu a dádiva e tornou a marcar, para os Vikings, colocando tudo igualado.

O marcador só voltou a sofrer alterações pela acção directa do kicker Blair Walsh . Ele concretizou um field goal de 36 jardas, numa drive promissora dos Vikings que terminou abruptamente num sack de Bobby Wagner (um rookie que tem dado nas vistas). Respondeu Seattle, numa drive que misturou corrida e passe (destaque merecido para o belo lançamento de Wilson para Zach Miller, num ganho de 22 jardas), terminada em novo passe de sucesso para um alvo cada vez mais confiável: Golden Tate. Os Seahawks passavam, finalmente, para a liderança no marcador, à beira do intervalo, num crucial golpe psicológico. O ponto extra foi bloqueado, com Steve Hauschka a ver o seu remate interceptado por Kevin Williams.

3º Período

O motor dos Vikings começou a dar evidentes sinais de desgaste, ameaçando uma paragem total. O ataque era revitalizado esporadicamente pelas correrias de Adrian Peterson, sempre imprevisível nas rotas e beneficiando dum excelente trabalho da linha ofensiva, funcionando como um conjunto excelente de run blockers, ou por investidas irregulares de Percy Harvin. As drives era anuladas, ou por passes incompletos, ou terminadas em sacks (realce para o conseguido por Bruce Irvin, mais um rookie com excelentes skills no pass rush). Os Seahawks, estruturando bem as drives, calibradas entre as corridas de Lynch e Robert Turbin, e os passes de Wilson, acabaram por marcar novo TD, mérito quase total de Marshawn Lynch. Na drive, Lynch conseguiu uma corrida fantástica, de 23 jardas, parecendo um touro enraivecido, levando tudo à frente.

Parecia o princípio do fim para os Vikings, mas a equipa ainda encontrou forças para se manter à tona, não permitindo que a vantagem se alargasse de forma irredutível. Adrian Peterson tem nova cavalgada impressionante, ganhando 28 jardas no solo, permitindo que Blair Walsh marcasse um FG de 55 jardas. Numa tarde onde a tónica dominante, na NFL, foi ver kickers veteranos a falharem field goals em série, de distâncias menores, Walsh merece ser coberto de encómios pela magnífica temporada que tem realizado.

4º Período

Ataque anémico dos Vikings, tempo e controlo do jogo geridos na perfeição por Seattle e ponto final na contenda a 6 minutos do final, com Steve Hauschka a marcar um FG de 40 jardas. Foram 15 minutos de total controlo do tempo, por parte dos Seahawks, com os Vikings a nunca darem mostras de poder ameaçar a liderança no marcador.

As Nossas Escolhas

MVP: Vários candidatos para apenas um prémio oficioso. O meu coração purple & gold exigia a coroação de Adrian Peterson. O running back dos Vikings foi instrumental a manter a equipa na luta pela vitória. No seu estilo peculiar, All Day ganhou jardas, derrubou adversários e quebrou tackles, parecendo incansável e imparável. Foram 188 jardas em apenas 17 corridas, dilacerando o coração da defesa dos Seahawks. Mas, infelizmente, estabeleci uma regra rígida neste campo. O jogador mais importante, num encontro, terá que se encontrar, pela lógica inerente ao prémio, na equipa vencedora. Aí, podia escolher vários atletas que se destacaram. Optei por Russell Wilson, que continua semanalmente a esbofetear simbolicamente todos aqueles (e foram tantos) que duvidaram da sua capacidade, para singrar no competitivo mundo da NFL. A sua estatura, alvo de comentários depreciativos dos pseudo-especialistas que gravitam em redor do futebol americano, não se tem revelado um empecilho para o sucesso. Sereno no pocket, Wilson tem sabido encontrar linhas de passe, mantendo uma regular empatia com o seu corpo de receivers, ora endossando a bola a Golden Tate, ora optando por Doug Baldwin ou, como neste encontro, distribuindo jogo a Sidney Rice. Sem erros de monta a apontar, conseguiu equilibrar eficazmente o jogo aéreo com o corrido, nunca deixando a equipa dependente apenas das corridas de Lynch. Foi algo conservador no plano de jogo, como revela o diminuto número de snaps (16/24 em passes) e as jardas conseguidas (173), mas foi terrivelmente eficaz a aproveitar as oportunidades, com 3 passes para touchdown. MVP é isto. Low profile, mas infalível e seguro na exibição.

