Free Agency: As Melhores Contratações de Sempre

Paulo Pereira 2 de Março de 2015 Jogadores, NFL Comments
Brett Favre Vikings

Free Agency: As Melhores Contratações de Sempre

Está quase. Não o futebol dentro de campo, mas os destinos das franquias, que se jogam num complexo tabuleiro virtual de xadrez, cá fora. Daqui a uns dias começará a free agency, o primeiro passo para qualquer equipa se reforçar, aumentando as esperanças de que a próxima temporada seja a TAL. É agora, depois de aturado trabalho de secretaria, com dispensas sempre dolorosas, reestruturações salariais e engenharia financeira, tendente a criar espaço no salary cap, que se começam a jogar as peças. De forma cirúrgica. Existem diferentes filosofias na NFL. Há quem prefira criar competitividade via draft, enchendo o roster de talento jovem, mas inexperiente, num esforço que pode durar uns anos, até se ver o fruto dessa aposta. Outros, mais impacientes, apostam as fichas todas no mercado de jogadores livres, tentando desesperadamente encontrar a felicidade com um punhado de veteranos. Há ainda aqueles que preferem uma mistura ponderada entre a juventude e irreverência vinda do college e a maturidade e experiência que um jogador com traquejo pode dar. Desde 1993, ano em que entrou em vigor a free agency, o sentido de auto-regulação da NFL ficou ainda mais apurado. É tudo uma questão de apostas, de conhecimento de jogadores, de riscos calculados. Algumas vezes, basta um movimento para se completar o puzzle. Na história da competição já existiram equipas que foram felizes com quem escolheram na free agency.

QB Kurt Warner, Arizona Cardinals

É uma história e tanto a de Kurt, que teve um périplo único na sua vivência desportiva, passando pela NFL Europe em 1998, até encontrar o seu nicho em Saint Louis, onde fez parte do Greatest Show on Turf. Depois de se ter apresentado ao público americano, para o qual era um perfeito desconhecido, Kurt venceu um Super Bowl e esteve noutro, logo no ano seguinte, até sair em 2003, dispensado pela franquia onde tinha ganho notoriedade. Parecia que a carreira dele caminhava para o ocaso, após um ano nos Giants, até ser escolhido em 2005 pelos Cardinals. No deserto, a fénix renasceu, entrando para a história da franquia. Entre 2005 e 2009, Kurt Warner lançou 15.843 jardas e 100 touchdowns, auxiliando a equipa do deserto a atingir o seu único Super Bowl, perdido para os Steelers, provando que a contratação dos Cardinals foi instrumental.

QB Brett Favre, Minnesota Vikings

O futuro Hall of Famer, verdadeiro gunslinger, tornou-se um ícone em Green Bay, sucedendo ao mítico Bart Starr como o jogador mais idolatrado. Incapaz de perceber as marcas que o tempo deixa, Favre foi adiando a sua reforma, mesmo que os Packers já tivessem encontrado o seu substituto na figura de Aaron Rodgers. O 3 vezes MVP da competição acabou mesmo por sair do seu clube de sempre, abrindo feridas que apenas agora começam a ser saradas. Encontrou refúgio na Big Apple, durante um ano em que fez sonhar os fãs dos Jets. Depois, provando que ainda tinha algo no “tanque”, aceitou o repto dos Vikings, eternos rivais dos Packers, e embarcou o imenso lote de fãs dos purple & gold num barco chamado sonho. A temporada de 2009 foi fantástica, repleta de grandes momentos, com Favre a mostrar ter ainda um braço poderoso e capaz de fazer todos os lançamentos. A equipa acabou por vencer a NFC North, esmagando os Cowboys no divisional round dos playoffs para, depois, caírem de pé no prolongamento da NFC, em New Orleans. A aposta de risco dos Vikings, de curto-prazo, quase que levava a franquia à glória.

C Kevin Mawae, New York Jets

A história do desporto está repleta de casos destes, em que um jogador não rende num determinado clube e ambiente para, depois, já noutra latitude, produzir a um nível de excelência. Um reputado atleta, saído da fábrica de LSU, Mawae mostrou ser polivalente, capaz de ser usado no centro da OL ou como guard. O seu ano de rookie foi excelente, mostrando consistência e merecendo honras de ser escolhido para o All Rookie Team. Pese ter permanecido 4 anos em Seattle, foi após a sua saída na free agency, em 1998, que Mawae ganhou mediatismo. O jogo corrido, com a sua presença, foi instrumental na caminhada para a final da AFC, treinados pelo lendário Bill Parcells. Nos 7 anos em Nova Iorque, Kevin foi eleito para 6 Pro Bowls e escolhido para a equipa ideal da NFL em 3 ocasiões. Curtis Martin, o running back Hall of Famer bem que lhe pode agradecer as skills no apoio ao run game.

