Foi Porreira a Festa

Paulo Pereira 4 de Novembro de 2012 Diversos Comments

Foi porreira a festa, é o que me apetece dizer, chegado da viagem a Londres. Cansado, porque a metrópole inglesa é fascinante e vibrante, sugando a energia de quem a visita, mas imensamente feliz. A concretização de um sonho é riscada do caderno, onde se apontam as fantasias. Ir a um jogo da NFL? Feito. Menos uma coisa a fazer, antes do inevitável final da vida. Fiquei saciado? É uma pergunta retórica. Diria que sim. Mas isso não corresponderia totalmente à verdade. Não fiquei. Fiquei, isso sim, viciado. Ainda mais. Mal sai de Wembley, com a tradicional chuva britânica a batizar a minha passagem pelo idílico estádio, apetecia-me ver outro jogo. Ao vivo. Caramba. Eu, que geralmente não esgoto os adjectivos com facilidade, fui acometido por uma corrente de emoções. Meses a fio a planear a investida, criando cenários hipotéticos na minha sempre febril imaginação, fui esmagado pela realidade. Durante uns anos, quando comecei a ver futebol americano, tinha a sensação de que era o único, neste cantinho à beira-mar plantado, a gostar do desporto. Quando procurava comentar com algum amigo mais chegado a beleza da competição, era olhado de soslaio, como se de um maluquinho se tratasse. Felizmente, essa ideia de solidão na paixão foi ultrapassada, quando descobri uma (enorme) comunidade do facebook, onde a língua materna impera. Afinal não era só eu. Éramos muitos, unidos em torno de um ideal. Tinha, no entanto, outro dogma para ser estilhaçado. Sabia da afeição inglesa pelo futebol americano. Nascidos para essa realidade nos primórdios da década de 80, sempre se mostraram mais avançados na afeição ao jogo do que o resto da Europa. Logo, conclusão brilhante aqui do rapaz, 99% da lotação do estádio devia ser ocupada por ingleses, maioritariamente a viverem em Londres ou na sua periferia. Certo? Quão ingénuo eu era. Um rotundo NÃO corresponde à resposta.

Chegada a Londres. Aeroporto de Gatwick. Na normal confusão de recolha de bagagens e posterior passagem pelas infindáveis filas de segurança (com sacos e malas abertos e revirados, corpos semi-despidos e a tradicional apalpadela pelo corpo) dava para perceber o que seria o ambiente. Eram centenas. Vindos de toda a Europa. Línguas diferentes, mas paixão idêntica. Uma profusão de cores e símbolos a decorarem o circunspecto ambiente em terras de Sua Majestade. Não eram apenas camisolas dos Patriots. Eu até percebo a enorme falange de apoio a Brady e Cª, face aos títulos alcançados. Eram, quase em número similar, vestimentas dos Rams, com as cabeças de carneiros a decorarem camisolas, chapéus e cachecóis. Uma devoção alicerçada em feitos mais antigos, dos tempos de Kurt Warner, mostrando a maturidade do desporto na Europa. O amor pela modalidade, se recente em território luso, tem já um histórico mais profundo noutros países do velho continente. Surpreendentemente, ou talvez não, dava para compilar, num curto espaço de tempo, a forma como é vivida a competição. Com fervor, mas sem fanatismo. Com ardor, mas sem rancor. Com laços emocionais descartáveis, criados por conveniência ou simpatia momentânea. Vi por lá centenas de outras camisolas. Dolphins, Steelers, Titans, Vikings, Packers, Raiders. E até dos Jets, com o orgulho de quem a vestia pouco abalado pelos recentes desaires de Mark Sanchez e camaradas.

