Quando é Que a Bola Começa a Rolar?

Paulo Pereira 1 de Junho de 2015 Jogadores, NFL Comments
Tom Brady

Quando é Que a Bola Começa a Rolar?

A seguir ao Super Bowl, o pesadelo ganha forma. São 7 meses sem competição. SETE. É de enlouquecer, nos dias seguintes, com esse longo hiato a martelar constantemente a consciência. O sentimento de orfandade vai diminuindo, com o passar dos dias e o início das hostilidades na offseason. São pálidos substitutos, mas sempre nos vamos entretendo com as movimentações na free agency e a preparação do draft. O draft, evento realizado com a devida pompa, provoca sempre algum frissom, empolgando quem assiste. Mas o efeito, tipo lastro num balão de ar quente, vai-se perdendo. É a altura da silly season, das notícias requentadas, as histórias forçadas, dos lugares comuns debitados vezes sem conta. Dou por mim exasperado, lendo e relendo a mesma coisa, todos os dias. E o grito de desespero que teima em querer soltar-se. MAS ISTO NUNCA MAIS COMEÇA?

A offseason está agora na fase dos primeiros treinos, os OTAs. É o tempo dos rumores, das excitações prematuras, dos jogadores desconhecidos que, como cometas, ganham os seus segundos de fama para depois desaparecerem no anonimato. Uma e outra vez. Não há grandes motivos de interesse, para já. A actualidade anda dominada por…

1. Adrian Peterson

É uma das novelas de Verão. E, como qualquer folhetim que se preze, tem a dose calibrada de tensão, chantagem emocional, drama, heróis e vilões. O running back, figura incontornável na franquia dos Vikings, está descontente. Acobertado pelo seu agente, o inefável, inenarrável, pouco ético e odioso Ben Dogra (já perceberam que desprezo a personagem, certo?), All Day anunciou que irá faltar ao OTA (organized training activities), mantendo o braço-de-ferro com a entidade patronal. E porquê? Porque o bom do AP não gostou da postura cordata dos Vikings, quando foi castigado com mão dura pela NFL. É um ponto de vista. Aceitável? Já torço o nariz na resposta a essa questão. Os Vikings foram uma vítima no processo todo, ficando privados da sua maior estrela, com óbvia repercussão no esquema ofensivo, onde o jogo corrido tinha uma predominância tremenda. Privados dele, com um rookie como quarterback, uma equipa nova, onde o talento existente ainda carece de maturação, os purple & gold sobreviveram de forma quase exemplar ao período negro, para o qual, é importante frisar, não contribuíram. Este aparente mal-estar pode ser apenas isso. Uma reacção estudada do jogador, que tenta forçar a saída para outro emblema, radicalizando o discurso ao lançar a ideia de que até se pode retirar, se não for libertado. Os desportos americanos são um palco privilegiado, onde este tipo de interacção entre jogador e entidade patronal costuma ser usual, na procura de ganhar mais benefícios/vantagens, numa discussão contratual. Coloquemos os pontos nos is. Dificilmente AP encerrará, sem honra nem glória, a sua carreira, como avançou Jason LaCanfora. Existem 46 motivos para ele não o fazer (leia-se, 46 milhões de dólares, nos próximos 3 anos). Este forçar da situação também não terminará com a sua libertação ou troca, para outra franquia. Por vários motivos. O principal é o ordenado gigantesco – 12,75 milhões – que não encontraria espaço nos cap spaces de clubes interessados, já com o salary cap quase todo tomado. No fundo, este protesto silencioso de Adrian Peterson tem que ser reduzido à sua essência. Uma espécie de amuo infantil. Num filho nosso, seria curado com uma dose de pedagogia, ou uma profilática palmada no rabo. E o amuo passaria num ápice. Com AP, a abordagem tem que ser diferente. Longe das chibatadas com que mimoseou o próprio filho, o que se pede é pulso firme. E Zimmer aparenta tê-lo. Já o disse, numa frase marcante: “Adrian Peterson joga por nós…ou não joga”. A bola está do lado do running back. É bom que ele não cometa um fumble. Seria um desperdício de talento.

2. Cameron Newton

“And I say this with the most humility, but I don’t think nobody has ever been who I’m trying to be. Nobody has the size, nobody has the speed, nobody has the arm strength, nobody had the intangibles that I’ve had. I’m not saying that to say I’m a one-on-one type of person that this league will never see another. No, I’m not saying that. Hear me out. I’m just saying that so much of my talents have not been seen in one person.”

Em Portugal, temos um ditado que sintetiza a declaração acima transcrita. É o “quem fala assim, não é gago”. Cameron Newton, percebe-se, tem um ego. Não um pequenino. O dele vem embrulhado num tamanho XXL. É sobredimensionado. Falta humildade ao quarterback dos Panthers? Alguns lerão na sua afirmação uma prova evidente de arrogância. Ou de complexo divino. Mas é apenas uma afirmação, habitual dentro do show bizz, tendente a marcar posição, a fortalecer a própria identidade e a mostrar uma confiança ilimitada na sua capacidade. E isso é aceitável, no contexto em que foi proferida. Um quarterback, posição unanimemente considerada a mais emblemática e difícil no futebol americano, é uma super-estrela, um jogador que, em nenhuma circunstância pode titubear, fraquejar ou dar provas de desfalecimento desportivo. Em suma, o que se pede a um jogador destes é simples. Tem que ser um Deus. Cerebral, intenso, capaz de resistir a 2, 3 ou 4 intercepções num período, mantendo a frieza emocional, o desapego afectivo que lhe permite, depois, conduzir a drive final, que vencerá o jogo. Cameron Newton – e os seus pares – têm que ser um jogador que levita num degrau acima dos restantes, omnipresente em todos os aspectos do jogo, confiança envolvida numa couraça de aço. E viver assim, no dia-a-dia, representa sempre um equilíbrio precário entre aquilo que se é e aquilo que se tenta ser. Perdoem-lhe a imodéstia.

