NFL Touchdowns & Turnovers: Week 3

Paulo Pereira 23 de Setembro de 2014 Análises, NFL Comments
Devin Hester

NFL Touchdowns & Turnovers: Week 3

Terceira jornada completa e num novo mundo de histórias para contar. Não aquelas habituais, que exaltam jogadores e estatísticas, mas as outras, as que passm despercebidas ou cujo tempo de antena é menor. Aqui, debruçamo-nos sobre o menos óbvio, mas mantemos a atenção focalizada em tudo. Que grande conjunto de jogos assistimos no fim-de-semana. Era o que a NFL precisava, depois de uma semana antecedente horribilis, com demasiados casos off-the-field a retirarem o foco da atenção. Esse, sempre, deve estar lá dentro, junto do espectáculo.

Touchdowns

1- Semana Negra na NFL? Not so Fast

Na voragem mediática que assolou a competição profissional de futebol americano, com o caso Ray Rice e Adrian Peterson  a competir por atenção, tudo o resto ficou num limbo. Os dedos da opinião pública foram lestos a apontarem falhas e a diabolizarem uma competição desportiva. Que é isso, na sua génese, que a NFL é. Com falhas, erros e um sistema que, mesmo imperfeito, se mantém a anos luz de outras competições. Mas isso é outra história. A denominada semana negra da NFL não culminou com o mea culpa de Goodell, que apareceu com ar contrito numa conferência de imprensa. Muito mais será escalpelizado. Importa é, sobretudo, manter as coisas na sua devida perspectiva. Por cada acto penalizador de um jogador da NFL, somo capazes de ter o inverso. Um gesto benemérito. Uma prova de caridade. Uma situação altruísta. Devon Still foi um defensive tackle renomado, em Penn State, o que lhe permitiu entrar na NFL pela porta grande, quando os Bengals o escolheram no 2º round do draft de 2012. Still, no entanto, nunca conseguiu jogar de acordo com as elevadas expectativas nele depositadas. E a franquia de Cinccinati resolveu seguir em frente, após o training camp deste ano, dispensando Still. Podia ser o fim. O término do sonho de se manter na competição tinha, nesta situação particular, um significado bem maior do que a realização profissional. Still tem uma filha, de 4 anos, gravemente doente, com cancro. A perda do contrato não representava apenas uma machadada no ego. Tinha um forte impacto negativo na continuação dos tratamentos médicos dispendiosos, com valores aproximados de um milhão de dólares. Os Bengals, mesmo não tendo lugar no roster para Still, não deixaram o jogador viver o drama pessoal sozinho. Estenderam-lhe a mão, convidando-o para a practice squad. Desde logo, com um objectivo: o seguro médico que cobre qualquer jogador dos Bengals (incluindo os elementos da practice squad) e o seu agregado familiar. Depois, permitindo-lhe um salário mínimo de 100 mil dólares. É pouco? Sim, não só para os padrões futebolísticos mas, sobretudo, para quem nesta fase conta os tostões, preocupado em oferecer os melhores cuidados de saúde. Por isso, de forma maturada, a decisão dos Bengals evoluiu. Não como uma dádiva, mas no gesto de um abraço virtual de camaradagem, palavra sacrossanta na irmandade do futebol americano. Still foi novamente transferido para o roster principal. E o salário aumentado, dos 100 mil para 405 mil USD. Pequenos gestos que marcam a diferença. Mas que, infelizmente, não ocupam tempo de antena nos media…

