Seattle Seahawks: First Look 2014 [pré-draft]

Paulo Pereira 23 de Maio de 2014 Análises, Equipas NFL, NFL Comments
Seattle Seahawks

Seattle Seahawks: First Look 2014 [pré-draft]

Por onde andam os campeões da NFL? A franquia de Seattle, que conquistou o seu primeiro título na história, deixou-se levar no estado de euforia, vivendo saciada com as honrarias ganhas, ou anda a preparar o futuro, tentando fazer com que o Super Bowl não seja um episódio isolado no historial?

É uma pergunta retórica. Quem tem acompanhado, mesmo que superficialmente, os Seahawks, depara com um trabalho consistente, metódico, seguindo à risca o plano traçado. John Schneider pode nem ser o mais mediático dos general managers que pululam o mundo do futebol profissional, mas tem revelado conhecer o mercado de forma abrangente, dotando a equipa do que ela precisa para ser sólida e competitiva na emergente NFC West. O roster, pejado de jogadores saídos do draft, escolhidos criteriosamente, é jovem e talentoso. Mas a NFL é uma competição única, com regras que regulam os índices de competitividade, tentando impedir – ou pelo menos tornando mais difícil – a existência de dinastias que se perpetuam no tempo. A offseason, por isso, nunca seria fácil, com vários jogadores a atingirem a free agency. Nesta fase, com a impossibilidade de renovar os vínculos contratuais com todos, é tudo uma questão de equilibrismo financeiro, racionalmente deixando sair jogadores que, mesmo importantes, podem ser substituídos.

Os Seahawks não foram, em 2013, uma equipa perfeita. Nem há disso, em nenhuma competição. Se existia um calcanhar de Aquiles, uma fraqueza a explorar pelos adversários, era a linha ofensiva. A offseason, até ao momento, não debelou as fragilidades existentes. Breno Giacomini, right tackle, apreciado pelo corpo técnico na mesma medida em que era vilipendiado pelos fãs, saiu para os Jets. A seguir à OL, o corpo de wide receivers aparece, mas a longa distância, como merecedor de alguma atenção. Golden Tate foi, já se sabia, cobiçado na free agency, tendo merecido um contrato chorudo em Detroit. Os Seahawks, no entanto, podiam absorver este impacto. Percy Harvin parece recuperado. Doug Baldwin permanece na cidade. Sidney Rice, que testou a free agency, viu o contrato renovado. Jermaine Kearse deverá ter mais snaps, depois da boa temporada realizada. O panorama, como se constata, não é merecedor de muitas preocupações. Mesmo com uma OL deficiente, em 2013, a equipa venceu a competição, alicerçada em dois vectores: a mobilidade de Russell Wilson no pocket, que evitou dissabores maiores e a estratégia de Darrell Bevel, criando um ataque com forte componente de corrida, evitando uma exposição exagerada de Wilson a hits.

No intrincado e complexo mundo do futebol profissional, quem vence ou procura vencer de forma consistente, tem que pensar no futuro. No imediato mas igualmente no de médio prazo, procurando por antecipação a resolução a problemas que ainda nem surgiram. Essa proactividade, nos Seahawks, deverá estar centrada na free agency…de 2015. É aí, nesse ano e no imediatamente seguinte, que muito do sucesso futuro da franquia pode ser decidido. Finda a época de 2014, eis a lista de potenciais free agentes da equipa: FS Earl Thomas, CB Richard Sherman, CB Byron Maxwell, DE Cliff Avril, OLB K.J. Wright e OLB Malcolm Smith. Ou seja, a maior parte da defesa, verdadeiro bastião quase inexpugnável. Andando um ano para a frente, novo desafio espera Schneider e Cª. É nessa altura que o QB Russell Wilson, RB Marshawn Lynch, RB Robert Turbin e TE Zach Miller findam os contratos. Tal como o MLB Bobby Wagner, o DT Brandon Mebane, o CB Jeremy Lane e o OLB Bruce Irvin. Estão a perceber a dor de cabeça que aí vem? Numa era em que o salary cap é um instrumento limitador, obrigando a intrincados planos para que as franquias consigam encaixar os salários de 53 elementos, os Seahawks terão que fazer contas à vida. Como? De forma simples, directa e fria. Criar uma lista em que cataloguem os free agents em duas categorias: essenciais e não essenciais. Sabendo que não poderão, nas duas próximas aberturas do mercado, manter todos os jogadores que consideram importantes, terão que cortar/deixar sair aqueles que menos mossa provocarão.

