Alguém anotou a matrícula do camião que atropelou os Vikings?

Paulo Pereira 7 de Outubro de 2014 Análise Jogos NFL, NFL Comments
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Alguém anotou a matrícula do camião que atropelou os Vikings?

Vou abrir esta crónica com um parágrafo de vitimização. O que é que seria desta equipa dos Vikings com um jogo corrido consistente? Com Adrian Peterson no backfield? Já imaginaram os estragos que poderiam advir daí? E com Kyle Rudolph como ameaça sólida no passing game? Considero o tight end dos purple & gold uma rising star, com o crescimento exibicional abrandado por contínuas lesões. Alguém que, naquela específica e cada vez mais importante posição no terreno, pode pedir meças aos melhores. Bastaria isto para qualquer adepto dos Vikings levar as mãos à cabeça, em sinal de desalento. Eu sei que isso é um comportamento mais “socceriano” do que de alguém que gosta de futebol americano. Na NFL existe o mantra do “next man up”, o mito do “ninguém é insubstituível”. É um bocado bullshit essa teoria, mas…

Imaginem agora (não, ainda não acabei com as lamentações) que, mesmo com estas baixas, qualquer adepto da franquia de Minnesota estava esperançado. O motivo? A bela exibição colectiva frente aos Falcons e a esperança de que Teddy Bridgewater seja o TAL. Mas, poucas horas antes do jogo, novo golpe. Duro. Teddy de fora, Ponder a titular. ALGUÉM MERECE?
Não. Julgo que ninguém merece este sentido retorcido de humor do destino, que parece brincar com os anseios de quem venera as cores dos Vikings. Jogar fora contra os Packers – e sobretudo Aaron Rodgers – nestas condições, parecia-me demasiado cruel.

E pronto. Acabei o mural de queixumes. O jogo não foi como esperava. Foi pior. Se os Vikings foram consistentes em New Orleans, quando defrontaram um ataque similar a este, a competitividade esteve alheia do embate de enorme rivalidade. Quando o jogo nos presenteou com chuva, tive a minha primeira ilação brilhante (sou, aliás, um expert doutorado em ideia sublimes e ponderadas deduções que roçam a genialidade): Óptimo!

E óptimo porquê? Porque, na minha cabecinha pensadora, achei que os Vikings, com o tempo propício a erros e desaconselhável a um jogo de passe persistente, optassem pela corrida. Não que o jogo corrido assuste alguém, a não ser os Falcons. Matt Asiata é vulgar. Jerick McKinnon um rookie. Mas os Packers também apostariam essencialmente no jogo corrido (yeah, right) e aí Eddie Lacy seria uma presa fácil (vêem como sou um tipo de deduções brilhantes?). Lacy, com pífias 140 jardas na temporada, não conseguiria colocar em xeque a defesa dos Vikings, com o jogo corrido a ser perfeitamente controlado por Sharrif Floyd e Linval Joseph. Melhor do que eu, a fazer antevisões, só Marshall Faulk. Sabem que é, certo? O Hall of Famer, agora analista da NFL Network que, antes do início do encontro, dissertava com ar inteligente e….[esperem por esta]…[mais um bocado de suspense]…escolheu os Vikings como vencedores do jogo. Ah, grande Marshall. Infelizmente, estavas errado, mas pelo menos acalenta o coração saber que mais alguém acreditava nos purple & gold na noite chuvosa, para além dos pais do Ponder [que, aliás, o devem ter deserdado, depois da patética exibição].

Costumo, quando faço as análises dos jogos dos Vikings para a página facebookiana da franquia (sim, existe uma página portuguesa afecta à equipa), colocar um tópico com os melhores e os piores , em cada encontro. Neste caso, parece-me um exercício dispensável, por ser tão fácil. Bastaria pegar numa folha de papel, colocar um traço a meio e, do lado das negativas, colocar TODA A GENTE. Aliás, quase todos. Posso ser generoso e dar uma positiva a Blair Walsh, que fez o seu trabalho. Foi chamado a marcar um field goal e um extra point e não vacilou. E a Adam Thielen também. O miúdo, que fez o percurso de ascensão ao roster principal com enorme esforço, sendo uma das revelações do training camp, foi o mais destacado receiver, com 4 recepções e 57 jardas. Foi competente e só isso, porque não vale a pena deslumbrarmo-nos com jardas que vieram no garbage time.

