Histórias da Offseason

Paulo Pereira 23 de Fevereiro de 2015 Diversos, NFL Comments
Adrian Peterson

Histórias da Offseason

Anda tudo ressacado, certo? Não um efeito duma noite entre amigos, regada a álcool, para apimentar as conversas, mas um efeito evidente da falta de futebol americano. É a pior altura do ano, uma que nos coloca à beira dum estado depressivo, seres perdidos sem o seu shot predilecto de acção e emoção. Até lá, resta a cada um sobreviver a mais uma offseason, seja lendo minuciosamente as mesmas notícias, dia após dia, ou preparando-se para o draft que aí vem, ou ainda visionando jogos passados. Mas a offseason, se não nos dá o esplendor do futebol, traz-nos uma mão cheia de histórias interessantes, que vale a pena acompanhar, durante o período de free agency, o draft e o training camp.

Equipas

Dallas Cowboys

A equipa de Jerry Jones surpreendeu meio mundo, com a competitividade que mostrou em 2014, conquistando um título de divisão e aparecendo no 2º round dos playoffs. A forma como perderam, com uma jogada polémica que envolveu Dez Bryant, ainda não terá sarado na totalidade. Estes Cowboys podiam ter chegado mais longe, mas isso são águas passadas. Para o que importa, é que a franquia depara-se com um cenário complicado, em termos de salary cap, que a poderá obrigar a desfazer-se de um ou mais jogadores nucleares. Na linha da frente, aparecem dois dos baluartes da bela campanha de 2014: DeMarco Murray e Dez Bryant. Ambos podem atingir o mercado de jogadores livres e tornar proibitiva a tarefa de mantê-los. É possível que, com engenho e criatividade acima da média, os Cowboys consigam uma maneira de manter ambos, mas numa era em que o salary cap funciona como o elemento regulador, torna-se difícil fazer concessões. Muito provavelmente, um deles sairá, o que colocará a equipa na procura dum substituto. Acredito que seja Murray que, mesmo com uma temporada de enormíssimo nível, pode ser uma baixa colateral pela depreciação que a posição de running back tem tido, nos últimos anos. A equipa, para já, conseguiu evitar a saída de Rod Marinelli, o mago defensivo que pegou num punhado de jogadores medianos e fez um fantástico trabalho naquela que era a pior defesa da NFL. Será que 2015 verá a equipa a ser um contendor, como em 2014?

San Francisco 49ers

A era Jim Harbaugh está oficialmente encerrada. O treinador, que vivia num ambiente crispado com o general manager, optou por um regresso às origens e mudou-se de armas e bagagens para Michigan, com a hercúlea tarefa de reerguer o programa universitário. Os seus lugares tenentes também saíram. Greg Roman para Buffalo e Vic Fangio, que muitos viam como o sucessor natural de Harbaugh, para Chicago. A ascensão de Jim Tomsula, fortemente apoiado pelo CEO Jed York e pelo GM Trent Baalke, não deixa de constituir uma surpresa. E um risco. O treinador da linha defensiva é bem conceituado entre os seus pares, mas constitui uma incógnita para a posição de relevo que é ser head coach da franquia californiana. As más-línguas dizem que Tomsula será uma marioneta, presa nos caprichos de York e Baalke, que poderão conduzir a franquia da forma que mais entenderem. Esta teoria da conspiração ganha adeptos, que se recordam que a deterioração da relação entre Harbaugh e o staff superior foi um dos motivos que resultou na saída do ex-técnico. É, como se disse, uma aposta. De riscos, como todas. Baalke e York sabem que jogam aqui muito do seu futuro profissional. Quem jogará também muito do futuro é o quarterback Colin Kaepernick, diabolizado por muitos pelos recentes insucessos do clube. Conseguirá Tomsula liderar a equipa, na difícil NFC West, com Kaep em campo, ou vamos ter no final de 2015 uma nova procura pelo franchise quarterback?