RB Priest Holmes, Kansas City Chiefs

Uma das lendárias figuras nos Chiefs não teve uma entrada fácil no mundo profissional. Depois de ter ganho algum pedigree na universidade de Texas, Priest não foi eleito no draft, mas conseguiu captar a atenção de Ozzie Newsome, o general manager dos Ravens, conseguindo fazer parte do roster final em 1997. Em 98 ultrapassou as 1000 jardas, sendo o único running back nesse ano a conseguir ter um jogo acima das 200 jardas. Em 2000, ano da 1ª vitória da franquia de Baltimore no Super Bowl, Priest foi suplantado por Jamal Lewis, tendo perdido a titularidade. No final da temporada, os Chiefs resolveram apostar nele, acabado de cair na free agency, oferecendo um contrato pouco expressivo em termos monetários. O resto da história já é conhecido. Na sua primeira época no “sea of red” foi o leading rusher da NFL, com 1555 jardas. Em 2002, mesmo perdendo por lesão 2 jogos, elevou ainda mais a marca, totalizando 21 TDs e 1615. Insaciável, Priest Holmes bateu o recorde de mais touchdowns marcados por um running back, na temporada seguinte. A marca, até então na posse de Marshall Faulk, foi estilhaçada com os seus 27 TDs. Num arco temporal de apenas dois anos (2002/03) Priest acumulou 51 TDs. Acabou a sua carreira nos Chiefs com 8483 jardas totais (6070 corridas) e impressionantes 83 TDs.

CB Deion Sanders, Dallas Cowboys

Deion é um daqueles casos de um jogador high profile a atingir a free agency. Aconteceu, para gáudio dos Cowboys, em 1995, quando o cornerback ostentava de forma orgulhosa o anel de campeão que tinha acabado de vencer, em S.Francisco, bem como a honraria dada pelo título de NFL Defensive Player of the Year. A franquia texana cativou a sua lealdade com uma tonelada de dólares (35 milhões, 13 deles de bónus de assinatura, tornando-o o mais bem pago defesa na NFL), iniciando uma profícua relação profissional de 4 anos. Na sua permanência em Dallas, Deion foi 4 vezes ao Pro Bowl, foi eleito 3 vezes para a equipa All-Pro e venceu o Super Bowl de 1995, para além de ter coleccionado 14 INTs e 7 TDs marcados, nesse período.

DE Simeon Rice, Tampa Bay Buccaneers

Rice, produto made in Illinnois, aterrou no deserto de Arizona, saído do draft, mostrando desde logo que era uma força temível e disruptiva em qualquer front 4. A sua temporada rookie valeu-lhe o honorífico título de Defensive Rookie of the Year mas o seu talento colidia sempre com a falta de competitividade demonstrada pelos Cardinals, que apenas atingiram os playoffs uma única vez, nos seus 4 anos de contrato. Livre de qualquer vínculo laboral, Rice foi resgatado pelos Bucs, em 2001, caindo no meio de um autentico viveiro de talento. A defesa de Tampa era, à data, repleta de jogadores fenomenais, como John Lynch, Derrick Brooks e Warren Sapp. Rice nunca se intimidou, no meio dos monstros, amealhando double-digit sacks nas primeiras 5 temporadas com a equipa. As suas estatísticas confirmam bem a agressividade natural para a função, deixando uma marca perene na história da franquia, com 70 sacks e 19 forced fumbles no período entre 2001 e 2006. Duas vezes Pro Bowler, uma no All-Pro Team, 2º em 2002 no prémio de Defensive Player of The Year (ganho pelo seu colega de equipa Derrick Brooks)…e um Super Bowl.

RB Curtis Martin, New York Jets

Martin, um promissor prospect na universidade de Pittsburgh, nunca conseguiu mostrar o seu imenso potencial no college, arreliado por consecutivas lesões. Mas os flashes demonstrados, em alguns períodos, fizeram os Patriots enamorarem-se dele, mesmo com algumas dúvidas em relação à durabilidade. Martin não defraudou as expectativas, tornando-se o primeiro rookie na história da franquia a correr mais de 100 jardas, no jogo inaugural. A esse seguiram-se outros, com o running back a terminar a temporada como o leading rusher na AFC, com 1487 jardas e 14 TDs, números que lhe valeram a ida ao Pro Bowl e o prémio de Offensive Rookie of the Year. Os números mantiveram-se similares, nos anos seguintes, com destaque para o seu primeiro jogo nos playoffs, em 1996, correndo 166 jardas e marcando 3 TDs contra os Steelers. Em 1998 Martin era um restricted free agente, o que significava que os Patriots poderiam sempre igualar qualquer proposta recebida na free agency e ficar com o atleta. Os Jets, onde residia o reputado Bill Parcells, ofereceram 36 milhões e deram duas picks aos Patriots, rivais de divisão, para ficarem com os direitos de Martin. E em boa hora o fizeram. Em 7 anos em Nova Iorque, o running back somou impressionantes 12.741 jardas (10.302 corridas), anotando 63 TDs. Em todas as temporadas em que permaneceu no clube (Martin acabou a carreira em 2005, devido a uma lesão no joelho), correu sempre mais de 1000 jardas em cada uma delas, tendo vencido o título de leading rusher em 2004, com 1.697 jardas.