Positivo: Nos Seahawks Sidney Rice apareceu, finalmente, revelando aquilo que os Seahawks desejavam. Um wide receiver alto, felino, capaz de dar consistência ao jogo aéreo, quer junto à linha lateral, emparelhando com cornerbacks ágeis, quer no meio do campo, ludibriando as marcações. Marshawn Lynch foi imperial, no jogo corrido, conseguindo responder à contraparte adversária. Com um touchdown marcado, numa altura crucial da partida, Lynch ligou o seu “beast mode”, carregando de forma furiosa contra a barreira de adversários, nunca se intimidando com os defensive tackles ou com a presença do excelente Chad Greenway. A secundária foi excelente, sendo um ponto forte na estrutura defensiva. Earl Thomas participou activamente em blitzes, pressionando de forma ameaçadora Christian Ponder, por duas vezes. Brandon Browner e Richard Sherman nunca permitiram qualquer veleidade aos receivers dos Vikings, com o primeiro a conseguir uma intercepção e o segundo a secar por completo Jerome Simpson e Michael Jenkins.

Nos Vikings, para além do referido Adrian Peterson, que consegue esgotar os elogios, existiram outros destaques. Kevin Williams, o defensive tackle que é um dos históricos do roster, continua a lutar contra a passagem do tempo. Podem ser-lhe assacadas algumas culpas no brilhante jogo de Marshawn Lynch, mas o running back dos Seahawks procurou quase sempre outras rotas de fuga que não pela zona central, evitando a presença maciça do jogador dos Vikings. Disruptivo, foi o elemento da linha da frente que mais problemas criou à linha ofensiva de Seattle, vencendo a maioria dos duelos contra John Moffit. Com um sack conseguido e um extra ponto bloqueado, Kevin Williams mostrou a sua polivalência. Matt Kalil esteve perfeito no pass protection, criando uma zona tampão do lado esquerdo que se tornou proibitiva para os adversários. O rookie mantém o excelente nível evidenciado, desde cedo, conseguindo mostrar melhorias significativas como run blocker. Desta feita desempenhou um papel fulcral para as jardas conquistadas por Adrian Peterson. Blair Walsh, rookie kicker, continua imparável, não se atemorizando com distâncias. Marcou mais dois field goals, levando já 19 concretizados, em 20 tentativas. Chutou de forma perfeita um FG a 55 jardas de distância.

Negativo: Nos Vikings a total ausência de pressão, na linha defensiva, foi a nota dominante. À excepção de Kevin Williams, que se mostrou vigoroso e capaz de criar momentos de tensão na OL adversária, Jared Allen foi uma sombra do jogador exuberante que costuma ser. Presa fácil, foi manietado em todas as investidas, perdendo fulgor a cada jogada. Brian Robinson, por sua vez, não fez muito mais do que o parceiro da outra ponta. Mais interventivo, mas nem por isso mais eficaz, apenas apresentou alguns fogachos de qualidade, como no passe deflectido na linha de scrimmage (é o 4º, nos dois últimos jogos). Jerome Simpson e Kyle Rudolph, de quem se esperava constituírem-se ameaças letais na red zone, foram mais vítimas do que réus na ausência de um jogo aéreo consistente.

Christian Ponder, incapaz de mover o ataque dos Vikings
Fonte da Imagem: Elaine Thompson/AP Photo

Christian Ponder tem resvalado para uma confrangedora mediocridade, incapaz duma centelha de génio que consiga mover o ataque. Sucessivos passes incompletos, uma total ausência de química com o grupo de receivers e números cada vez mais reduzidos nas jardas conquistadas. Nos dois últimos jogos, Ponder não ultrapassou as 120 jardas passadas, no total. Um motivo claro de reflexão, que mostra que algo não vai bem no reino dos Vikings.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.