Essenciais

FS Earl Thomas
CB Richard Sherman
DE Cliff Avril
MLB Bobby Wagner
QB Russell Wilson

Não essenciais

CB Byron Maxwell
CB Jeremy Lane
OLB K.J. Wright
OLB Malcolm Smith
OLB Bruce Irvin
DT Brandon Mebane
RB Marshawn Lynch
RB Robert Turbin
LT Russell Okung
TE Zach Miller

Antes que pensem que enlouqueci com alguns dos nomes na lista de não essenciais, um ponto pertinente. A lista foi criada por Andy Benoit, escritor/jornalista/guru que muito aprecio e com o qual quase sempre estou de acordo. Como neste caso. Marshawn Lynch aparece nos não essenciais por vários motivos, que passo a explicar. Em primeiro lugar, falamos de previsões futuras. O jogador tem contrato até 2016, altura em que entra na casa dos 30 anos, período tido como crítico num running back, com a produção a começar a decrescer. Para além disso, as decisões profissionais não se compadecem com sentimentalismos irrelevantes. O jogador, importante actualmente, tem também um salário elevado, com peso substancial no cap space. E joga numa posição que tem vindo a perder influência no mercado, quando se constata que é fácil – e barato – encontrar jogadores produtivos nos últimos rounds dos drafts ou mesmo no mercado de free agents. Para além disso, sem grande dose de drama, os Seahawks adicionaram nos últimos anos backups com enorme potencial, como é o caso de Robert Turbin e Christine Michael. A lista de “não essenciais” não significa que alguns desses jogadores não serão mantidos. Pelo contrário. Significa que, mesmo importantes, SÓ serão mantidos após a resolução dos casos dos jogadores “essenciais”. E a lista poderá ter uma influência crescente, quando nos aproximamos do draft. O que farão os Seahawks? Aproveitam as escolhas para colmatar eventuais carências que têm, ou optam por outra estratégia, priorizando escolhas que possam influenciar as decisões em 2015 e 2016? Por exemplo, na maioria dos mocks drafts os Seahawks aparecem a escolher um offensive lineman na 1ª ronda. Compreende-se. A OL, conforme dito, foi o sector mais mediano do roster. Mas, e se não escolherem, optando pela manutenção do estilo de jogo (um ataque com um jogo de passe controlado, um QB móvel e uma forte componente de corrida) e escolhendo jogadores para a DL, mantendo-a dominante e sabendo que, em 2015 e ano seguinte, esse será um sector carenciado? Saberemos o que aconteceu quando, aqui no blog, fizermos a análise do draft, equipa a equipa.

Neste primeiro olhar de 2014 sobre os vencedores do Super Bowl, não poderia faltar a visão sobre o roster actual. Em Abril,  antes do draft, o panorama é este:

Quarterbacks

Russell Wilson continua a ser a estrela da unidade, com Tarvaris Jackson como backup. O veterano renovou pela equipa por mais um ano, merecendo 1.25 milhões. É uma presença sólida, conferindo experiência na posição e sendo uma salvaguarda, no caso de acontecer alguma lesão com Wilson. Conhece o ataque e tem mais qualidade do que o normal, num backup. A recente adição de Terrelle Pryor, não sendo desconcertante, não deixa de ser enigmática. O jogador, claramente deficiente no passe, tem no entanto skills que o tornam interessante, nomeadamente nos malabarismos fora do pocket, onde sobressaiu nos Raiders. Não mãos experientes de Pete Carroll poderá ser talhado nas suas carências. É um projecto a longo prazo? Se não, será utilizado em algumas sub-packages, tipo wildcat? Eis um bom motivo para acompanhar o training camp dos Seahawks…