Quanto ao resto, regressão pura. Ponder é um alegado quarterback. Meu Deus, ele é mau. Joga essencialmente em play action, quando parece ser preciso no passe, mas é incapaz de mais. De um rasgo, mesmo que isso signifique passar apenas 10 jardas. Dali não vem nada de relevante. Ponder é um bust. E devia ser colocado no programa de protecção de testemunhas, guardado a sete chaves pelo FBI num lugarejo qualquer, onde desempenhasse outra profissão. Por exemplo, funcionário de um posto de gasolina.  A culpa não é só dele. A OL tinha parecido evoluir contra os Falcons, mas ontem regrediu. Imenso. Sacks, pressões e uma completa inutilidade ao longo do jogo, permitindo que jogadores como Letroy Guion (ex-Viking), um molengão sem talento, parecessem verdadeiros Pro Bowlers. Se a OL foi má, o que dizer da DL? Deixar Lacy correr já foi um sinal desencorajador, mas isso aconteceu de forma patética, com péssimas tentativas de tackles, penalidades absurdas e uma evidente falta de disciplina. Mike Zimmer, que tem background defensivo e a reputação de técnico exigente, deverá ter-se sentido envergonhado ao ver os esforços dos seus pupilos. Da secundária é melhor nem falar, porque isso levaria a uma torrente de impropérios. Só me pergunto como é possível deixar Jordy Nelson tão sozinhooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo no lance do touchdown?

O que dizer dos Packers, quando se tem um coração Viking? Colocando de lado qualquer rivalidade doentia, que apenas tolda o raciocínio e impede fruir verdadeiramente o espectáculo, pouco há a dizer. Aaron Rodgers é o quarterback mais cool da NFL, levitando no campo como se fosse capaz de visualizar as jogadas, 10 segundos antes delas acontecerem. É o mais completo na posição, capaz de dilacerar as entranhas de qualquer secundária, se lhe derem tempo. Espaço ele arranja-o, pois nunca foi um pocket passer tradicional, avesso a capitalizar no solo as aberturas nas defesas contrárias.  Se a esse jogo de passe impiedoso se acrescentar um jogo corrido demolidor, os Packers são imparáveis. Ontem, a OL funcionou como um todo, protegendo Rodgers das tímidas investidas dos pass rushers dos Vikings e abrindo rotas perfeitas para serem exploradas por Lacy. Eddie Lacy voltou às grandes exibições, com o seu primeiro jogo da temporada acima das 100 jardas. Numa altura em que se avolumavam críticas quanto ao desempenho da unidade (Lacy tinha uma média, antes deste jogo, de 3,6 jardas por corrida e apenas 142 jardas obtidas em 3 jogos), a resposta foi contundente.  Destaque igualmente para mais um notável desempenho de Julius Peppers, abrilhantando por uma intercepção retornada para touchdown. O linebacker, que joga como outsider no 3-4 de Dom Capers, tem contribuído como pass rusher, mas igualmente eficaz quando cai em zonas de cobertura, como nesse passe de Ponder. Razão tinha Aaron Rodgers quando recomendou aos fás dos cabeças de queixo para terem calma. Relax, disse ele, confiante nas suas potencialidades. Apetecia-me responder-lhe. A sério. Relax o caraças, pá. Dizes isso porque tens talento. Porque relax é algo que ninguém sente, quando vê Christian Ponder de pads e capacete, pronto a lançar o caos com os seus passes mortíferos (esta parte final foi uma tentativa pouco subtil de humor, caso não tenham percebido). A vida dum adepto dos Vikings não está fácil. Mas o que importa é encontrar motivos de optimismo. E podem apontá-los:

  1. Vencemos os Packers em punts. CHUPEM!
  2. Depois duma exibição destas, é impossível fazer pior, certo? CERTO?
  3. Estive mais de 10 minutos para tentar encontrar outro ponto forte para levantar o moral das tropas, mas só me recordei da esposa loura, escultural e com um sorriso desarmante de…Ponder. E optei por desligar o PC.

[a encerrar o computador, em 9…8…7…6…5…4…3…2…1]

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.