QB Peyton Manning, Denver Broncos

Quem acreditava que, depois de 4 operações ao pescoço e uma temporada inteira perdida, Peyton Manning regressaria ao activo, num nível elevado, levante a mão. Foi uma aposta que, como quase todas, encerrava um risco imenso. O quarterback, que cimentou a sua passagem para o Hall of Fame em Indianapolis, viu-se descartado pelo clube de sempre, abrindo um precedente raramente visto. Um QB de elite disponível na free agency. Se existiam reservas quanto ao estado físico e saúde do braço elas foram dissipadas nos trabalhos da offseason. Os Broncos, numa declarada aposta de John Elway, viram ali a oportunidade de se tornarem contendores, encerrando ao mesmo tempo o capítulo Tim Tebow. Os Broncos, com uma janela de oportunidade de conquista do título pequena, não podem sentir-se defraudados pelo que obtiveram. Manning foi magnífico no seu segundo ano na franquia, obtendo recordes em jardas passadas (5477) e TDs (55), liderando um ataque prolífico e explosivo. O Super Bowl foi atingido, apenas para serem atropelados pela máquina dos Seahawks. No ano 3 Manning voltou a ser o mesmo, até a uma queda abrupta de rendimento, em finais de Novembro, que ditou um afastamento precoce dos playoffs. Mas, para a história, ficam as 14.863 jardas e os 131 TDs, números impressionantes.

QB Drew Brees, New Orleans Saints

Foi uma mera decisão de negócios aquela que os Chargers tomaram, em 2005, deixando Drew Brees atingir a free agency e apostando na first round pick de 2004, Phillip Rivers. O veterano, que recuperava duma devastadora lesão no ombro, viu-se assim disputado pelos Dolphins e Saints, então a vegetarem no fundo da NFL. A franquia de Miami estava profundamente interessada mas, segundo rezam as crónicas, um parecer do departamento médico desaconselhou Nick Saban, o head coach de então, a não contratar o quarterback. Em vez dele veio Daunte Culpepper, acabado de sair dos Vikings. É assim, neste rolar de dados, que muitas vezes se desbarata a sorte. Os Saints, dispostos a alterarem o futuro da franquia, tinham apostado numa rising star, dando o comando da equipa a um novo mas talentoso treinador. Sean Payton recebeu assim Drew Brees que, desde então, já leva 43.685 jardas e 316 TDs, tendo liderado a equipa ao seu único Super Bowl, derrotando os Colts de Peyton Manning.

S/CB Charles Woodson, Green Bay Packers

Uma lenda saída da universidade, onde venceu um título (1997) pelos Wolverines de Michigan, enquanto arrecadou um feito quase inédito, ao vencer nesse mesmo ano o Heisman Trophy (troféu que premeia o melhor jogador universitário e que raramente é dado a defesas), Woodson foi draftado pelos Raiders, emblema poderoso e cheio de fama. Em 2006, depois de algumas lesões, foi contratado pelos Packers, a única equipa a oferecer-lhe a possibilidade de continuação da carreira, pese as reservas do jogador em ir para um sítio longínquo e pouco cosmopolita. Livre de lesões, Woodson mostrou a sua faceta de ball hawker, liderando a NFL em intercepções, com 8, logo no ano da sua estreia com o equipamento dos Packers. Rapidamente se tornou um líder, dentro de campo, e um jogador fortemente amado pelo público, a quem retribuiu a afeição com inúmeras big plays. No seu tempo no clube (2006-12), foram 8,5 sacks, 22 intercepções, 44 passes defendidos e 17 forced fumbles, com uma enorme cereja no topo do bolo: o título conquistado em 2010.

DE Reggie White, Green Bay Packers

Com um percurso invulgar, que passou pela extinta USFL, onde jogou nos Memphis Showboats, White foi para Philadelphia, onde jogou a um nível estelar. Nos 7 anos na cidade, o defensive end foi a 7 Pro Bowls e foi eleito 6 vezes para o All-Pro Team, trilhando aí a sua ascensão para o Hall of Fame. Em 1993, conforme referi acima, foi criado o mercado de jogadores livres e White tornou-se emblematicamente a face dessa nova era, saindo para os Packers, onde se tornou um líder nato e figura fulcral no balneário. A equipa de Green Bay beneficiou do seu imenso traquejo e experiência, atingindo 2 Super Bowls, vencendo um deles (contra os Patriots, na única vitória de Favre no grande final). Na entusiástica cidade White tornou-se, na altura, o líder em sacks da equipa, com 68,5 e foi coroado o melhor defensor da NFL, em 1998.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.