Arizona Cardinals: A Temporada à Lupa

Paulo Pereira 17 de Fevereiro de 2014 Análises, NFL Comments
Arizona Cardinals

Arizona Cardinals: A Temporada à Lupa

Maior Surpresa

Pode chamar-se o técnico do ano de 2012 como a maior surpresa da equipa? Ninguém duvidaria do acerto da contratação, mas Bruce Arians tinha, aos 61 anos, a sua primeira experiência como head coach. O trabalho anterior, como mentor de Ben Roethlisberger, e a forma como manteve os Colts unidos, no período da doença de Cuck Pagano, eram fortes indicadores que os Cardinals tinham escolhido sabiamente. A mente ofensiva acutilante de Arians teve, no entanto, alguma dificuldade em transmitir os conceitos, com a equipa do deserto a ter uma primeira metade da temporada irregular. Mas, nos últimos 9 jogos da regular season, a equipa fez 7-2, terminando com um respeitável 10-6 que, noutras circunstâncias, lhe poderia ter dado o passaporte para os playoffs. Jogando na NFC West, com rivais como os 49ers e os Seahawks, o melhor elogio que se pode dar aos Cardinals é que eles foram competitivos, sendo uma equipa a ter em conta, em 2014, na luta pela supremacia divisional.

Maior Desapontamento

Rashard Mendenhall, claramente. O ex-jogador dos Steelers, com algum “peso” mediático, foi pouco mais que mediano na temporada, produzindo 687 jardas em 217 corridas, numa média de 3.2 jardas por tentativa. Arreliado, desde o início da época, por uma lesão num pé, Mendenhall nunca conseguiu dar relevo ao jogo corrido dos Cardinals, deixando espaço aberto para a utilização do rookie André Ellington, que conseguiu alguns momentos interessantes. Mesmo saudável, Mendenhall nunca mostrou velocidade nem a capacidade de furar tackles que costumam ser apanágio dos running backs de elite. Facilmente se percebeu, com o desenrolar da época, que o futuro dos Cardinals, na posição, não é Mendenhall. É Ellington.

Maior Necessidade

A OL foi, nos últimos anos, um dos cancros da franquia, onde a ausência de um franchise left tackle se fazia sentir, a cada jogo. Num draft onde a classe de offensive tackles parece promissora, os Cardinals podem sentir-se tentados a escolher um, que solidifique e estanque a OL. No entanto, a boa segunda metade da temporada feita pela linha, pode adiar as núpcias para outra altura. Se existe uma estatística que comprova a real necessidade dos Cardinals, ela é a que demonstra a permissividade perante os tight ends contrários. A equipa de Arizona cedeu 98 recepções, 1247 jardas e 17 touchdowns a tight ends, com os TDs a constituírem 58,6% do total de touchdowns sofridos pela secundária. Se há algo que a franquia necessita, como de pão para a boca, é de um safety, rápido e excelente na cobertura, que permita colocar cobro a tanta facilidade.

MVP

O grau de sucesso duma franquia pode medir-se pela quantidade de jogadores que sobressaíram, durante a temporada. Os Cardinals tiveram uma mão-cheia deles, merecedores de encómios. Mas, entre esses, um destacou-se. Karlos Dansby, ex-Dolphins, tornado proscrito em Miami e assinando, como free agent, por valores bem mais baixos do que aqueles que ele próprio esperaria. O veterano linebacker, de 32 anos, adaptou-se na perfeição à nova equipa, provando que ainda tinha “gás” no tanque. Dansby foi 2º na NFL, em solo tackles (114), conseguindo 6,5 sacks (o máximo da sua carreira, depois dos 8 conseguidos em 2006) e um máximo de carreira de 4 intercepções. Dansby foi o elemento galvanizador numa defesa pontuada pela juventude, liderando como exemplo, capaz de pressionar junto da linha de scrimmage, para depois ser capaz de cair em coverage ou patrulhar o meio do terreno, sideline-to-sideline. Grande época!

Posição a Posição

Quarterbacks

Carson Palmer pode não ser o franchise quarterback, mas deu para o gasto, colocando um ponto final na caótica situação que os Cards têm vivido, na posição, depois da retirada de Kurt Warner. Bruce Arians, adepto do vertical attack, obriga o quarterback a uma exposição, pelos passes longos, que o torna sempre num elemento destacado nas partidas, para o bem ou para o mal. Palmer foi consistente, a partir de meio da temporada, conseguindo realizar algumas big plays e tornando o ataque de Arizona difícil de parar. A equipa poderá equacionar draftar um rookie, maturando-o e fazendo-o crescer, sem pressões adicionais, enquanto Palmer lidera o ataque em 2014.

