Cincinnati Bengals: A Temporada à Lupa

Paulo Pereira 6 de Fevereiro de 2014 Análises, NFL Comments
Cincinnati Bengals

Cincinnati Bengals: A Temporada à Lupa

Maior Surpresa

Giovani Bernard. Draftado para responder a um quesito particular: ser um playmaker. O seu dinamismo torna-o um jogador empolgante, um daqueles raros exemplares que coloca o adepto excitado, mal o vê tocar na bola. Bernard trouxe isso aos Bengals, pincelando as suas acções com magia. Bernard foi o oposto, a nível de estilo, de BenJarvus Green-Ellis. Este, um bruising running back, que faz do trabalho árduo a sua principal característica, perdeu algum espaço na equipa com a chegada do rookie. Bernard teve mais de 1200 jardas totais e 8 touchdowns, numa evidente prova de rápida adaptação ao mundo profissional. Bernard é um dos nomes a acompanhar, em 2014, um jogador frenético que pode transfigurar um ataque, com as suas skills.

Maior Desapontamento

Aqui, a eleição podia tomar vários caminhos. Por um lado, o maior desapontamento foi a equipa inteira. Os Bengals, com um roster repleto de talento e qualidade, pareciam fadados não só a vencer a divisão, mas igualmente a serem um nome em conta, nos playoffs. O primeiro desiderato foi conseguido. A equipa, mesmo com alguns altos e baixos na regular season, impôs-se aos Ravens e Steelers, crónicos campeões. O problema foi o passo seguinte, com os Bengals a claudicarem, novamente, na 1ª ronda dos playoffs. Pela 3ª vez consecutiva, a franquia foi incapaz de vencer o seu opositor, não capitalizando o factor casa, numa longa seca de 23 anos sem vitórias na fase a eliminar. A eliminação deverá deixar marcas. É uma daquelas derrotas com um travo enorme a frustração. Depois do título na AFC North e de 11-5, perder em casa, num jogo crucial, com os Chargers, colocou em cheque Andy Dalton. E este, individualmente, foi o maior desapontamento, incapaz de elevar o seu jogo quando a equipa mais necessita. Dalton foi mau, nos dois anos anteriores, nos jogos contra os Texans, nos playoffs. Continuou a senda miserabilista, cometendo erros primários e mostrando, provavelmente, que não é com ele aos comandos do ataque que a franquia dará o passo em frente.

Maior Necessidade

Uma postura mais agressiva e, por contraponto, menos conservadora, no play calling nos playoffs. É aqui que as pretensões dos Bengals têm sofrido duros revezes, com derrotas às mãos dos Texans (por duas vezes) e dos Chargers, este ano. Ponto comum a todas elas? Uma alteração na abordagem agressiva que era vista na regular season. Contra os Chargers, a equipa abandonou a corrida, demasiado cedo, obrigando a um uso contínuo do passe e a uma exigência de perfeição à OL. Nesse fatídico jogo, mesmo com resultados satisfatórios na corrida, a opção foi intrigante, abandonando a bola no solo e optando pelo uso do passe quase em exclusivo. Os Bengals, mesmo na espiral de três traumáticas derrotas na primeira ronda dos playoffs, continuam a ter lastro suficiente para se manter no topo e tentarem atingir o sucesso.

MVP

Vontaze Burfict. De quase proscrito a estrela em ascensão. O trilho de Burfict, na NFL, não tem sido fácil. Olhado de soslaio no pré-draft, com os seus problemas off the field a atormentarem o stock, Burfict não mereceu a confiança de nenhuma equipa, tornando-se free agent. Os Bengals, com histórico de confiança em jogadores problemáticos, deram uma possibilidade ao linebacker. E, muitas vezes, isso é quanto basta. Em 2013 Burfict foi uma força da natureza, um indómito jogador no centro da defesa, destemido nas jogadas e instilando medo ao ataque contrário. Liderou a competição em tackles, terminando com 171, alguns dos quais contribuíram para turnovers. É um jogador que joga com coração e paixão, catapultando muitas vezes, com o seu exemplo, os companheiros de sector. No seu 2º ano na liga, Burfict apenas desvendou parte do seu potencial.

Posição a Posição

Quarterbacks

Andy Dalton bateu o recorde da franquia em jardas passadas e touchdowns. Mas nem isso alegrará adeptos e equipa técnica, tão pobre foi o trabalho do ainda franchise QB nos playoffs. Dalton é inconsistente, mas isso é camuflado numa regular season com 16 jogos. O problema é que, em jogos importantes e decisivos, ele não consegue corresponder ao esperado, cometendo inúmeros turnovers. Três anos seguidos a ver isso, nos playoffs, lançou o debate sobre se ele é, na realidade, o futuro da equipa na posição. Dalton parece ter sido espremido, até ao limite das suas capacidades, mas os Bengals não deverão ainda estar prontos a desistir dele. Provavelmente contará com alguma competição, na posição, e terá que se adaptar a um novo coordenador ofensivo, dado que Jay Gruden se mudou para Washington e Hue Jackson é agora o timoneiro do ataque. 2014 será o ano crucial para Dalton provar que pode vencer…e jogar melhor.