Os St. Louis Rams

Os St. Louis Rams

A viagem de metro, interminável até à Wembley Station, serviu para um leviano estudo de socialização. Com a língua inglesa a ser adoptada, por todos, como língua materna, ia-se descobrindo a proveniência de companheiros de carruagem. Noruegueses, mais expansivos do que a natureza geográfica faria supor, alimentando rivalidades com alemães, mais guturais nas expressões. Espanhóis e italianos, fazendo jus ao traço latino, discutindo acaloradamente os méritos de Brady e Bradford. Escoceses e irlandeses, unidos pela coroa britânica, mas devotando profundo desprezo pelo jugo imperialista, espalhafatosos nos cânticos entoados, dando um condimento extra à preparação do encontro. Depois, a descida da escadaria da estação e o primeiro impacto, com a silhueta do estádio a desenhar-se no horizonte. Até lá, o caminho era pavimentado por uma imensa massa humana, movendo-se entre as barracas de venda de equipamentos desportivos e os estabelecimentos de restauração. Não era um tailgate, mas impressionava. O caminho era decorado com figuras gigantes dos mais conhecidos jogadores, de ambos os lados. Oportunidade ideal para testar a capacidade das máquinas fotográficas, tornando aqueles metros quadrados numa romaria de poses artísticas captadas para a posteridade. Foi assim, nesse trilho febril, que se transpôs a entrada do mítico estádio. E depois…

Depois veio o melhor. As cheerleaders. A entrada apoteótica dos jogadores. As bandeiras desfraldadas. Os gritos de incentivo. O fogo-de-artifício. Todo um imaginário, tornado realidade, numa noite mágica.

As Cheerleaders

As Cheerleaders

Destaques positivos

  • O ambiente em Wembley. Comunhão desportiva plena, numa festa completa celebrada com pompa e circunstância pelos fãs. Rivalidade? O que é isso? É assim que se deve viver o desporto, em qualquer modalidade. Com respeito. Sem fundamentalismos. Uma lição a reter…
  • É sempre um dos momentos altos nos desportos americanos. O hino, cantado a solo, é um espectáculo de arrepiante beleza. Magnífico. Tocante.
  • Rob Gronkowski é um monstro. Tremenda exibição de um jogador que assume um papel de relevo no ataque dos Patriots. A sua prestação ofensiva merece ser cumulada de elogios, com vários momentos de grande qualidade, mas o seu trabalho na linha ofensiva não pode ser esquecido. Impressionante como bloqueador para a corrida, constituiu sempre um pesadelo para os seus adversários. Valeu cada libra do bilhete.
Um momento do jogo

Um momento do jogo

  • Sebastian Vollmer. Sempre nutri simpatia pelo seu meritório trabalho, verdadeiro polivalente na linha ofensiva dos Patriots. Trabalhador incansável, faz da solidez uma das suas principais características. Europeu, mostra a cada jogo que é possível outros nomes, do velho continente, sonharem em chegar ao mundo profissional americano.
  • Tom Brady. Frio, metódico e cirúrgico, parece sempre algo franzino e pouco atlético, quando comparado com os seus pares. Mas a sua precisão, bem como o conhecimento profundo das armas que o ataque possui, transformam-no numa verdadeira máquina predadora, felino e mortífero a aproveitar as lacunas no opositor. Tem uma enorme legião de adeptos e percebe-se bem o porquê da idolatria. Não é apenas pela bela Giselle.
  • As escolhas de Bill Bellichick no draft dão um bom case study. Aliás, existe um livro, o The War Room, que retrata fielmente o processo de escolha do veterano treinador, quando se aproxima essa data importante. Em Londres, dentro de campo, Dont’a Hightower, Chandler Jones e Alfonso Dennard mostraram o acerto do velho mestre. Jones é um monstro, naquele front seven dos Patriots, imprimindo uma dinâmica que era inexistente. Dennard, um jogador utilizado de forma fugaz, continua a aproveitar os parcos momentos concedidos para brilhar. Dont’a Hightower é um dos destaques da defesa, tendo sido um Bully para Sam Bradford, que sofreu um tackle tremendo do defesa.
  • Poucos se salvaram no naufrágio colectivo dos Rams. O empolgante lance inicial, com Sam Bradford para Chris Givens, foi um feito aleatório. No resto da partida, Janoris Jenkins foi abusado por Brandon Lloyd. A linha ofensiva foi porosa (à excepção de Harvey Dahl), nunca criando condições para implementar o jogo corrido ou aéreo. A defesa foi pouco pressionante, presa fácil da agressiva OL dos Patriots. Chris Long foi uma sombra do jogador exuberante, cujo pass rush é temido. Mas Greg Zuerlein mostrou o porquê de ser um dos kickers mais excitantes. Não o fez no jogo, por culpas da própria equipa, que não criou lances de ataque. Mas foi impressionante acompanhar o seu aquecimento. Começou nas 40 jardas. Remate fácil e preciso. Mudou depois para as 45. A mesma força e colocação, numa simplicidade desarmante. Testou as 50 jardas. Muitos, nas bancadas, deliciavam-se com aquele momento. A bola voou, graciosa, aterrando muito para lá dos postes. Bateram-se palmas. Concentrado, Zuerlein resolveu mimosear os adeptos. 55 jardas. O impacto da perna, casando-se por meros instantes, com o couro da bola, merece ser cantado por poetas. Um disparo violento, com a bola a ser um mero joguete da vontade do kicker. Legatron vai ser uma lenda…
Punt return dos Rams