2- O Homem Supersónico

Sabia-se que era uma mera questão de tempo. Mas o passar dos dias, transformados em semanas e, depois, em meses, aumentou o nível de ansiedade. E criou desconfiança. Teria Devin Hester ainda algum gás dentro do seu corpo? Seria ele ainda o retornador de elite que encantou na gélida Chicago? Hester, que não se tendo acomodado, vivia relegado para um mero papel de lenda dos Bears, com aparições esporádicas no campo de jogo, aproveitou o convite dos Falcons. Viu nele não só a possibilidade de continuar a sua carreira mas, acima de tudo, uma tábua de salvação contra aquilo que um atleta profissional mais teme: a estagnação. Atlanta permitiu-lhe o reavivar de sensações há muito esquecidas. Antes de ser retornador, com um papel confinado ao special team, Hester era um receiver. Exuberante na velocidade, entusiasmante na técnica, empolgante no modo furtivo como se esquivava aos adversários. A pré-temporada permitiu ver um novo Hester. Um jogador mais participativo no ataque, usado de forma inteligente, potencialmente um desequilibrador nato, capaz de fustigar as defesas. O 3º Thursday Night Football permitiu, a quem o visualizou, apreciar a queda de um recorde, um pedacinho de história escrito de forma indelével. Hester, até então, tinha sido importante no desmantelar dos Buccaneers, marcando um TD numa jogada corrida, num jet sweep bem desenhado, aproveitando as suas características físicas. Mas o momento alto estava guardado para depois. Um punt do adversário e a bola a cair nas mãos de Hester. E este, como nas 19 vezes anteriores a esta, retornou-a para um touchdown, celebrado efusivamente no estádio. Fê-lo como sempre. Furtando-se a tackles, esquivando-se a opositores, quando parecia impossível consegui-lo em tão curto espaço de terreno, para depois acelerar, quando o espaço livre apareceu à sua frente. Hester ganhou o seu local próprio na história, que o vitoriará como o melhor returner de sempre. O Hall of Fame espera-o, num futuro não muito longínquo.

3- Bem-Vindo à NFL, Miúdo!

Os Eagles de Chip Kelly são um espectáculo à parte. Uma equipa empolgante, que dá prazer ver jogar. O ataque, com a introdução dos conceitos que Kelly importou dos seus tempos no College, é o mais parecido com um grupo de miúdos que padecem de hiperactividade. Ataque veloz, ritmado, com constantes corpos em movimento e pouco tempo entre as jogadas. A equipa torna-se a primeira na história a vencer as 3 primeiras partidas, depois de ter estado a perder, em todas, por 10 ou mais pontos. No embate divisional contra os Redskins, sempre caliente e com várias brawls a animar a multidão, um nome se destacou, pela acção positiva dentro de campo. Kelly mostrou, desde cedo, que não lhe importam os nomes, mas sim os conceitos, provando o mesmo quando despachou DeSean Jackson para outras paragens. Nick Foles continuou a ter alvos. Jeremy Maclin. Riley Cooper, menos exuberante do que em 2013. Darren Sproles, vindos dos Saints. Zach Ertz, tight end com uma curva de crescimento apreciável. E, depois de Domingo, outro nome se juntou a estes, fazendo a delícia futura dos amantes das fantasies leagues. Jordan Matthews, estrela no College quando jogava na SEC, cimentou o seu valor aproveitando o meritório trabalho de James Franklin à frente dos Commodores de Vanderbilt. Pouco preocupado com as dores de crescimento e com os períodos de adaptação à realidade profissional, Matthews explodiu contra a franquia de Washington, marcando 2 touchdowns e constituindo um quebra-cabeças insolúvel. Draftado este ano propositadamente para jogar no slot, Matthews não é um jogador unidimensional, nem a sua acção se restringe a essa posição específica no ataque. No College era usado amiúde no outsider, explorado como deep threat, pela sua velocidade e capacidade de correr rotas perfeitas. Agora, nas mãos de Chip Kelly, só podemos esperar um refinamento do produto. E a máquina de ataque dos Eagles congratula-se com a sua nova arma.