3. Tom Brady

Desaparecido em combate? Ou entretido a esvaziar bolas? (pumba, não resisti à graçola fácil).

O que é certo é que o relatório do “deflategate” já foi publicado, já tem 3 semanas, Robert Kraft já protagonizou o guião esperado (barafustou em privado, depois em público, manifestou a total confiança no seu jogador e depois aceitou placidamente o castigo dado á equipa), os fãs patriotas já realizaram manifestações…mas de Tom Brady nada. Nem um comentário lacónico. Algo assim do género “eu não fiz nada disso e estou a ser vítima de uma cabala” ou o uso de um alibi, tipo “no momento em que as bolas foram esvaziadas, eu estava a dar uma na Giselle”. Nada. Nem um contraditório. Uma reivindicação de respeito. Um assomo indignado. Um puxar de galões, relembrando os 4 títulos ganhos. O mutismo é uma estratégia? Uma assunção de culpa? Cada um retirará dele a sua ilação. Mas, fazendo fé em Patricia Shong e no seu obituário, a conclusão é óbvia. BRADY É INOCENTE. Retirado do Auburn Mass Daily:
“Patricia enjoyed scrapbooking, cross stitching, pixel art, knitting, and crocheting. She relished weekly card night with the ladies. Patricia was known for being an avid reader which all who knew her can attest to based on her mini home library. She especially loved spending time with her family. She would also like us to set the record straight for her: Brady is innocent!!”

4. Ray McDonald – Um Mau Exemplo

A NFL despertou tarde para o problema – ou crime, como lhe queiram chamar – da violência doméstica. Mas, se há algo de positivo que se pode retirar do caso Ray Rice e da obscenidade da sua agressão, é que, finalmente, a sociedade reagiu…e a NFL alterou a sua política (basicamente, deixou de assobiar para o alto, enquando as esposas/namoradas sofriam abusos às mãos de ídolos com pés de barro) e dedicou uma unidade inteira para a questão. Num produto avidamente consumido por milhões, é importante passar a mensagem que ninguém está acima da lei e que as exibições dentro de campo não validam comportamentos, fora dele. Greg Hardy tornou-se o rosto dessa nova rectidão moral, punido exemplarmente, numa espécie de ano zero em que as práticas antigas, que eram toleradas, serão agora severamente castigadas. Pensei, se calhar ingenuamente, que isso serviria para acalmar os ânimos de gente mal formada. Enganei-me. Redondamente. A contratação de Ray McDonald pelos Bears não foi bem aceite, em diversos quadrantes. Compreensivelmente. O jogador, acusado de violência doméstica nos seus tempos em S.Francisco, mudava-se de armas e bagagens para Chicago, merecendo uma segunda oportunidade, uma redenção, que muitos consideraram injustiça face à ausência de castigo anterior. Mas McDonald, quiçá achando que quem se safou uma vez, consegue repetir a proeza, prevaricou. Podia ter optado por um low profile, mantendo uma postura consentânea com o seu estatuto de atleta de elite. Podia, no fundo e resumindo a questão, ter aprendido a lição. Mas não. Voltou ao mesmo, dando mostras de uma personalidade conflituosa, incapaz de lidar com as exigências de uma sociedade moderna. Novamente acusado de violência sobre uma mulher, foi sumariamente despachado pelos Bears. É apenas mais um capítulo, triste, na vida de atletas que se mostram impreparados para o mais básico sentimento numa relação: respeito. Ray McDonald provou não ter aprendido nada com o passado. E os executivos dos clubes? Aprenderam alguma coisa com esta contratação falhada?

5. Randy Moss – Um Bom Exemplo

Felizmente, por cada escândalo que arruína, mesmo que momentaneamente, a imagem da liga, existe um exemplo contrário. É uma dicotomia, a versão mundana da eterna luta entre o Bem e o Mal. O Bem, neste caso, é personificado por um dos grandes nomes do futebol moderno. Randy Moss, excelso dentro de campo, tornando-se um dos melhores receivers de sempre, mostrou, numa lição amplamente difundida na imprensa, qual deve ser a postura de um atleta profissional, fora de campo. Quando era rookie, nos tempos em que envergou a fabulosa, mítica, excepcional, grandiosa (e podia continuar, noite dentro, a escrever elogios sobre a melhor equipa da NFL) jersey dos Vikings, conheceu num treino aberto ao público uma miúda. Fã. Vestida com as cores da franquia, num daquelas imagens que provocam “pelo de galinha”. Uma criança, de 4 anos, sorrindo graciosamente, enquanto brinca com o seu atleta predilecto. A miúda, Kassi Spier, cresceu. E esses crescimento, sobretudo nos momentos maus, foi sempre acompanhado por Moss. Ele esteve lá, 2 anos depois, em 2000, quando lhe diagnosticaram leucemia. Estreitando laços, mostrando que a amizade pura pode surgir, em qualquer lado. Manteve-se presente na vida dela, mitigando a dor de perder um pai (desastre de carro, em 2004), tornando-se uma referência na vida dela. Como em 2013, novamente presente, quando foi diagnosticado a Spier um tumor no cérebro. Por isso, não foi de estranhar que, numa vida repleta de vicissitudes, Moss tenha comparecido num dos momentos – raros – de alegria. Na sua cerimónia de graduação, no final do high school, adivinham facilmente quem apareceu, não adivinham? Isto sim, é um TOUCHDOWN fora de campo. Well done, Mr. Moss.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.