Chicago Bears

Os Bears vão estar no spotlight, durante a temporada. A saída de Marc Trestman, que foi incapaz de aproveitar o talento de que dispunha, e do general manager Phil Emery, cujo maior pecado terá sido o compromisso milionário com um Jay Cutler que definitivamente não parece ser o quarterback ideal para a equipa, resultou na entrada dum novo staff técnico. Com forte pedigree. Para chefiar os destinos da franquia, nos próximos anos, o eleito foi John Fox, com passagens de sucesso pelos Panthers e Broncos, recentemente. Fox não perdeu tempo e tratou de efectuar um upgrade notável na coordenação defensiva, trazendo Vic Fangio, o responsável pela intratável defesa dos 49ers e Adam Gase, o coordenador do ataque dos Broncos. Com Ryan Pace no lugar de general manager, o futuro parece promissor, mas será acompanhado com enorme curiosidade, sobretudo naquilo que o novo staff técnico conseguirá extrair do mistake prone que é Cutler. Fox, técnico conceituado e de background defensivo, parece talhado para a tarefa de reerguer a histórica franquia, tendo sido capaz de ir a um Super Bowl com Jake Delhomme como quarterback (nos Panthers) e vencer um jogo dos playoffs com Tim Tebow (Broncos).

Salary Cap – Baixas Colaterais

Minnesota Vikings – RB Adrian Peterson

O running back saiu de um ano horribilis, em que apenas jogou uma partida (fora, contra os Rams), para depois entrar num pesadelo mediático-jurídico. Passado o vendaval de acusações e de idas a tribunal, os Vikings já manifestaram publicamente a vontade de receber o seu jogador. Mas essa intenção é real, ou apenas um panegírico para a imprensa? Numa análise fria e racional, que será a que a franquia terá, quando chegar a altura, o que será analisado é:

  • Adrian Peterson fará 30 anos em Março. Isso é significativo? Sim. E não. Sim porque a curva descendente, nos running backs, sobretudo aqueles sujeitos a extenso trabalho anualmente, costuma acontecer nesta altura da vida. Não, se a resposta se basear unicamente nas prestações de All Day, que não dá mostras de abrandar o ritmo.
  • O cap space. Estarão os Vikings dispostos a comprometer 15,4 milhões do salary cap no jogador? O número, que representará sempre cerca de 10% do dinheiro a investir pela equipa, valerá a pena pela pressão que retirará dos ombros de Bridgewater, mas obrigará a uma ginástica financeira tremenda, quando se pretender reforçar os outros sectores da equipa.

New Orleans Saints – OG Jahri Evans

De Pro Bowler a pior guard da competição? Os números assim o parecem indicar. A performance de Evans em 2014 foi, dum ponto de vista estritamente analítico, desastrosa, com o jogador a conceder 6 sacks e 47 pressões totais sobre o QB, no que representa o máximo de um guard na NFL, em 2014. Num ataque ritmado e onde Drew Brees se livra da bola com rapidez, a estatística não deixa de ser preocupante. Com a franquia acima do salary cap em cerca de 23 milhões e com Evans a contribuir com 11 milhões em 2015, parece fácil somar 2+2. Se cortado antes de 1 de Junho, Os Saints pouparão 7,5 milhões

Arizona Cardinals – WR Larry Fitzgerald

Há primeira vista parece impensável, certo? Mas a forma como a NFL está criada, com a free agency e o salary cap, dita regras e muitas decisões que anteriormente pareceriam impossíveis, ganham forma sob um prisma de racionalidade. A figura icónica de Fitzgerald, ídolo que se confunde já com as cores dos Cardinals, pode ser uma baixa casuística. O impacto do salário do receiver no cap é de brutais 23,6 milhões. E é fácil fazer as contas e perceber que, por esse valor, os Cardinals não têm qualquer possibilidade de manter o vínculo com o receiver. Em Março o jogador receberá um bónus de 8 milhões e a equipa poupará 9 milhões se o cortar antes de 1 de Junho. Até lá, existe esperança. Qual? Numa reestruturação de contrato, com um pay cut que diminua o impacto. Para isso será necessária a vontade de ambas as partes. A novela será acompanhada com enorme atenção e se, na data limite, não existir um consenso, muitas equipas receberão Fitzgerald de braços abertos. [UPDATE] A situação já ganhou mais um capítulo. Feliz. Aparentemente, o receiver terminará os seus dias na solarenga cidade do deserto, tendo fechado um novo acordo com a franquia, numa concessão de alguns milhões que demonstram igualmente o desejo do atleta de permanecer nos Cardinals.