Running Backs

Tudo igual à forma como findou a temporada de 2013, excepção feita a Michael Robinson, fullback. Este é free agent, não tendo atraído até à data qualquer interesse alheio. Aparentemente, os Seahawks não estarão dispostos a um novo vínculo contratual, dado não terem feito qualquer oferta ao jogador. Se Robinson não regressar, Derrick Coleman deverá ser o titular da posição.

Wide Receivers

A unidade perdeu Golden Tate, para os Lions, tendo renovado com Sidney Rice, que era free agent. Tal como o caso de Tarvaris, o contrato é de apenas um ano. As novidades no grupo são, até ao momento, a inclusão de Taylor Price e Chris Matthews. São movimentos similares a tantos outros, com as equipas a preocuparem-se em dotar de profundidade as várias áreas do roster, para que os índices de competição no training camp estejam nos limites máximos. Por outras palavras, ambos os jogadores são “carne para canhão”. Lançados às feras para ver se sobrevivem na dura luta pela permanência no roster final. Taylor Price merece, no entanto, alguma atenção. Injury prone, desde que foi draftado pelos Patriots em 2010, tem enorme velocidade, tendo feito 4,4 nas 40 jardas. Diamante em bruto para lapidar? Veremos…

Tight Ends

Zach Miller está de regress, mas com contrato reestruturado, que permitiu aos Seahawks salvar 3 milhões no salary cap. Anthony McCoy, que perdeu a temporada de 2013 com um torn ACL, renovou por um ano, num contrato de 1,3 milhões. Os rumores dão conta do interesse da franquia noutro tipo de tight end, surgindo o nome de Jermichael Finley como putativo candidato a ocupar a posição. Especulação ou não, o roster agradeceria o aparecimento de outro TE, posição cada vez mais importante nos diversos esquemas tácticos. Finley, se recuperado da grave lesão, seria uma arma fantástica na red zone. Novidade, para já, é a inclusão de Travis Beckum, num contrato de um ano e 730 mil dólares. O jogador, que não teve equipa interessada nos seus serviços em 2013, conta com uma passagem pelos Giants, onde nunca se destacou, mesmo após a saída de Kevin Boss e a lesão de Jake Ballard.

Offensive Linemen

Ponto da situação: Breno Giacomini foi para os Jets e Paul McQuistan, que jogava como tackle ou guard, assinou pelos Browns. Os Seahawks não ficaram parados, aguardando soluções caídas do céu. Renovaram com Lemuel Jeanpierre, um daqueles jogadores que apenas os mais indefectíveis adeptos da equipa se recordam. 950 mil dólares para um backup, com polivalência que lhe permite jogar como center ou guard, parecem apropriados, sobretudo porque o jogador substituiu Max Unger, com relativo sucesso, quando este esteve ausente por mazelas físicas. De resto, caras novas existem, mas pouco mediáticas. Greg Van Roten chegou (pode fazer de guard ou center) depois de dispensado pelos Packers (contrato de 1 ano e 570 mil). A posição de guard mereceu igualmente o reforço de Stephen Schilling, ex-Chargers.

Defensive Ends

O mais importante, numa posição que foi fortemente reforçada, o ano passado, foi conseguido, com a renovação contratual de Michael Bennett. O DE mereceu um contrato de 4 anos, de 28,5 milhões (16 dos quais garantidos). Bennett foi, provavelmente, o melhor defensive lineman de Seattle, em 2013, realizando uma notável época e sendo crucial nos playoffs. O movimento, logicamente, originou o inverso, noutras situações pendentes. Os Seahawks disseram adeus a Red Bryant e Chris Clemons, dispensados por causa do famigerado cap space.

