Browns @ Ravens: Super Bowl? Não é uma Utopia em Baltimore

Paulo Pereira 2 de Outubro de 2012 Análise Jogos NFL Comments

Cleveland Browns at Baltimore Ravens

1 2 3 4 F
Cleveland Browns 0 7 3 6 16
Baltimore Ravens 0 9 14 0 23

Super Bowl? Não é uma Utopia em Baltimore

Os Baltimore Ravens são uma equipa resistente. Pode parecer algo condescendente e inapropriado escrever tal coisa, sobretudo depois duma vitória pouco expressiva sobre os Cleveland Browns, actualmente saco de pancada de toda a gente. Mas a resiliência duma equipa, muitas vezes, diz tudo quando ao carácter que possui. Estes Ravens, universalmente reconhecidos como uma equipa dura e agressiva, lidou com muita coisa, nos últimos tempos. Perdeu o seu melhor jogador na defesa, eleito jogador defensivo do ano, em 2011. Terrell Suggs, vítima de infortúnio, privou a equipa da sua habilidade especial: infernizar a vida aos quarterbacks. Depois disso, Art Modell, o antigo dono e uma verdadeira instituição no estado, idolatrado por ter levado o futebol para Baltimore, faleceu, privando a franquia duma referência. Se estes são golpes fortes, mas aparáveis, como se lida com a morte prematura do irmão de Torrey Smith, uma das estrelas em ascensão? Com união, vincada em cada gesto, expressada em cada jogada. Estes Ravens, ao invés de enfraquecerem com os golpes, encontram nos mesmos uma hipótese de insuflarem o ânimo. E depois, 4 jogos em 17 dias. 4 jogos duros, viajando por metade do País, lidando com lesões, contusões e corpos doridos. Apesar disso, onde estão eles? Pois. Lá no topo. Graças a vitórias destas, feias mas preciosas. Vão 13 consecutivas, em casa, a maior série actual na NFL.

No polo oposto, os Browns estão 0-4, pela 4ª vez na sua história. Com um quarterback rookie, um running back rookie, um corpo de receivers onde pontificam dois rookies (Josh Gordon e Travis Benjamim) e um right tackle rookie, aliados à perda de Phil Taylor, defensive tackle precioso contra o jogo corrido e ao castigo de Joe Haden, um dos melhores cornerbacks da liga, não se poderia exigir muito mais à equipa. A qualidade está lá, em alguns postos nucleares. Mas com ela coabita a inexperiência, a juventude e a falta de maturidade. Estes Browns, sem vitórias, caem de pé. Pode parecer pouco, mas poderá ajudar a cimentar um núcleo coeso para o futuro. Desde que, claro, a estabilidade seja conseguida e continuem a acreditar em Brandon Weeden.

O Jogo

Nota prévia, difícil de assistir em qualquer outra competição: uma standing ovation com a entrada em campo dos árbitros regulares. Um momento arrepiante, pelo que encarna no próprio espírito da competição. Pese todo o folclore habitual dos assobios, apupos e insultos light, os fãs respeitam os árbitros, como parte integrante do próprio jogo. Uma lição a reter…

Browns vs Ravens Highlights

Highlights do Jogo entre os Cleveland Browns e os Baltimore Ravens

1º Período

Um inglório e pouco usual 0-0 no marcador, numa enfadonha sucessão de punts, prova da superação defensiva sobre os ataques. Nada de relevante a reter.

2º Período

Hostilidades abertas. Os 9 primeiros pontos foram favoráveis aos Ravens. Primeiro, numa parceria habitual e que ameaça tornar-se em dinastia. Flacco to Smith começa a ser uma expressão corriqueira, vincando mais um touchdown. Desta vez, um passe de 18 jardas. Justin Tucker, um dos kickers da nova geração, colocou o marcador em 9-0 ( os Ravens procuraram a conversão de dois pontos, no pós-TD, tendo falhado), num field goal de 45 jardas.
Na melhor drive do jogo, para os Browns (11 jogadas e 94 jardas percorridas), Trent Richardson capitalizou a boa condução do ataque por Brandon Weeden, finalizando uma corrida de 1 jarda, colocando os Browns ameaçadores na perseguição do resultado. Intervalo com um inesperado 9-7.

3º Período

Flacco, gizando o ataque com mestria, levou os Ravens da sua linha de 12 jardas para a red zone. Aí, perante a falta de opções, optou por uma simulação de corpo, tirando Scott Fujita da jogada, e marcando em corrida. Responderam os Browns, no início do espectáculo Phil Dawson. No seu 1º field goal acima das 50 jardas (51), o kicker coloca o marcador em 16-10.

O momento crucial do jogo, que provavelmente sentenciou o destino de ambas as equipas. Brandon Weeden tentava encurtar distâncias, mas viu o seu passe ser interceptado pelo cornerback Cary Williams. Este, colado à linha, ficou com uma avenida à sua frente. 63 jardas depois comemorou o seu 1º touchdown entre a elite.