4-  A Minha Trick Play é Melhor do Que a Tua

Se há algo que merece ser visto e revisto são as trick plays. As jogadas, que encerram geralmente doses generosas de criatividade, mostram o trabalho engenhoso dos coordenadores, que perdem horas a fio a engendrar estratagemas para surpreender as defesas contrárias. Quais generais debruçados sobre um plano de batalha, é vê-los com esquemas rabiscados em folhas de papel, procurando encontrar a quantidade certa de engenho e arte para vencer. A week 3 deu-nos alguns deliciosos exemplos:
1 – Mohamed Sanu, wide receiver, lançou quatro passes na sua carreira na NFL. Tem um rating perfeito, não falhando nenhum. Pela segunda semana consecutiva, o ataque dos Bengals capitalizou a atenção da DL, confusa em identificar se a jogada seria corrida ou de passe, para usar novo truque no backfield. A bola, trocada de mãos com celeridade, acabou em Sanu, que passou para…Andy Dalton, que a apanhou junto à linha lateral, num belo gesto técnico e marcou um TD. Curioso ver o homem que passa para touchdowns no papel de recebê-los. Tem estilo!
2 – O mesmo gesto técnico foi, mais tarde, copiado por Russell Wilson, o prodigioso QB dos Seahawks. Habituado a passar, foi colocado na posição de receiver momentaneamente, saindo-se a contendo e ganhando preciosas jardas, numa estratégia de simulação que valeu a pena;
3 – A jogada mais criativa da tarde, no entanto, não contou, anulada por uma obscura regra do livro de leis da NFL. Aconteceu nos Browns contra os Ravens e envolveu Johnny Football. Com toda a gente no centro do terreno, junto ao scrimmage, ninguém deu pela presença do backup quarterback, parado de costas para o jogo junto à linha lateral, simulando uma conversa com o seu coordenador. A jogada, quando se desenvolveu, mostrou Brian Hoyer a lançar para uma zona aparentemente de ninguém. E Manziel, que parecia alheado do jogo, numa peça orquestrada digna num filme, saiu a correr e apanhou a bola. Não contou, como disse, mas revelou a inteligência de quem, na sideline, permanece na sombra a analisar os jogos.

5- Run, Baby, Run

Se existe jogada que empolga, que faz o coração do torcedor saltar, como um cavalo endiabrado em plena competição, é um retorno de um punt ou kick para touchdown. Naqueles segundos em que um homem sozinho, parecendo frágil no imenso relvado, enfrenta um punhado de agressivos defensores, o tempo como que estagna, cristalizando as acções individuais. Nas bancadas, o empenho do returner é saudado com berros que desafiam as leis do ruído, rostos transformados em máscaras expressivas de pura paixão, em que cada grito parece guiar o jogador por um labirinto de corpos e massa muscular. Determinante, pelo momentum, Chris Polk teve direito a um desses momentos. Os Redskins tinham acabado de marcar o TD inaugural da partida. Na resposta ao kickoff, o running back cavalgou de forma insana 102 jardas. Todas elas feitas no limite do suportado pelo corpo humano. Músculos esticados, tendões na fronteira máxima permitida pela elasticidade. E o corpo, qual bailarino em prime-time, escapulindo-se ao contacto físico, com o único foco naquela linha, lá longe no horizonte. A end zone adversária. Momento de transcendente beleza, imortalizado nas imagens, é um dos momentos da jornada.

6- Like Joe Montana

Tony Dungy, artifice do Super Bowl dos Colts, não usou meios-termos. Comparou Russell Wilson a Joe Montana, despertando a ira dos puristas de ocasião. É cedo para colar à epiderme do fenómeno dos Seahawks um rótulo desses? Sim, talvez seja. Mas a capacidade quase sobrenatural de Wilson merece destaque. A forma como se movimenta em campo, parecendo controlar o tempo e o espaço, antes de ferir com a sua estocada, tornam-no especial. Wilson foi magistral, na drive dos Seahawks no prolongamento, usando o passe e correndo, mostrando a qualidade que possui. Não é um quarterback de grandes números, nas estatísticas, jogando mais em prol da equipa, mas é um daqueles atletas que soube ganhar, pela personalidade e qualidade técnica, o seu próprio lugar. Na sua edição semanal do “Monday Morning Quarterback”, Peter King colocou uma comparação que mostra bem o quão underrated é Wilson,quando comparado com os grandes nomes actuais na posição. Wilson já jogou contra Manning, Rodgers, Brady e Brees 7 vezes. Nesses 7 jogos:
7 vitórias, 0 derrotas, com uma percentagem de 64,5% de passes acertados, 1491 jardas conseguidas, 14 touchdowns e apenas uma intercepção (neste fim-de-semana, num passe deflectido), para um rating de 113. Wilson pode não ser Montana (ainda), mas é enorme em tudo o que faz.

