College Football: Week 15

Paulo Pereira 12 de Dezembro de 2013 Análise Jogos College, College Comments
College Football

College Football: Week 15

Parece um sentimento contraditório. Agora que entramos na fase dos Bowls, a verdadeira face do College, onde a celebração e a comunhão de adeptos com a respectiva equipa atingem o píncaro, sinto-me algo angustiado. Em vez da empolgação, imaginada semanas a fio, naquela ansiedade de atingir este ponto, sinto o oposto. Uma sensação de perda. O College está a terminar. As semanas de jogos regulares, de exibições transcendentes, de resultados memoráveis, está a caminhar para o ocaso. Deixa-nos, é claro, um legado. Enorme. Brinda-nos com uma final inédita, imprevisível, inesperada, completamente fora do radar, nos prognósticos de início de época. Mas, qual competição caprichosa, resolveu provocar nova surpresa, na última semana. Depois do Auburn versus Alabama, clássico imediato, julgava-se que os finalistas estavam encontrados. Florida State e Ohio State, invictos, estariam presentes na grande festa, completando o trilho percorrido até à data. Sim, ainda faltava um jogo. A final da conferência, em que cada um deles intervinha. Mas depois do esforço hercúleo, do percurso sem mácula, ninguém iria fraquejar, logo na altura decisiva, pois não?

O fim-de-semana foi marcado por dois jogos. Não é difícil perceber quais. E a repercussão dos seus resultados trouxe clareza na escolha dos finalistas. Desta feita, ao contrário de outras temporadas, não existirão teorias da conspiração, lobbys reais ou imaginários, decisões e escolhas baseadas na mitologia e poder de cada universidade. Vai à final quem merece. Ponto.

1– Florida State, 45 versus Duke, 7 – Final de Conferência ACC

Quem, no início da temporada, tivesse colocado uma aposta em Duke, como putativa finalista de conferência, poderia estar agora confortavelmente a viver dos rendimentos. A melhor temporada de sempre de Duke foi premiada, justamente, com a vitória na sua divisão na ACC e, com isso, com o direito de estar na final, disputando o título de campeão. A correlação de forças, no entanto, era enorme. O jogo, previsivelmente desequilibrado, correu conforme o previsto. Os Seminoles, depois de um esmagador domínio da regular season, limitaram-se a respeitar o adversário e a jogarem o suficiente. A defesa foi dominante, limitando Duke a pouco mais de 200 jardas, forçando 3 turnovers e impedindo o adversário de conseguir um first down em 7 das 8 posses de bola, até ao intervalo. A agressividade sufocante permitiu a Florida State recuperar de dois erros de Jameis Winston. As suas duas intercepções, que podiam ter tido um peso negativo no ataque, foram minimizadas pela prestação defensiva. Winston, um dos finalistas do Heisman Trophy, no seu ano freshman, recuperou a frieza e o ritmo que o caracterizam, terminando com 330 jardas e 3 passes para touchdown, tendo como alvo principal o receiver Kelvin Benjamin. O sophomore continua a impressionar, adicionando mais 119 jardas e 2 scores ao seu pecúlio e ajudando a equipa a cimentar a diferença. Foi a 12ª vitória dos Seminoles, em 13 jogos, por 27 ou mais pontos. Uma equipa jovem, com talento, com um equilíbrio quase perfeito entre o jogo corrido (obteve 239 jardas neste jogo) e o jogo de passe (330 jardas, em 19 recepções). Jimbo Fischer está de parabéns pelo engenho demonstrado no recrutamento, que lhe permitiu a criação deste grupo fabuloso.