Running Backs

A unidade foi salva duma nota negativa pelo aparecimento de André Ellington, que conseguiu aproveitar o vazio deixado pelo injury-prone Mendenhall. Ellington demonstrou uma velocidade apreciável e a capacidade, sempre destacável, de criar perigo com a bola nas mãos. Ele será o rosto do jogo corrido, no futuro imediato. Alia a isso uma empolgante forma de jogar, quando depara com espaço livre. É um bom complemento para o jogo aéreo, com boas mãos e temeridade para furar pelo meio do campo.

Wide Receivers

Larry Fitzgerald marcou o máximo de touchdowns (10) nos últimos 4 anos. Aquele sentido de orfandade dos receivers, quando a equipa testava nome após nome no posto de quarterback, desapareceu. Palmer demorou a entrar no ritmo, tal como os seus alvos mas, quando isso aconteceu, o ataque aéreo dos Cardinals foi bonito de se ver. Fitz não chegou às 1.000 jardas, ficando lá perto (954), mas viu o seu colega do lado oposto, Michael Floyd, terminar a época com 1.041 jardas. Aquilo que a equipa de Arizona idealizou, quando draftou Floyd, de Notre Dame, começa a tomar forma. Dois excelentes receivers, dispersando a atenção das defesas contrárias. André Roberts tornou-se quase dispensável, sem espaço para jogar.

Tight Ends

Foi o elo mais fraco no ataque, com Rob Housler a nunca viver para as expectativas geradas e Jim Dray a ter apenas utilidade como blocker. A meio da época a equipa adicionou profundidade à posição, trazendo Jake Ballard, mas este raramente foi usado. O sector poderá ser alvo de contratações, pela free agency ou draft, em 2014.

Linha Ofensiva

Perdeu, antes de começar a temporada, a pick de 1º round, o guard Jonathan Cooper, que consideravam a âncora no rejuvenescimento da OL. Apesar desse contratempo, tal como o resto da equipa, a OL adquiriu o ritmo certo, a meio da época. Até então, 23 sacks concedidos. Nos últimos jogos, 18. A diferença não parece abissal e os números desnudam alguma porosidade, mas o ataque idealizado por Bruce Arians obriga a unidade a uma exposição prolongada, dando tempo a Palmer para os deep throws. Existiu evolução, em relação aos anos anteriores.

Linha Defensiva

Entramos em território de excelência, agora. A defesa dos Cardinals foi a melhor da prova, contra o jogo corrido, passando de 28ª em 2012 para a liderança. Tudo começou à frente, na linha defensiva, onde Calais Campbell, Darnell Dockett e Dan Williams se adaptaram na perfeição ao esquema táctico idealizado pelo coordenador Todd Bowles, tornando a visa miserável a running backs.

Linebackers

John Abraham, vindo dos Falcons, realizou uma boa temporada, subindo mais uns lugares no top-10 de todos os tempos, no que respeita a sacks. De Karlos Dansby, jogando no interior da linha, já se falou. Ano excelente do veterano, coadjuvado por Daryl Washington, outro Pro Bowler, pese ter jogado apenas 12 jogos da regular season. O sector, tal como a linha imediatamente à sua frente, foi um dos destaques positivos da temporada.

Secundária

Três anos, três idas ao Pro Bowl, eis as stats de Patrick Peterson. A secundária foi eficiente, pese não existir muita qualidade nos corners, depois de Peterson. A ascensão de Tyrann Matthieu, como free safety, alavancou o talento na unidade que, no entanto, teve algumas dificuldades com os tackles, que a penalizaram em várias drives. Mas a juventude de que está impregnada confere-lhe ainda espaço para crescimento e melhorias, no futuro próximo.

Special Team

Jay Feely, geralmente exsudando confiança, teve um final de regular season atípico, com algumas falhas. Mas, no computo geral, o special team dos Cardinals teve uma nota francamente positiva, com o punter Dave Zastudil e o gunner Justin Bethel a serem perfeitos. Javier Arenas, o nome associado aos retornos, foi resiliente e esforçado.

Coaching

Bruce Arians foi fiel aos seus princípios, mantendo-se paciente no início pouco famoso dos Cardinals. Isso rendeu juros, com a equipa a vencer 8 das 9 últimas partidas, mostrando que o sofisticado esquema no ataque pode ser uma mais-valia no futuro. Igualmente de parabéns o estratega defensivo, o coordenador Todd Bowles, nome referenciado várias vezes para head coach, nos vários clubes que tiveram lugares em aberto. Bowles manteve a unidade sob o seu comando com elevados índices de aproveitamento e qualidade.

Inspirado no original de Josh Weinfuss | ESPN.com

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.