Os Recordes São Para Ser Batidos

Paulo Pereira 9 de Outubro de 2012 Records Comments

Durou 52 anos. Uma eternidade e equivale a quase três temporadas completas da fase regular. Falo de quê? Se ainda não adivinharam, com as primeiras letras deste texto a deixarem pequenos indícios, esclareço. O recorde de Johnny Unitas de 47 jogos consecutivos a lançar, pelo menos, para um touchdown, foi finalmente batido. O autor da proeza? O mesmo que no ano passado ultrapassou a mítica marca de Dan Marino, no número de jardas passadas numa época. Drew Brees, que pode começar a ser apelidado de “O Caçador de Recordes”. Será um epíteto demasiado redutor para catalogar toda a gama de habilidades que o actual quarterback dos New Orleans Saints tem, mas serve-lhe na perfeição.

Drew Brees

Drew Brees bate o recorde de 52 anos de Johnny Unitas, realizando 48 jogos com pelo menos um passe para touchdown

Mas vamos ao recorde. De 1957 a 1960, Johnny Unitas, então o líder dos Colts (sedeados em Baltimore), começou de forma involuntária a entrar para o mundo das estatísticas. Durante esse espaço temporal Unitas lançou para 102 touchdowns. Drew Brees, na perseguição involuntária deste recorde, lançou para 114, ao entrar no seu 47º jogo consecutivo. Uma diferença mínima, que apenas realça o brilhantismo de Unitas, que jogou numa era totalmente diferente, onde os ataques não tinham ainda a gama de soluções de agora, nem a competição era claramente vincada no jogo aéreo.

Para vermos a enorme diferença entre as épocas, basta ilustrar alguns dados:

  • Unitas, num dos jogos nessa série quase infindável de passes para touchdown, acertou dois passes, em nove tentativas. Nove vezes apenas que lançou a bola, num jogo inteiro, contra os Steelers. Um dos passes certeiros foi recebido por Raymond Berry para um touchdown.
  • Num outro encontro, contra os Packers, Unitas acertou 5 em 14, mas lançou dois touchdowns.

Como se constata facilmente, a evolução contínua do jogo trouxe-nos até agora, com uma liga cada vez mais vocacionada no passe e onde os running backs, continuando indispensáveis, são mera alternativa ao jogo aéreo, não assentando neles o ponto fulcral do ataque. Não se pretende, com esta comparação, tirar qualquer mérito ao feito de Drew Brees, um jogador emblemático e, claramente, um dos melhores de sempre na posição. Apenas se pretende dar, mesmo retroactivamente, um reconhecimento público a Unitas, uma figura ímpar na história da modalidade.

O mítico Johnny Unitas em acção

O mítico Johnny Unitas em acção

Curiosamente, sempre me perguntei qual teria sido o jogo a colocar um ponto final na série de Unitas. Uma simples pesquisa e fiquei elucidado. Foi em Los Angeles, morada dos Rams na altura. Uma equipa apelidada de medíocre, que sofria nessa temporada uma média de 27 pontos/jogo (nos 11 disputados), conseguiu vencer por 10-3, secando Unitas, que terminou com 17/38 nos passes, mas sem conseguir mover o ataque até à end zone adversária.

Ficam, para o final desta mini apologia, as palavras do filho de Johnny Unitas, sentimentais e tocantes:

“The way Dad was, he felt records were made to be broken.'I didn't know I was setting any record, and I didn't care. All I cared about was 'Did we win the game?'

“Dad never talked a lot about his football days. I learned mostly when someone came to interview him. I remember standing off to the side when HBO and NFL Films came to interview him, listening to every word. He just wasn't caught up in his football life. I remember literally he cleaned out the house once and had all his old football trophies out by the trash in a big box, and Mom had to go out there and get them before they were thrown away.”

Era assim a personalidade de Unitas, apelidado de The Golden Arm. Um “tipo” simples. Brees será um digno sucessor nessa caminhada de ostentar o recorde.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.