San Francisco 49ers – TE Vernon Davis

O número do cap hit do tight end nem é abismal, quando comparado com outros. Os seus 6.967 milhões não o colocariam na corda bamba, não fosse a conjuntura em S.Francisco. E essa é elucidativa, com uma grande soma de dinheiro a ser comprometida no futuro de Kaepernick e no quarteto de linebackers (Aldon Smith, NaVorro Bowman, Patrick Willis e Ahmad Brooks) e a deixar pouco espaço de manobra. A produção de Davis, em 2014, também não ajuda. As suas quase insignificantes 26 recepções em 14 jogos não colocam em causa o valor do jogador, mas antes o estado anémico do ataque dos 49ers. Mas, se os 49ers dispensarem Davis, antes de 1 de Junho, poupam 5 milhões. É dinheiro. E muito.

Novelas do Draft

Oregon – QB Marcus Mariota e Florida State – QB Jameis Winston

Estão preparados? É que já começou. Seja nos States ou cá, fale-se de futebol americano ou de soccer, vai dar tudo ao mesmo quando o assunto é…a falta de assunto. Artigos repletos de banalidades e lugares-comuns, descartáveis à 1ª leitura, espremendo conteúdos inócuos dias a fio. A ausência de competição tem disto. A necessidade de alimentar uma indústria ponderosa com notícias. Ou, na ausência destas, com especulação. O período pré-draft é um exemplo do que acabei de escrever. Investigação, pesquisa e muita, mas mesmo muita informação despejada diariamente. A novela principal centrar-se-á, como habitualmente, no nome da futura pick nº 1, resumindo tudo a uma luta intestina entre Marcus Mariota e Jameis Winston, com méritos e defeitos devassados, para a opinião pública ver.

Oklahoma – WR Dorial Green-Beckham

Não confundam este Beckham com o outro, o Odell talentoso dos Giants, pese serem ambos receivers. Um – o Odell – tomou de assalto a liga, em 2014, deleitando os espectadores e frustrando todos aqueles que o poderiam ter escolhido, no draft, e optaram por outras soluções. Este Beckham é igualmente talentoso, mas problemático. Apareceu no mundo universitário com enorme hype, um dos mais reputados receivers vindos do high school. No entanto, pese alguns fogachos dentro de campo, deu mais nas vistas pela imaturidade fora das quatro linhas, levando a que Missouri, forte programa da SEC, o dispensasse, de forma desonrosa. Dorial tem um potencial enorme e pode ser um daqueles receivers desafiadores na NFL, ao estilo de Anquan Boldin ou Brandon Marshall, nos seus 6’5’’. Mas numa altura em que as notícias dão conta de [mais] uma suspensão de Josh Gordon, alguma equipa se atreverá a dar uma oportunidade a Beckham? O jogador tem, nos meses até ao draft, uma oportunidade de redimir, mesmo que parcialmente, a sua imagem, com o Combine e posteriores entrevistas.

Washington – DT Danny Shelton

No ano passado, o Senior Bowl apresentou nacionalmente Aaron Donald, um prospect de Pittsburgh, undersized, mas poderoso fisicamente. A exibição do defensive tackle teve semelhanças com um pittbull feroz, elevando o seu draft stock. O resto da história já é conhecido e, depois de escolhido pelos Rams, Donald teve a temporada previsível, culminada na eleição para rookie defensivo do ano. Este ano a história repete-se com Danny Shelton, curiosamente também defensive tackle. O jogador, que na PAC 12 impressinou scouts, teve um ano sénior estupendo, com 9 sacks e 17 tackles for loss. Apontado já como potencial top 15 no draft, tem no entanto um rol de dúvidas que serão dissecadas, nas próximas semanas. Jogador limitado, que apenas servirá para uma defesa 3-4, algo undersized, ou isso são apenas dogmas “scoutianos”, que falham na distinção da qualidade, por estarem demasiado amarrados a ideias preconcebidas?

A Pick nº 1

O que farão os Buccaneers com a pick nº 1 do próximo draft? Select their preferred quarterback? Parece cada vez mais óbvio que a equipa de Tampa Bay irá dotar o ataque com aquele que se espera seja o franchise quarterback. Lovie Smith viveu no seu primeiro ano em Tampa com as deficiências de Mike Glennon e Josh McCown e sem a real ajuda de um coordenador ofensivo, pois Jeff Tedford passou a temporada arreliado por problemas de saúde graves. A recente dispensa de McCown apenas veio reforçar a ideia que Jameis Winston ou Mariota estarão a caminho da solarenga Flórida. E parece ser o que falta. Os Bucs têm já algumas peças em posição, tanto na defesa como no ataque, podendo construir, com um QB de qualidade, um contendor na divisão em curto espaço de tempo.

Artigo inspirado no original de Doug Farrar | SI.com

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.