4º Período

Browns vs Ravens

Greg Little, wide receiver dos Cleveland Browns falha o passe e o cornerback Baltimore Ravens dos Baltimore Ravens celebra
Fonte da Imagem: Patrick Smith/REUTERS

Aplausos para os Browns, que não desistiram, mesmo num ambiente saturado de hostilidade. O esforço ficou curto, mas deu para preocupar os espectadores e todo o staff técnico dos Ravens. Duas drives que culminaram em pontapés certeiros de Phil Browns, de 50 e 52 jardas. 23-16 no final e a prova de que estes Browns, mesmo perdendo, conseguem ser competitivos.

As Nossas Escolhas

MVP: Anquan Boldin, pelos motivos explicados acima. Joe Flacco aproveitou a ausência de Joe Haden para massacrar o lado direito da secundária dos Browns, com Boldin a revelar toda a sua gama de recursos. Não sendo um receiver que faça da velocidade a sua principal característica, supre isso com uma qualidade insuspeita na separação que cria, no momento decisivo, sobre o conernarback. Todas as suas nove recepções foram um exemplo de como se deve agir, naquela zona do campo.

Positivo: Nos Ravens, Cary Williams, cornerback, apontado por muitos como o elo mais fraco na defesa dos Ravens, sacudiu a pressão e fez a sua primeira intercepção retornada para touchdown, numa corrida desenfreada de 63 jardas. Anquan Boldin esteve imparável, abusando da secundária dos Browns e conseguindo 9 recepções, algumas de elevado grau de dificuldade. Foram 131 jardas conseguidas pelo veterano, copiado na boa exibição pelo outro wide receiver titular. Torrey Smith, ainda a carpir o luto pelo irmão falecido, tornou a ser um quebra-cabeças para a defesa, pela sua velocidade estonteante. Mais 6 recepções, 97 jardas e um touchdown, numa mostra de quão tem evoluído. A sua capacidade de resguardar a bola tem tido notórias melhorias. Haloti Ngata, o pilar defensivo dos Ravens, tem tido um início de ano majestoso. Sem Terrell Suggs para gerar pressão, a equipa adaptou-se a outra forma de jogar, que torna Ngata o núcleo da acção. Fantástico contra o jogo corrido, não se limitou a esse papel, infernizando a vida a Alex Mack, o center dos Browns, a quem bateu de forma regular para injectar pressão sobre Weeden.

Nos Browns, Trent Richardson, o running back, continua a evoluir favoravelmente, num cenário pejado de dificuldades. Sem muito espaço para correr, contra a sólida defesa dos Ravens, Richardson foi a principal ameaça dos Browns, quer usando o jogo corrido (pífias 47 jardas), quer fugindo do backfield e recepcionando a bola. Conseguiu um novo touchdown, levando agora três jogos a marcar. Phil Dawson, o kicker veterano, é um dos mais fiáveis da NFL em longa distância. Três oportunidades concretizadas em três tentativas acima das 50 jardas (50, 51 e 52 jardas), mantiveram os Browns na corrida pela vitória até ao último suspiro. Jabaal Sheard, defensive end a entrar na sua segunda temporada, tinha vindo a desiludir quem acompanhou a temporada de rookie magnífica que realizou. Contra os Ravens, no entanto, capitalizou o facto de defrontar Kelechi Osemele, o right tackle rookie dos Ravens, para finalmente conseguir ser pressionante. Durante a noite toda conseguiu ser disruptivo, apontando um sack e vários hits em Joe Flacco. Brandon Weeden, o quarterback, mesmo tendo uma pick-6, teve bons momentos, denotando coragem em arriscar vários passes longos. Não fosse a notória inépcia dos seus receivers (7 drops em bolas recepcionáveis) o resultado do encontro poderia ter sido bem diferente.

Negativo: Dennis Pitta, o tight end dos Ravens que vinha numa sucessão de bons jogos, teve uma noite para esquecer. Sem recepções, coleccionou bolas falhadas e falsas partidas, que custaram jardas à equipa, para além da inutilidade revelada como bloqueador.

Greg Little, wide receiver dos Browns, consegue alternar o bom com o mau. O talento, nota-se, está lá, em doses concentradas. Hábil nas rotas e na diferenciação que consegue criar, em relação ao marcador directo, torna-se uma incógnita no momento da recepção. É capaz da mais acrobática recepção para, depois, falhar na bola mais fácil. A noite dele foi pontuada por essa inconstância. Bolas falhadas, em alturas cruciais, como no 4º período, com Weeden a encontra-lo na end zone, num potencial touchdown que colocaria o resultado num 23-20, para Little deixar cair a bola na queda. Inglório. A secundária dos Browns viveu uma noite atormentada, constantemente colocada sob pressão pelos passes de Flacco. Sem Joe Haden, o caos ficou instalado, com Boldin e Smith a capitalizarem para mais um jogo em grande.

About The Author

Paulo Pereira

O meu epitáfio, um dia mais tarde, poderá dizer: “aqui jaz Paulo Pereira, junkie em futebol americano”. A realidade é mesmo essa. Sou viciado. Renascido em 2008, quando por mero acaso apanhei o Super Bowl dos Steelers/Cardinals, fiz um reset em [quase] todos os meus dogmas. Aquele desporto estranho, jogado de capacete, entranhou-se no meu ADN, assumindo-se como parte integrante da minha personalidade. Adepto dos Vikings por gostar, simplesmente, de jogadores que desafiam os limites. Brett Favre entra nessa categoria: A de MITO.