Highlights: http://scores.espn.go.com/ncf/video?gameId=333410052

2– Ohio State, 24 versus Michigan State, 34 – Final da Conferência Big Ten

Dois anos. Foi esse o arco temporal que os Buckeyes permaneceram invictos. Ohio State chegou a esta final de conferência, contra os Spartans, com um currículo invejável. Urban Meyer, o lendário treinador que levou os Gators de Tim Tebow à glória, por duas vezes, não tinha ainda conhecido o travo amargo da derrota, nesta sua aventura em Ohio. Impedidos de disputarem, pelas sanções impostas pela NCAA, qualquer Bowl, no ano passado, os Buckeyes viram adiado o sonho de atingirem a final BCS. Este ano tudo parecia encaminhado para a glória. Ohio sobreviveu a alguns sustos, sobretudo no jogo passado contra Michigan, com os Wolverines a falharem o 2-point-conversion que lhes daria o triunfo, no final da partida. O jogo contra Michigan State, com apenas uma derrota na temporada, foi equilibrado…e emocionante. Os Spartans construíram uma vantagem precoce de 17-0, deram cabo dela e tiveram que montar um comeback para atingir o título na divisão, feito inédito. O homem do jogo não foi Braxton Miller, o quarterback de Ohio. Ou Carlos Hyde, um dos melhores running backs da nação. Foi mesmo o quase desconhecido Connor Cook, quarterback de Michigan State, com 304 jardas e 3 passes para TD. O ataque dos Spartans viveu essencialmente da sua inspiração, deixando as esperanças da equipa repousarem no braço direito de Cook. O sophomore, que demonstrou ter um belo percurso pela frente, não se intimidou com o shut down do jogo corrido, assumindo a responsabilidade no ataque. Por falar em jogo corrido, esperava-se maior protagonismo de Jeremy Langford, apagado durante 3 quartos, mas explodindo no último, ainda a tempo de amealhar 126 jardas. O jogo terminou, praticamente, quando Langford se soltou e correu 26 jardas, a pouco mais de 4 minutos do final da contenda, sentenciando o encontro. Um dos duelos mais aguardados do jogo não defraudou as expectativas. Michigan State tinha a melhor defesa da competição, contra o jogo corrido. Ohio State possuía o melhor jogo corrido da Big Ten. Aqui, neste capítulo particular, venceu Ohio. A sua linha ofensiva fez um trabalho notável, permitindo grandes ganhos a Carlos Hyde (118 jardas em 18 corridas) e a Braxton Miller (21 corridas, 142 jardas e um touchdown). Os Spartans, que tinham chegado a este jogo decisivo permitindo apenas uma média de 64 jardas no solo, foram literalmente varridos do mapa. Vêem agora porque é que Connor Cook foi o MVP? Mark Dantonio, head coach de Michigan State, era um homem feliz no final. A equipa, com uma temporada soberba (venceu todos os jogos na conferência), amealha um título e o respeito geral. Agora, o mítico jogo no Rose Bowl, que os Spartans não disputavam desde 1988. Pela frente, Stanford. Vai ser tremendo!

Quanto a Ohio, o sentimento geral é de frustração. 24 vitórias consecutivas valeram…uma mão cheia de nada. Impedidos de disputarem qualquer Bowl ou o título na conferência, no ano passado, perderam este ano esse mesmo título, com a derrota a arredá-los do prémio maior: a final BCS. Se alguns, analisando o recorde de Ohio State, com apenas uma derrota, questionam o porquê de eles terem sido afastados do jogo sonhado, a resposta é a schedule. Auburn (ou Missouri, se tivesse vencido a final da SEC) atinge a final igualmente com uma derrota, mas com uma dificuldade substancialmente mais elevada nos adversários que defrontou. Por exemplo, Auburn venceu Missouri (nº 5 do ranking), Alabama (na altura o indiscutível nº 1), Georgia (nº 25), Texas A&M (nº 7, quando o jogo se disputou, em Outubro), LSU (nº 6), Ole Miss (nº 24). Elucidativo.

Highlights: http://scores.espn.go.com/ncf/video?gameId=333410127

Com estes resultados, o principal beneficiário seria o vencedor da final da SEC. Missouri ou Auburn aproveitariam a escorregadela de Ohio State, atingindo de forma inesperada o final da prova. Qualquer uma delas, a viver um conto de fadas, mereceria o prémio.

No final, prevaleceu…

3- Auburn, 59 – Missouri, 42 – Final da Conferência SEC

Durante anos a fio o dogma reinante era que a SEC se tinha tornado transcendente na defesa. Era esse o seu legado para a restante competição. Pois bem, tudo isso foi estilhaçado por uma nova máxima. A melhor defesa é o ataque. Mizzou e Auburn inspiraram-se nela, proporcionando um tiroteio épico, num jogo se parada e resposta, de ataque e contra-ataque, não deixando tempos mortos. Foi uma partida sôfrega, como se cada um dos rivais quisesse demonstrar o porquê de merecerem ter chegado ali. Neste dinamismo cansativo, sem paragens, o marcador foi reflectindo a qualidade de parte a parte. Num equilíbrio que celebrou, acima de tudo, a qualidade made in SEC. 10-14, no final do 1º período. 27-28, ao intervalo. 42-45, no final do 3º período. Sempre Auburn, na frente. Sempre Missouri, encurtando distâncias. Nos derradeiros 15 minutos, Missouri quebrou. Os Tigers de Auburn, transportados no jogo corrido deTre Mason, sentenciaram o encontro, com dois touchdowns do fenomenal running back. A partida merece ser recordada – e celebrada – numa ode a ambos os programas, mostrando que o trabalho árduo é sempre recompensado. Missouri, perdendo, ganhou bem mais do que se pensa. Provou, de forma vincada, que mesmo neófita na SEC (apenas na sua 2ª temporada), tem capacidade para ombrear com as potênciasinstituídas. Auburn, vencendo, recuperou o status perdido no pós-título de 2010, mostrando que pode ser um contendor fiável e temível. Para a história, os números. Dos protagonistas. Tre Mason foi a figura maior. Já se sabe que o forte de Auburn é o jogo corrido. Mason foi um workhorse, transportando a bola em 46 corridas. Com elas, dizimou por completo a resistência do adversário, incapaz de travá-lo. Foram 304 jardas e 4 touchdowns. Como sempre, Mason foi coadjuvado pelo intrigante Nick Marshall, quarterback da equipa. Marshall passa pouco, preferindo usar a sua capacidade no solo para, muitas vezes, completar as jogadas. Mais uma vez, o opositor nunca conseguiu ter arte e engenho para impedir os ganhos. No passe, Marshall foi contido, optando pela segurança. 9/11, 132 jardas e um touchdown lançado. A maior expressão do seu jogo veio como complemento de Tre Mason. 16 corridas, 101 jardas e novo touchdown. Do lado dos vencidos, James Franklin mostrou a vasta gama dos seus recursos. Mas não chegou. 21/37, 303 jardas, 3 passes para TD, uma INT, colocando ainda62 jardas no solo e novo score. A estrela maior de Missouri não deixou os seus créditos em mãos alheias, assumindo sempre a responsabilidade nas alturas decisivas. Dorial Green-Beckham chegou à NCAA, em 2012, rodeado de enorme hype. O wide receiver, no seu ano sophomore, mostrou o porquê de ter sido cobiçado por várias universidade. Elegante, serve-se do seu tamanho (6-6) para dominar os ares e desafiar os cornerbacks, em qualquer situação. Foi o maior pesadelo da secundária de Auburn, conseguindo 6 recepções, 144 jardas e dois touchdowns.