Running Backs

O que foi idealizado no papel tardou a tomar forma, dentro de campo. Mas, quando isso aconteceu, foi o suficiente para avalizar o jogo corrido da franquia. O one-two punch, com BenJarvus Green-Ellis finalmente saudável, trabalhador inveterado, e Giovani Bernard a explodir no espaço vazio, deu uma dimensão assinalável ao jogo terrestre. Os dois jogadores complementam-se na perfeição. Ellis é o RB em situações junto da goal line, ou em jogadas a necessitar de poucas jardas, o running back que enfrenta a DL com 5 ou 6 jogadores preparados para o retardar. Bernard é o inverso: um jogador excitante quando apanha uma réstia de terreno livre, imprevisível nas acções e contribuidor fora do backfield. Os Bengals não precisam de invejar o jogo corrido de ninguém…

Wide Receivers

Marvin Jones e AJ Green atingiram mais de 10 touchdowns, cada um, mais um feito que fica gravado, pelo ineditismo, no historial da franquia. A equipa tem soluções para todos os gostos, com Sanu a ser um contribuidor regular, receiver mais físico, enquanto Andrew Hawkins é um slot receiver com velocidade e engenho para ajudar o ataque. Com uma média de idades baixa, na posição, os Bengals apenas têm que reforçar o trabalho no quesito segurança, dado que o final de temporada ficou marcado por alguns drops (AJ Green nos playoffs, numa jogada crucial contra os Chargers, e Marvin Jones no embate contra os Ravens). Também aqui os Bengals exsudam qualidade a rodos, para pedir meças a qualquer adversário da prova.

Tight Ends

Apontados, desde cedo, como favoritos na divisão, os Bengals eram alvos de elogios sistemáticos, pela qualidade que o roster apresentava, na maioria das posições. A cada vez mais importante posição de tight end não fugiu à regra, com Jay Gruden a receber uma prenda vinda do draft, com a eleição de Tyler Eiffert a ser um trunfo, reunindo-se a Jermaine Gresham num duo de poder considerável. Se bem que Eiffert teve as habituais dores de adaptação, Gresham foi usado amiúde na red zone, constituindo um alvo apreciável para Dalton. O futuro, na posição, parece garantido. Ambos são razoáveis blockers, com complemento nesse item de Orson Charles.

Linha Ofensiva

Uma unidade excelente, até meio da temporada. Depois desse marco, a OL continuou a ser sólida na protecção a Dalton, conferindo igualmente alguma dimensão ao jogo corrido, mesmo quando foi necessário efectuar alterações posicionais, como colocar Andrew Withworth a left guard. Mas, tal como o homem que tinham de proteger, a OL não ficou bem na fotografia no playoff contra os Chargers, nunca dando tempo suficiente a Dalton e revelando alguma porosidade que, até então, não tinha sido vista.

Linha Defensiva

Sobreviveu…e bem, depois da trágica perda de Geno Atkins, unanimemente considerado o seu melhor jogador. Obrigados a improvisar, a linha continuou a marcar a diferença, extremamente agressiva e coleccionando turnovers e momentos que fizeram a diferença. A única nota algo decepcionante foi a progressão de Margus Hunt, escolhido no draft, que revelou enormes dificuldades em colocar pressão sobre os adversários. O estoniano, antiga estrela no lançamento do disco, pareceu um corpo deslocado na máquina oleada que foi a DL. Linebackers – A história do ano foi Vontaze Burfict, que marcou o ritmo da equipa, num estilo indomável. Mas o corpo de linebackers não viveu apenas dele, assistindo ao ressurgimento de Vincent Rey , depois da lesão de Rey Maualuga. Se algo ficou comprovado, é que a unidade de linebackers tem qualidade…e profundidade, capaz de resistir a várias lesões. Na preseason perdeu Emmanuel Lamur.

Secundária

Foi uma unidade que surpreendeu, pela positive. Tendo perdido Leon Hall e Taylor Mays, a secundária não ficou fragilizada, tendo assinado com Chris Cooker no início da temporada e contribuindo com várias INTs e turnovers.

Special Team

Uma unidade coriácea, com Brandon Tate a ser o responsável pelos retornos de punts e kicks e Kevin Huber a brilhar, nos punts (até se lesionar, na week 15). Mike Nugent não comprometeu as aspirações, o que é algo sempre assinalável, quando não se dá pela presença do kicker.

Coaching

Se nos reportarmos apenas à regular season, o trabalho da equipa técnica dos Bengals foi excelente. Mike Zimmer, guru defensivo, continuou a orquestrar os seus esquemas tácticos agressivos e intimidantes, enquanto Jay Gruden, mentor do ataque, manteve as peças funcionais, controlando o destino da divisão. Marvin Lewis, head coach, melhorou em aspectos em que tinha sido criticado anteriormente: clock management e o sudo de challenges. O problema, mais uma vez, foi a abordagem aos playoffs. Pela 3ª vez, os Bengals quedaram-se na ronda inicial, usando um conservadorismo táctico que os penalizou fortemente. No entanto, as performances da regular season valeram o bilhete mágico a Zimmer e Gruden para o ambicionado cargo de head coach. Zimmer será o líder dos Vikings, enquanto Gruden se mudará para a capital, orientando os Redskins.

Inspirado no original de Coley Harvey, espn.go.com

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.