Punt return dos Rams

Destaques negativos

  • O típico e tradicional clima britânico. Um frio de rachar, aliado a uma chuva fria e incomodativa, penalizando quem, vindo de outras paragens, está menos protegido aos elementos da natureza.
  • A frustrante constatação de um português, da classe média, ao ver que os seus euros acabam de ser goleados pelas libras. Os preços, proibitivos para a maioria dos bolsos lusitanos, mostram bem o quanto estamos no fundo da cadeia alimentar do capitalismo.
  • Gosto de fotografia, mas sou um leigo em termos técnicos. Limito-me a tentar captar momentos que quero fazer perdurar no tempo. Este jogo ensinou-me uma lição. Fotos com qualidade e definição não se conseguem com máquinas medianas. Foi, nesse capítulo, uma oportunidade única de conseguir instantâneos fantásticos.

Facto engraçado do dia

Eles destoavam, naquela profusão de equipamentos desportivos nas bancadas. Um casal inglês, na faixa etária dos 25-30 anos, vestidos de forma demasiado sofisticada para um evento desportivo. Ele, sapatos pretos envernizados e sobretudo de qualidade, mostrava a ligação ao jogo envergando um cachecol comemorativo da partida, por cima da gravata de seda. Ela, linda, com o cabelo louro comprido a emoldurar um rosto ruborizado pela agressiva temperatura, ostentava uma vestimenta elegante, à medida do corpo perfeito. Notava-se nele um entusiasmo pueril, vibrando de forma controlado com os eventos no campo. Ela, alheia ao fenómeno, procurava acompanhar as incidências da partida, multiplicando as perguntas, tentando desvendar os lances. Ele, paciente, ia explicando. Termina o primeiro período. Ela, contente por perceber algo, diz-lhe, enquanto lhe passa os dedos de forma cúmplice pelo cabelo. “É o intervalo, não é?”. Ele sorri, munido da mesma paciência com que falamos com uma criança curiosa, mas pouco atenta. “Não. É apenas o 1º período. O jogo tem 4”. Ela sustém a respiração, por breves instantes. Tenta dar um ar despreocupado à pergunta seguinte, enquanto olha de forma sub-reptícia para o relógio. “Quatro? Mas quanto tempo dura o jogo?”. Ele, já sentindo o desconforto da resposta, tenta consolá-la com um beijo rápido nos lábios, enquanto murmura a resposta, de forma hesitante. “Entre 3 a 4 horas”. O olhar dela, indefinido entre o horror e a surpresa, foi o momento hilariante para quem, de forma curiosa, assistia ao desenrolar da cena. Apeteceu-me gritar-lhe: Bem-vinda à NFL!

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.