7- Any Given Sunday, Parte II

Não me canso de enaltecer a competitividade da NFL, que torna cada jornada, cada encontro e cada adversário como uma verdadeira incógnita. Na week 3 os Bills e os Texans, ainda invictos, caíram às mãos de adversários com um número menor na coluna das vitórias. Os Vikings, mesmo sem a sua principal estrela, lutaram até ao limite das forças perante uma forte armada dos Saints, que coleccionaram apenas o primeiro triunfo. Os Raiders, jocosamente retratados em piadas sem fim, silenciaram Boston e ameaçaram os todo-poderosos Patriots, desenrolando uma dramática drive final que quase culminava num empate. É isto que atrai o público ávido de emoções fortes, permanentemente agarrado ao desenrolar dos jogos, sem perder pitada, sob pena de desperdiçar uma eventual jogada que mude o rumo dos acontecimentos. Existe, sempre, uma fé inabalável, mesmo quando o adversário foge no marcador com uma diferença que parece inultrapassável. Os Rams venciam, com o seu third stringer QB, por 21 pontos os Cowboys. E perderam. Jogando em casa. Os Browns, com uma imensa legião sofrida de adeptos, soçobrou apenas no último segundo. Outra vez, como contra os Steelers, mas mostrando uma resiliência que é já a imagem de marca de Pettine na equipa. E tantos outros exemplos que podem ser aqui adicionados. Yeah, right, dirão os adeptos dos Jaguars, rolando os olhos em sinal de clara exasperação. Sim, até mesmo os Jaguars. Ou os Buccaneers, que eu, embuído de coragem, apontei como equipa da revelação da temporada (shame on me) e putativos vencedores da divisão. Os Jaguars estão numa fase de regressão. Clara. Frente aos Colts conseguiram um 1st down na primeira parte. Um mísero first down. 28 jardas no ataque. São tempos difíceis para qualquer fã em Jacksonville. Mas há motivos de real esperança. Chama-se Blake Bortles e, não sendo a next big thing, é em redor dele que Gus Bradley criará o núcleo do que se pretende seja uma equipa competitiva. Contra os Colts, Bortles teve disparates normais de quem entra no jogo a frio. A pick-6 fala por si, mas os lançamentos precisos e os dois passes para TD mostram que a etapa evolutiva do jogador permitirá uma ascensão dos Jaguars, no curto/médio prazo. Em Jacksonville e em Tampa, cidades banhadas pelo sol, o bom futebol e as vitórias aparecerão. Mais cedo do que se espera.

Turnovers

1- O Cúmulo do Azar… Ou a Ironia do Destino?

Aaron Rodgers tem o título oficioso de quarterback mais cool da NFL. A forma como se movimenta em campo, parecendo planar sobre o relvado, driblando defesas com o olhar e com suaves movimentos corporais, tornam-no alvo de admiração. Mas, também, colocam-lhe um alvo em cima da cabeça. A vida dum defensor, especialmente daqueles que fazem parte da defensive line, é algo primitiva. Quase como se recuássemos no tempo, para o velho oeste, com os pistoleiros a celebrarem a vitória nos duelos com mais uma marca na arma, ostentando o número de corpos abatidos como motivo de orgulho. Evoluímos. Mas, inconscientemente, andamos sempre em competição. Há um lado no ser humano que nos teletransporta para as nossas origens, como se existisse um animal predatório amarrado dentro de nós, após séculos de politicamente correcto. Um campo da NFL é o palco ideal para deixar fugir, por instantes, essa besta. Recordam-se da dança de Ray Lewis, sempre que entrava em campo, no início de cada jogo? Mais não era do que soltar esse animal guerreiro, que nos consome. E, para cada um deles, ter como troféu a “cabeça” de um quarterback, é algo superior ao jogo. É o objectivo principal. Quanto mais famoso, melhor. Não é de estranhar que, quando Aaron Rodgers foi ao tapete, no embate contra os Lions, a multidão tenha rugido de prazer e deleite. Naquele instante, Rodgers provou que, mesmo com truques de malabarista, era mortal. Stephen Tulloch, o linebacker responsável pelo sack, explodiu de contentamento. Celebrou de forma instintiva, sem grandes coreografias. Imitou um passo da haka, a dança típica dos maoris…e lesionou-se. Caiu desamparado, agarrado com uma expressão de dor à coxa, quando o corpo cedeu ao peso. Triste ironia do destino. O caçador, após capturar a presa desejada, sucumbe à própria felicidade.

