College Football 2015: Week 1

Paulo Pereira 7 de Setembro de 2015 Análise Jogos College, College Comments
BYU vs Nebraska

College Football 2015: Week 1

Foi um Sábado repleto de acção, na primeira jornada do College. Mas foi, igualmente, um Sábado morno, como se os motores ainda estivessem a aquecer. Não me entendam mal. Existiu o habitual, no mundo do futebol universitário. Novos heróis, jogadores que sucumbiram perante o peso da responsabilidade e a dose regular de drama, emoção e finais empolgantes. Até tivemos direito ao primeiro upset do ano, com Northwestern, underdog no confronto caseiro contra Stanford, a vencer por apertados 16-13. A jornada terá como principal highlight o final empolgante do jogo entre Nebraka contra BYU. Um jogo intenso, repleto de big plays, com aquele electrizante culminar, quando o cronómetro marcava um segundo para jogar. Para desvendar, já a seguir:

BYU, 33 @ Nebraska, 28

Gosto de ver os jogos de BYU. Não por algum motivo especial, ou por aceitar os rígidos padrões disciplinares e comportamentais que a escola, vincadamente de cariz cristão, impõe aos estudantes. Se há algo que gosto, nas tardes de Sábado, é descobrir jogadores excitantes, playmakers tremendos. O College faz-me sempre a vontade, criando lendas, mesmo que momentâneas. Um dos meus jogadores predilectos, na actualidade, é o quarterback de BYU, Taysom Hill. Saltou para a ribalta num jogo contra os Longhorns, onde estilhaçou a defesa contrária com os pés, criando momentos de puro deleite. Hill tem muito que evoluir, no quesito do passe, mas nota-se a tentativa de crescimento, no pocket. Contra Nebraska, que estreava um novo treinador, voltou a ser algo randómico no passe, com um 21/34, 268 jardas, 1 TD e uma INT, mas feriu de morte os Cornhuskers no solo. Nebraska nunca encontrou o antídoto para travar as investidas felinas de Hill, que amealhou mais 72 jardas em apenas 9 corridas, marcando por duas vezes. Mesmo assim, apesar deste esforço estóico do quarterback, BYU viu-se suplantada no marcador, graças à performance de Tommy Armstrong, com 319 jardas e 3 TDs. A secundária de BYU falhou. Uma e outra vez, criando a ideia que a equipa da casa venceria o importante confronto. E tudo parecia encaminhado para isso. 1 segundo no cronómetro. Bola nas 40 jardas. Um último e desesperado acto. Público em suspenso. Já sem Hill em campo, coube a Tanner Magnum lançar o Hail Mary. Nebraska estava preparada, sem colocar grande pressão sobre o pocket, preferindo resguardar a end zone, pejada de jogadores. Tanner teve tempo para sair do pocket, ganhar balanço e lançar a bola. E ela, de forma quase inacreditável, aterrou nas mãos de Mitch Mathews. O receiver de BYU, cercado por 3 defensores, conseguiu subir, agarrar a bola e cair com ela, apesar da oposição, na end zone. Um lance fatídico, desnudando a ingenuidade da unidade defensiva de Nebraska (3 jogadores atrás do receiver?), que deu um importante e improvável triunfo a BYU.

Eastern Washington, 42 @ Oregon, 61

Foi dia de estreias, um pouco por toda a liga. É esse o mantra vigente no college. Jogadores novos, que se desenvolvem, ganham skills e, depois, concluem a sua participação, 3 ou 4 anos depois, saindo para a NFL. Fecham-se ciclos, em alguns lados, iniciando-se logo outros, com protagonistas diferentes. Oregon disse adeus a Marcus Mariota, um dos mais emblemáticos jogadores de sempre, na história da universidade. Mas a vida continua e, mais do que mitigar saudades, permanecendo nesse limbo das recordações, há que criar novas formas de tentar vencer e ser competitivo. Para o lugar de Mariota chegou Vernon Adams Jr, transferido de Eastern Washington. Por ironia do destino, o primeiro jogo de Oregon, na nova temporada, foi contra a antiga escola de Vernon. O quarterback mostrou que, não sendo Mariota, pode ser importante para manter os Ducks como perenes candidatos. Ainda é cedo para ilações, mas no primeiro teste, Vernon Adams liderou um ataque que manteve a mesma explosividade dos anos anteriores, conseguindo 731 jardas totais. No passe, 19/25, 246 jardas e 2 TDs. No solo, mais 94 jardas, ajudando Royce Freeman a esmagar a oposição. Se Vernon merece o destaque, pela transição suave verificada no jogo de passe, o running back foi instrumental para o aliviar da pressão. Freeman, no ano em que deverá entrar no draft, mostrou credenciais. 21 corridas, 180 jardas e 3 TDs. Se o ataque é atemorizador, a defesa é motivo de preocupação. A juventude que aí impera terá as suas dores de crescimento e enormes dificuldades para travar ataques mais credenciados. A secundária foi ineficaz, permitindo ganhos importantes ao adversário (sofreu 5 TDs) e mantendo este na corrida pelo resultado. Algo a rever, agora que se aproximarão jogos importantes, como o da próxima semana, contra Michigan State.