Defensive Tackles

Uma perda a declarar, com a saída de Clinton McDonald, que assinou com os Bucs mas, tal como descrito no início do artigo, nesta fase as decisões tomadas estão intimamente relacionadas com a qualidade como elemento diferenciador. Nessa análise individual, entre dois defensive tackles que podiam sair, os Seahawks preferiram a manutenção de quem lhe conferia mais garantias. Tony McDaniel (novo contrato de 2 anos e 5,75 milhões) pode não ter tido o impacto em 2013 de McDonald, mas é melhor run-stopper.

Linebackers

Nada de muito relevante a acrescentar. O’Brien Schofield, que era free agente, assinou pelos Giants, mas não cumpriu os rsquisitos físicos, levando à quebra do contrato. É possível que, pelo preço certo, possa regressar a Seattle para mais um ano. Mike Taylor, que foi colega de Russell Wilson em Wisconsin em 2011, assinou por 3 anos, num contrato de 1,5 milhões. Taylor não foi draftado em 2013 por ter sido submetido a uma intervenção cirúrgica, tendo posteriormente entrado na practice squad dos Seahawks.

Cornerbacks

Um dos sectores mais sólidos da equipa, em termos de qualidade e quantidade, será colocado à prova, em 2014. Brandon Browner, que foi o parceiro ideal de Richard Sherman em 2012, saiu para os Patriots, depois de perder parte da temporada de 2013 com lesões e suspensão. É, independentemente do prisma por que seja visto, um rude golpe na secundária de Seattle, que viu igualmente partir Walter Thurmond para os Giants. As saídas deverão ultimar aquilo que se aguarda, há algum tempo: uma extensão contratual para Sherman, que será free agente no final de 2014. Sem estes dois elementos, sobreviverá a unidade? Correndo o risco de precipitação, a secundária teve elevados índices de aproveitamento por um conjunto de factores, onde se englobam o pass rush na DL, que evitou exposição contínua dos corners e safeties, e também por ter levado à letra a expressão do “next man up”. Com Browner e Thurmond a perderem tempo de jogo, os Seahawks puderam testar com sucesso a profundidade da unidade, conseguindo extrair o melhor de Byron Maxwell e Jeremy Lane.

A esse duo junta-se a única aquisição até ao momento, o CB Philip Adams, uma cara conhecida na cidade, dado que foi parte integrante da secundária dos Seahawks em 2011. Adams, que jogou nos 16 jogos dos Raiders, no ano passado, assinou por 635 mil e 1 ano.

Safeties

O núcleo duro permanence estabilizado, com a única saída (para os Eagles) a ser Chris Maragos. A franquia renovou com Jeron Johnson, que perdeu a maior parte de 2913 por lesão, num movimento apenas tendente a dar substância ao corpo. A equipa trabalha, tal como no caso de Sherman, numa extensão que visa aumentar o tempo de permanência de Earl Thomas no clube. Thomas poderá ser free agent no final da próxima temporada.

Special teams

Renovação esperada para Steven Hauschka, um dos melhores kickers da prova (3 anos e 9 milhões) e a adição de um long snaper vindo do Canada (Jorgen Hus) que lutará pela posição com Clint Gresham.

Ora, isto tudo somado dá a bonita soma de:

Jogadores perdidos — Nove (Tate, Giacomini, Bryant, Clemons, McDonald, McQuistan, Maragos, Browner and Thurmond).

Indeterminado — Robinson e Schofield, que permanecem na free agency ainda.

Jogadores renovados ou com contratos reestruturados — Dez (Rice, Bennett, Hauschka, Miller, Johnson, Jeanpierre, Baldwin, McDaniel, Jackson, McCoy).

Jogadores contratados — Oito (Taylor, Matthews, Price, Adams, Hus, Van Roten, Schilling and Beckum).

Artigo inspirado no original de Andy Benoit para o mmqb.si.com

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.