Baltimore Ravens: A Temporada à Lupa

Paulo Pereira 18 de Março de 2014 Análises, NFL Comments
Baltimore Ravens

Baltimore Ravens: A Temporada à Lupa

Maior Surpresa

O colapso na parte final da temporada. Os campeões em título do Super Bowl claudicaram, quando tudo estava por decidir. As esperanças em nova corrida nos playoffs estavam intactas, quando faltavam apenas duas jornadas para o final da regular season. Mas os Baltimore Ravens não foram apenas impotentes para obterem a vitória. Foram estraçalhados, em ambos os jogos, perdendo por um total de 75-24, colocando um ponto final na série de 5 anos consecutivos a irem à postseason.

Maior Desapontamento

Podia ser o falhanço no acesso aos playoffs, apenas um ano depois da franquia ter conquistador o 2º título na sua história. Para isso existiram vários factores, desde a debandada de vários jogadores importantes, na free agency, até ao sub-rendimento de outros. E é precisamente aí que reside o maior desapontamento da temporada. O running game praticamente não existiu, terminando a regular season num impensável 30º lugar. Para perceber bem o grau de insatisfação, basta anunciar que os Ravens, com John Harbaugh aos comandos, ficaram sempre na metade superior da tabela, nesse quesito. Os Ravens ganharam apenas 1328 jardas no solo, o pior resultado nos 18 anos de existência da franquia. Ray Rice nunca foi um factor preponderante, sem chama, capacidade de explosão e velocidade. O seu backup, Bernard Pierce, não capitalizou os snaps que teve, parecendo sempre impaciente na procura da rota.

Maior Necessidade

Offensive line. Isto está tudo interligado e nada acontece – ou deixa de acontecer – por acaso. O jogo corrido foi mau, é um facto, mas tal não ficou a dever-se apenas ao mau momento dos running backs. A linha ofensiva nunca forneceu apoio suficiente, com o jogo terrestre a conseguir a pior média da liga, com 3,1 jardas por corrida. A juntar a isso, Joe Flacco foi um saco de pancada, sofrendo 48 sacks, o 2º maior número da liga, atrás apenas dos Dolphins. Ou seja, resumindo, a OL nunca criou rotas consistentes para o jogo corrido, e foi incapaz de proteger o seu bem mais precioso, no jogo aéreo. John Harbaugh manifestou, publicamente, a necessidade de efectuar alterações na unidade. Do quinteto titular, apenas Marshal Yanda (right guard) tem o seu posto garantido, em 2014. De resto, muito trabalho a efectuar. Michael Oher saiu para os Titans, com os esforços da equipa a concentrarem-se na renovação com o left tackle Eugene Monroe. Obtido sucesso com Monroe, os Ravens ainda têm mais situações prementes: a substituição do center Gino Gradkowski e a posição de left guard, com Kelechi Osemele a contas com uma recuperação, após lesão nas costas.

MVP

Decisão no-brainer. Tucker marcou 38 field goals (máximo na liga) e 140 pontos totais, tendo merecido a ida ao seu primeiro Pro Bowl. Tucker conseguiu ainda uma série espantosa de 33 field goals consecutivos, a 4ª maior na história da NFL. A juntar a isso, o kicker foi sereno e cirúrgico, conseguindo 3 game-winning kicks, incluindo um de 61 jardas em Detroit. O outro único jogador do roster que poderia ser equacionado para o título honorífico de MVP, era o inside linebacker Daryl Smith, que liderou a equipa em tackles (123) e terminou a época com 5 sacks, 19 passes defendidos, 3 intercepções e 2 fumbles forçados.

Posição a Posição

Quarterbacks

Do céu ao inferno, eis o percurso de Flacco. Clutch na caminhada rumo ao Super Bowl, conseguindo com isso um contrato milionário, ao nível da elite na posição, até uma temporada atípica, com 22 intercepções (máximo na história da franquia), foi um instante. Flacco não contou com a ajuda do running game, o que o obrigou a sistemáticos lançamentos forçados, que contribuíram para o deprimente panorama geral. Isso não poderá, no entanto, servir de desculpa, pois Flacco esteve sempre longe do jogador brilhante que liderou os Ravens nos playoffs de 2012. O quarterback terminou a temporada com um rating de 73, que lhe valeu o 32º lugar na NFL.

Running Backs

A pior unidade do roster, nunca conseguindo implementar o precioso jogo corrido. Ray Rice e Bernard Pierce terminaram nos últimos lugares da classificação geral dos RBs, em termos de jardas médias corridas. Rice terminou a época com 3.1 jardas, o 3º pior registo nos running backs titulares na NFL. Pierce fez ainda pior, com 2.9 jardas de média, a pior na NFL, a par de Willis McGahee. Aguarda-se com curiosidade o que os Ravens farão, na offseason, para evoluírem na posição.