Texas State, 16 @ Florida State, 59

Se Oregon ficou órfã de Mariota, o que dizer de Florida State, que perdeu Jameis Winston e Rashad Greene, respectivamente o quarterback e o melhor receiver? Se o jogo corrido manteve Dalvin Cook, a revelação de 2014, era com enorme curiosidade que se aguardava a estreia de Everett Golson no lugar que era de Winston. Se o nome vos é familiar, é porque já ouviram falar dele aqui. Várias vezes. Golson tem potencial, mas tarda em mostrá-lo na sua plenitude. Em Notre Dame viveu sempre numa montanha-russa, com mais pontos baixos do que altos. Com os Fighting Irish dispostos a encerrarem o capítulo Golson, apenas restou a este uma transferência para outras paragens. Os Seminoles, sangrados abundantemente no último draft, receberam-no de braços abertos. Um quarterback veterano no college vale ouro. A week 1 não trouxe oposição à altura, com a frágil equipa de Texas State a servir de teste inicial. O que se pode dizer, face ao que se viu, é que Golson mostrou o seu lado bom. Se habitualmente era criticado pela sua decision making, desta feita foi cirúrgico, controlando a seu bel-prazer o ritmo do encontro. 19/25, 302 jardas e 4 passes para touchdown. O nervosismo rapidamente foi dissipado, com Golson a entrar em campo e a conduzir uma drive de 10 jogadas, que culminou num score. Melhor era impossível. Óptimo a evidenciar que tem braço para os lançamentos longos, no outside, intercalados com lançamentos sensatos, para o meio do campo, em pleno tráfego, preciso a lançar as bolas entre os safeties e linebackers, Golson mostrou a sua vasta gama de recursos. Será cedo para dizer se estes Seminoles conseguem manter-se competitivos, contra os melhores, mas as indicações foram boas. A OL foi dominante, sobretudo no lado esquerdo (soberbo Roderick Johnson), o jogo corrido aparenta estar já em forma e com Dalvin Cook a ganhar 156 jardas e a marcar por duas vezes. Venha o próximo!

Wisconsin, 17 @ Alabama, 35

Todos os anos se espera a queda de Alabama. E de Nick Saban. E todos os anos eles mostram resiliência. Tal como vários outros programas na SEC, 2015 está pejado de dúvidas por parte de Crimson Tide. A universidade tornou-se um viveiro de talento, com muitos deles a saírem para a NFL com o selo de qualidade. Cabe ao head coach emblemático conseguir, ano após ano, manter os padrões de qualidade na equipa de futebol. Saban usa o recrutamento como ninguém, mantendo os níveis competitivos, mesmo com perdas de jogadores nucleares. E, o melhor elogio que se pode dar, é que ninguém se atreve a apostar contra eles. Estreando novo quarterback, Jake Coker, num embate sempre difícil contra Wisconsin, Alabama mostrou os predicados de sempre. À cabeça, uma linha ofensiva assustadora, sobretudo no running game, abrindo rotas e buracos tremendos. Depois, como complemento, a tradição do jogo corrido. Foram 238 jardas terrestres, 147 delas vindas de Derrick Henry. E o desafio nem parecia justo. Henry não é um running back normal, dentro daquele estereotipo que se criou. É um armário, de 6’3’’ de altura, um colosso físico que o destaca no meio do campo, quando comparado com quem o tenta parar. O jogo foi muito isto. Uma versão moderna de David contra Golias, só que aqui o Golias não era parado por um, dois ou mais tacklers. Henry dilacerou as entranhas do adversário, conseguindo uma média de 11,3 jardas em cada uma das suas incursões. Os seus 3 touchdowns foram instrumentais na vitória por 35-17, num jogo em que Coker se limitou a tentar não cometer erros primários. Conseguiu-o, reforçando a ideia de que esta equipa, mesmo sem grande hype em seu redor, pode atingir os playoffs. Lane Kiffin continua a ser um coordenador ofensivo criativo, sempre atento ao jogo, movendo as suas peças como um xadrezista perspicaz. A defesa, habitualmente um bastião, mostrou a dose de agressividade (com o DE Jonathan Allen à cabeça, com dois sacks) contra o passe e corrida. Em suma, exibição dominadora, como um recado aos rivais. Alabama continua a ser o alvo a abater, na SEC. O triunfo contra Wisconsin, nº 20 no ranking, prova isso mesmo. Gostei de Wisconsin, mesmo no desaire. Joel Stave fez o que pode para manter a equipa a discutir o resultado, mas o esforço acabou por ser atraiçoado pela ineptitude do seu ponto forte: o jogo corrido. Mesmo assim, se os Badgers mostraram não ser uma equipa de elite, deram mostras de poder, pelo menos, vencer o título de Big 10.