2- RIP

Não há muito a dizer quando o destino nos apanha, numa qualquer curva da vida. Já todos sabemos quão frágil é a existência comum, ao sabor do infortúnio. Mas, quando cai um jogador que pertenceu à nobre irmandade da NFL, devemos respeitar o momento, enquanto celebramos a sua passagem como atleta pela competição. Rob Bironas, como qualquer outro kicker, sempre viveu longe dos holofotes mediáticos, preso nos condicionalismos do jogo, que vê na figura do pontapeador uma posição pouco máscula. Não é que a posição seja vista com desprezo por quem venera o futebol americano, mas habituamo-nos a esperar que cada um deles se limite a isso: a entrar em campo, de forma robótica, e a marcar com sucesso o field goal. Independentemente da distância. Afinal, já pensamos todos nós, quão difícil é chutar a porra da bola? O kicker não tem que fazer tackles, sofrer sacks, lançar bolas ou recebê-las rodeado de adversários. Pois não. Mas tem que ser frio, competitivamente, imune à pressão do momento, que exige um pontapé salvador no momento final do jogo. Tem que estar preparado, mental e fisicamente, para o grau de exigência da competição. Tem que manter a serenidade, mesmo que em seu redor tudo pareça como um vulcão em ebulição. Rob Bironas foi um desses. Um kicker prudente, profissional, sabedor das manhas do ofício, com a sua quota-parte de sucessos e desaires, mas cumprindo o sonho de ter jogado ao mais alto nível. Infelizmente, aos 36 anos, quando vivia ainda o doce sabor de um recém casamento (com a filha de Terry Bradshaw, um dos icónicos quarterbacks dos Steelers), o Destino negou-lhe a permanência entre os comuns mortais. Lá, onde quer que ele esteja, que repouse em paz. E que exista o game pass, para se manter informado das tropelias da sua irmandade.

3- A Ténue Linha Entre Glória e Fracasso

Já pensaram nisso? Em quão ténue é a linha separadora da vitória e da derrota? Na conjugação de factores que é necessário acontecer para uma equipa vencer a competição? E, na regular season, os momentos determinantes, em cada um dos jogos, que podem modificar os resultados? Não era engraçado possuir uma realidade alternativa, que nos permitisse ver como se desenrolaria a prova, se o lance A, no jogo B, fosse concluído de forma diferente? Por exemplo, até onde poderão chegar os Browns, claramente mais competitivos, mas com 1-2 na tabela de vitórias, depois de perderem frente a Steelers e Ravens no último segundo, com um field goal? Nunca saberemos, é um facto. E é uma pena. Se isto fosse ficção científica, saberíamos o peso do field goal despediçado por Cundiff, de 50 jardas. Ou o outro, bloqueado, que impediu mais 3 pontos para a equipa de Cleveland. Vendo o red zone channel e a sua acção non stop, reparei em dois lances que entram facilmente nesta categoria. Os Rams jogavam contra os Cowboys e, depois de uma confortável vantagem de 21-0, ficaram mais pressionados com a reacção do opositor. A vencerem por 4 pontos, a 14 jardas da end zone, a equipa enfrentou um 4-and-inches. Jeff Fischer optou por mandar avançar o ataque. Em casa, achei que era asneira. Um FG daquela distância era dinheiro em caixa e 3 pontos garantidos que aumentaria a vantagem para 7 de avanço. O 4-and-inches não resultou, com a jogada corrida a ser parada atrás da linha de scrimmage. Viram o resultado final? Os Cowboys venceram…por 3 pontos, os mesmos que Fischer desperdiçou naquela opção corajosa. Nesse mesmo encontro, com o third stringer QB Austin Davis a jogar num plano excelente (mais tarde, infelizmente, teve uma pick-6), e já com os Cowboys a um mero ponto de empatarem a contenda, Davis teve um lançamento primoroso para o seu tight end Jared Cook. Este, bem junto à end zone, não apanhou a bola à primeira, tentando emendar o gesto enquanto entrava na área pontuável. A bola saltitou, de uma mão para a outra, caindo depois ingloriamente no solo. 7 pontos desperdiçados num drop de ramificações incalculáveis, nesta altura. Os Rams podiam estar com 2-1 na difícil e exigente NFC West. Podiam, mas não estão. A glória e o fracasso namoram, tantas vezes, de mãos dadas…