Wide Receivers

Marlon Brown foi a surpresa da temporada, conseguindo aparecer no training camp e, daí, fazer o percurso até ao roster final. Combativo, o rookie teve excelentes momentos na temporada, terminando com 7 touchdowns. Torrey Smith teve, em números finais, uma temporada excelente, mas foi mantido abaixo das 75 jardas em 7 dos últimos 8 jogos. Jacoby Jones, que foi electrizante na caminhada rumo ao Super Bowl, não capitalizou o bom momento, nunca se evidenciando como o receiver nº 2 da equipa.

Tight Ends

A lesão de Dennis Pitta, que o afastou da acção nos 12 primeiros jogos, constituiu um golpe tremendo na equipa, que perdeu a sua ameaça mais válida na red zone e um dos alvos em que Flacco mais confiava. Dallas Clark, outrora um grande nome na posição, foi a escolha desesperada para substituir Pitta. O peso da idade afectou o rendimento do veterano, que nunca conseguiu ser crucial no ataque. Ed Dickson parece um caso perdido, com dificuldades evidentes nas recepções.

Linha Ofensiva

A pior unidade na franquia, que comprometeu o esforço colectivo. Michael Oher, tornado famoso pelo filme protagonizado por Sandra Bullock, tem regredido em termos exibicionais. Geno Gradkowski, center, é um erro de casting a este nível. Kelechi Osemele lesionou-se, levando à titularidade de A.Q.Shipley, que apesar de ser esforçado é limitado nas acções. Mesmo Marshal Yanda, right guard e um dos mais reputados offensive linemen da NFL, não jogou ao seu nível, afectado pela convalescença a uma lesão – e operação – ao ombro. Bryant McKinnie foi destronado, na posição de left tackle, após a chegada de Eugene Monroe, claramente um upgrade na posição.

Linha Defensiva

Haloti Ngata demorou a acostumar-se à posição de nose tackle mas, quando o fez, mostrou a excelência do seu jogo. Art Jones teve o que se designa por breakout season, liderando o grupo de linemen em tackles (53) e sacks (4). A única decepção na unidade foi o minimal impacto de Chris Canty, neste seu primeiro ano com os Ravens.

Linebackers

Daryl Smith pode não ter os dotes vocais de Ray Lewis, nem a sua capacidade de motivar os colegas em redor, mas jogou a um nível bem superior ao de Lewis, em 2012. O resto da unidade viveu altos e baixos, tanto efectuando bons jogos como, no seguinte, desaparecendo de acção. Foi o caso de Elvis Dumervil, bastante irregular exibicionalmente e Terrell Suggs. Este teve uma primeira metade da temporada excelente, roçando um nível elevado, mas desapareceu totalmente na segunda metade. Jameel McClain e Josh Bynes foram regulares, no outro spot de inside linebacker.

Secundária

Mais uma unidade que pareceu uma montanha-russa exibicional. Jimmy Smith teve a melhor temporada como profissional, enquanto Lardarius Webb teve um up-and-down constante. Isto no posto de cornerbacks. Mas, se mudarmos para safeties, a história é similar. James Ihedigbo foi excelente, enquanto Matt Elam foi irregular. No cômputo geral, a permissividade para big plays aos adversários, prejudicou a avaliação final da unidade. Poucas intercepções (o líder do grupo foi o nickel corner Corey Graham, com 4) e demasiadas jogadas longas (17 jogadas, de mais de 40 jardas), evidenciando problemas na coverage.

Special Team

Justin Tucker parecia um autómato, frio e cirúrgico, chutando e voltando a chutar. Foram 38 field goals em 41, numa percentagem de acerto de 92,6%. Jacoby Jones ajudou à festa nos retornos, com uma média final de 28,8 nos kickoffs (4º na NFL) e 12,5 nos punts (5º na NFL). Apenas Sam Koch destoou, numa temporada mediana, como punter.

Coaching

Uma chuva de críticas apanhou quase toda a gente no staff técnico, apenas com John Harbaugh a escapar, quase incólume. O head coach, com trabalho meritório nos 6 anos que leva na franquia, mostrou mesmo assim um lado hesitante e confuso, com curiosas decisões em momentos cruciais dos jogos. Em Miami, por exemplo, optou por jogadas de passe, quando a equipa vencia e o cronómetro mostrava pouco tempo de jogo. Em New England, por sua vez, optou por um field goal…quando os Ravens perdiam por três scores. Jim Caldwell foi, muitas vezes, crucificado pelo play calling conservador, no ataque, enquanto Dean Pees, na defesa, foi censurado pela ausência de agressividade e blitzes, no final da temporada.

Inspirado no original de Jamison Hensley | ESPN.com

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.