Arixona State, 17 @ Texas A&M, 38

Kevin Sumlin tem um sonho. E não está escondido sob o manto sagrado do segredo. Quer ser campeão. Para já, no seu reinado como head coach de Texas A&M, tem namorado com esse desejo, mas sem o conseguir concretizar. A universidade texana é um bom e respeitável programa de futebol. Mas, por uma ou outra razão, mostra não estar, nas alturas decisivas, ao nível de outros potentados. Sumlin conseguiu, no entanto, dominar o recrutamento no imenso estado do Texas, destronando os Longhorns como os favoritos na afeição de atletas vindos do high school. E essa é a sua principal vitória. Com o recrutamento vem o talento. E os Aggies parecem estar repletos dele, em 2015. Poderá ser ainda cedo para pensar nos playoffs. Isto não é um sprint. É uma maratona. E a corrida apenas se iniciou agora. O jogo, incialmente, foi algo atabalhoado, por parte dos dois contendores, mas depois os Aggies explodiram para um festim de ataque, perante 66 mil espectadores. Na equipa da casa sobressaíram vários jogadores, daqueles palpitantes, que fazem levantar a esperança no “este ano é que é”. A defesa, habitual calcanhar de Aquiles, cedeu apenas 288 jardas no total. O rei e senhor da unidade defensiva foi Myles Garrett. O sophomore defensive end criou sempre o caos e o pânico, parecendo uma força imparável. Somou 3 sacks, 3 tackles for loss, um forced fumble, mais uma mão cheia de tackles, liderando a equipa contra uns Sun Devils de qualidade. No ataque, Sumlin tem mais uma pérola. É um freshman mas não se intimidou por ser o seu primeiro jogo universitário. Christian Kirk, wide receiver, foi o rosto do jogo aéreo, compilando 6 recepções, para 106 jardas e um TD. Multifacetado, foi uma arma tremenda nos retornos, obtendo um dos momentos altos da noite, ao retornar um punt 80 jardas para novo touchdown. Liderados por Kyle Allen que, não sendo perfeito, conseguiu mover o ataque, sobretudo na 2ª parte, os Aggies deram também snaps a outra rising star. Chama-se Kyler Murray e é também um rookie. Mas com um hype tremendo no Texas, onde se tornou uma espécie de divindade, quando jogava no high school. Murray saiu lesionado, mas não sem antes mostrar que é uma dual-threat a ser explorada, no futuro próximo. A equipa de Todd Graham, mesmo derrotada, deixou boa impressão. Isso de pouco valerá, quando se somarem as vitórias e derrotas, mas fica a sensação de dever cumprido. O ataque foi algo titubeante, claudicando nos terceiros downs (apenas 5 em 18), mas  defesa mostrou estar à altura de quem pensa vencer a PAC 12.

Texas Longhorns, 3 @ Notre Dame, 38

Sim, somos candidatos. Esse poderia ter sido o grito de guerra dos Fighting Irish, após demolirem os Longhorns. A equipa de Charlie Strong foi uma sombra daquela com tradição no mundo universitário, não mostrando nada na defesa e ataque que permita alguma fé aos seus adeptos. Mas esse desnudar da mediocridade só foi possível pelo excelente jogo de Notre Dame, uma equipa que pareceu sempre ávida dentro de campo, agressiva e dominadora. Sem Golson, agora nos Seminoles, o ataque foi entregue a Malik Zaire, inexperiente quarterback, mas com alguns fogachos de talento mostrados em 2014. Zaire não desiludiu. Tem um canhão no lugar do braço, e foi calmo e terrivelmente cool a manobrar o ataque. Terminou com tantos passes incompletos – 3 – como touchdowns, numa estatística que comprova efectivamente o que se passou dentro de campo. 19 em 22, 313 jardas e 3 TDs. Num jogo que roçou a perfeição, destaque natural para a empatia entre Zaire e Will Fuller, autor de 142 jardas e 2 TDs, nas suas 7 recepções. A defesa foi sufocante, nunca deixando Tyrone Swoopes e a sua OL confortável. Esta, que estreava dois freshman, foi batida toda a noite, raramente dando condições ao seu QB ou jogo corrido para fazerem algo de relevante. Tudo aponta para que vá ser uma temporada demasiado comprida para Charlie Strong, que terá agora 3 jogos caseiros para endireitar as aspirações. Quanto a Notre Dame, os próximos jogos dirão se, efectivamente, os playoffs estão ao seu alcance.

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Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.