4- A Verdade Vem Sempre ao de Cima

Ray Rice, parte 1357 da saga, que parece interminável. Aparentemente, pese as reacções de indignação, todo o staff principal dos Ravens sabia o que tinha acontecido. Pelo menos, é o que mostra uma reportagem da ESPN, que desvenda as tentativas da franquia de minimizar o castigo, mesmo sabendo o conteúdo do vídeo que apareceu a público, em Setembro. Segundo reza a história, o director de segurança dos Ravens, Darren Sanders, foi alertado para a existência das imagens comprometedoras, tendo dado conhecimento disso aos executivos de topo da equipa. Estes, reunidos com o advogado do jogador, e percebendo a extensão do problema, tentaram antecipar – e minimizar – a reacção da liga e de Goodell, quando o caso se tornasse viral. As pressões sobre a liga foram no sentido de redução do potencial castigo, jogando a cartada do arrependimento e do histórico do jogador, sem problemas similares. Goodell caiu na armadilha e deu um castigo light. O resto da história já se sabe. O mediatismo do caso, o aparecimento cirúrgico do vídeo, que incendiou ânimos, a tentativa de linchamento ao comissário e o mea culpa deste. No conforto dos gabinetes, o que pensarão os executivos dos Ravens e o dono da franquia disto tudo? Permanecerão com um ar impassível, repetindo o mantra de que “em negócios tudo é válido”, de consciência tranquila por terem colocado, em 1º lugar, a própria organização e só depois o resto? Se assim for, é duma crueza tremenda o despedimento de Rice, deixado cair no turbilhão provocado pelo aparecimento do vídeo, usado como mero joguete num braço-de-ferro com a liga. Rice é obviamente culpado pelos actos praticados, mas o cinismo e hipocrisia da sua ex-entidade patronal mereceriam também um cartão vermelho da NFL.

5- O Regresso do Filho Pródigo

A NFL coloca, quase todos os anos, por força da free agency, jogadores emblemáticos em confronto com aquelas que eram as suas equipas anteriores. Existem casos e casos. O de Peyton Manning, recebido sempre com enorme admiração e respeito, quando enfrenta os “seus” Colts. Ou o de Favre, que dividiu paixões, ao mudar-se para os Vikings e reapareceu em Lambeau Field com um uniforme odiado. Philadelphia deu um tratamento frio a DeSean Jackson. Compreensivelmente. O receiver aceitou o convite dos Redskins, emblemáticos rivais de divisão, nunca tendo construído, na sua permanência na cidade, uma relação umbilical com os fãs. A personalidade algo distante e os reportes que a saída tinha sido motivada por uma ética de trabalho questionável, fizeram o resto. A qualidade de Jackson não conseguiu ultrapassar a mudança de agulha daqueles que antes o veneravam. Dizem que o amor é um sentimento com um pulsar similar ao ódio. O agora jogador dos Redskins terá percebido o porquê. A primeira drive do jogo foi repleta de tensão e testosterona à solta. DeSean, após uma recepção, foi atingido já depois da jogada parada, no mesmo ombro que motivou a sua ausência de grande parte do embate anterior, contra os Jaguars. Num ambiente de enorme hostilidade, o versátil receiver procurou dar o seu contributo da melhor forma possível, mesmo que momentaneamente perturbado pelos sururus, que pareciam tirados de um jogo de soccer sul-americano. Marcou um grande touchdown, onde fez jus às suas qualidades, terminando o encontro com um travo amargo na boca. Mesmo que a exibição individual tenha sido positiva (mais de 100 jardas), os seus ‘Skins foram derrotados.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.