Nem só de jogos mediáticos viveu o fim-de-semana. Existiram mais pontos de interesse, mesmo que estes fossem apenas residuais. Um breve apanhado desses momentos:

  1. Fresno State venceu a conferência Mountain West. Não será caso para soltar um “uau” de espanto, mas a temporada (quase) perfeita de Fresno merece uma nota de rodapé. A equipa termina a regular season aureolada com um título e com a permanência no top-25 do ranking, aumentando a visibilidade em redor da sua estrela-maior: Derek Carr. Este, mesmo sofrendo pressão o jogo todo, conseguiu passar para 404 jardas e 3 touchdowns. Segue-se a Bowl respectiva (Las Vegas Bowl) no dia 21 de Dezembro, contra USC. Depois, teremos os holofotes todos virados para Carr, quer no Senior Bowl (se ele nos brindar com a sua presença) e no Combine. Uma coisa parece certa. Carr estará na NFL, na próxima temporada. Basta saber onde…
  2. Final da MAC. Bowling Green contra Northern Illinois. Boa, pensei eu. Mais uma oportunidade para ver Jordan Lynch. O quarterback de Northern Illinois é um jogador empolgante, conhecido pelo Johnny Manziel dos pobres. Dual-threat, o seu jogo ganha enorme expressão no solo. O seu físico de fullback torna-o quase imparável, quando tem espaço livre. A temporada quase imaculada levava a equipa a sonhar com novo convite para uma das BCS Bowls, tal como no ano anterior. Mas, tal como eu, todos os que procuraram visionar uns minutos do jogo, para verem Lynch, lixaram-se. A expressão, algo rude e popular, nem se coaduna com o que se passou. Adoro ver jogos aleatórios do College pela elevada possibilidade de me enamorar de um jogador, até então, desconhecido. Aconteceu o mesmo neste jogo. Quem raio é Matt Johnson? Confesso a minha ignorância, até agora. O quarterback de Bowling Green foi o destaque da partida, numa exibição transcendente. 21/27 no passe, 393 jardas, rasgando a secundária adversários e 5 passes para touchdown. Eis um bom ponto de partida para 2014. Acompanhar a carreira futura de Johnson, ainda no seu 2º ano na universidade.
  3. Stanford venceu o título da PAC-12, derrotando Arizona State na final por concludentes 38-14. Uma boa montra para Tyler Gaffney, reunning back de Stanford, se mostrar aos scouts das franquias da NFL. 22 corridas, 133 jardas e 3 touchdowns. Com Kevin Hogan seguro no passe, Stanford mantém a hegemonia na conferência. Pode não ter o mediatismo de Oregon, mas a universidade continua a ser sinónimo de qualidade. Agora, uma merecida visita ao Rose Bowl, para defrontar Michigan State.
  4. Baylor, mesmo com dificuldades acrescidas na 1ª parte, cumpriu o favoritismo contra Texas, arrecadando um merecido título na Big 12, inédito no historial da equipa. Tem sido um percurso interessante na equipa, desde que Art Briles chegou ao comando técnico, 6 anos atrás. Crescendo de forma sustentada, mantendo um ataque demolidor como imagem de marca, a equipa chegou a namorar com uma potencial ida à final da BCS, mas a derrota contra Oklahoma State deitou as aspirações por terra. A recompensa, no entanto, foi recebida agora. Com Bryce Petty, Glasco Martin, Lache Seastrunk, Antwan Goodley e Levi Norwood, a equipa proporcionou alguns dos mais empolgantes jogos da temporada. Com o triunfo na conferência, chega igualmente o prémio maior: uma BCS Bowl, contra UCF, na apetecível Fiesta Bowl.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.