O Artigo de Klemko, o Hold Out de Chancellor e o Futuro da NFL

João Morão 20 de Setembro de 2015 Jogadores, NFL Comments
Kam Chancellor

O Artigo de Klemko, o Hold Out de Chancellor e o Futuro da NFL

O MMQB (Monday Morning Quarter Back) é uma referência para mim desde que me lembro de seguir este jogo. Tanto em papel como agora no site em plataforma digital faz anos que por ali passo todas as semana e por ali me demoro um bom par de horas a alimentar a minha opinião ou meu amor pelo jogo.

Esta semana na minha regular peregrinação ao site deparei-me com um artigo de fundo de Robert Klemko (um dos redactores de serviço) intitulado em Defesa de Kam Chancellor. Não sei se estão por dentro do tema mas passo-vos a explicar a situação em três frases: Chancellor é um dos melhores jogadores de Seattle e se calhar o membro mais importante da afamada secundária a Legion of Boom.  Há cerca de 2 anos assinou uma extensão de contracto até 2017 no valor global de cerca de 28M€. Agora no início da época de 2015 não apareceu na pré-epoca e faltou ao primeiro jogo numa tentativa de pressão de renegociar a seu favor o contracto em vigor.

Explicado o contexto vem agora a o pequeno parágrafo para confissão, desabafo, frustração, que eu com cego e fanático adepto dos Seahawks me sinto no direito de fazer:

Esta me%&a é típica de jogadores cheios de massa no bolso. Tem um contracto de 28M€ numa equipa que lhes pode dar títulos e quando mais precisamos deles. Pimba! Ou me pagam a massa ou não jogo! E o pior é que por causa deste Ca%$ão já embrulhamos com os Rams e é quase certo que vamos embrulhar com os paspalhos dos cabeças de queijo! Mercenário de Me&%a! Mas que se lixe se é mercenário ou não! Paguem mas é ao gajo para ver se de uma P&%a de uma vez eu deixo de passar a vida a olhar para os sms do bleacher a ver se já resolveram esta me&%a e se começamos a meter a equipa nos eixos para ganharmos alguma coisa. Parece que somos os nossos piores inimigos! Fo&%sse. GO HAWKS!!!  Mas será que ganhamos sem ele!? Claro que ganhamos. Temos que ganhar!!! Ou não?? Será!? Mãmã!!! Onde é que está a minha Mãmã!!! Quero que isto acabe!!!!!

Passado o parágrafo que qualquer imbecilóide fanático de um clube como eu tem “direito” de fazer e isolando-nos do folclore exacerbado e alimentado por exageros descontextualizados ad náusea do circo mediático da máquina de comunicação da NFL, vamos centrar-nos antes e sem ruído nas razões mais profundas e estruturais do tema que descem às entranhas e futuro do jogo.

Junto o artigo do artigo de Robert Klemko que essencialmente defende a tomada de posição do Chacellor baseando-se nas seguintes linhas:

Em relação à liga:

  • A NFL tem contractos a que não estamos habituados. Pois não se trata de um contracto de simples transacção onde se tem garantias de 100% sobre o valor negociado.
  • No Basebol, Basquete e outros desportos os contratos são particamente garantidos e aqui não são.
  • NFL gera muito dinheiro bilhões de dólares assente em contactos fixos com outros parceiros e entidades.
  • Se Chancellor ganhar esta guerra contractual aos patrões da NFL, este podem ter que ceder em toda a linha e ser obrigados a seguir contactos com os jogadores que deixam de ser unilaterais em proveito mas antes passam a acautelar as posições de ambas as partes.

Em relação à equipa e ao jogador:

  • Os Seahawks (como todas as equipas) dispensaram muitos jogadores com contractos ainda por terminar e potencialmente dinheiro para receber.
  • Muitos destes jogadores tinham contractos de um ano ou mais, e acabaram por não ficar porque desportivamente não tinham lugar na equipa ou então porque se aleijaram e foram dispensados.
  • Que a posição de Safety é onde existem mais lesões e que inicialmente o contracto que Chancellor assinou foi para ser um Quarter Back sendo passado a Safety no College.
  • O jogador deve receber mais porque está numa posição que se pode aleijar e apenas se quer precaver caso se aleije.
  • Insinua depois Klemko que caso o dinheiro que os jogadores recebam seja fixo que os patrões acham que estes vão estar menos disponíveis a aleijar-se em campo. Isso não se aplica ao Chancellor pois este joga muitas vezes aleijado e é muito dedicado.
  • Que ele é dos melhores do mundo na posição dele e que os colegas de equipa percebem a posição dele e não estão chateados com ele. Não o acham mercenário.
  • Finalmente porque o Chancellor vale o dinheiro que pede.

Em relação ao perfil de Chancellor:

  • Que ele não é egoísta e vem de famílias humildes e passou por profissões humildes para ajudar a mãe solteira a ter comida em casa.
  • Além disso sempre se dedicou à equipa tendo jogado varias vezes limitado ou lesionado.

Não me vou demorar nas respostas ponto a ponto ao artigo de Klemko e menos valorizar ou justificar toda esta questão em função do perfil de Chancellor. De facto o passado socioeconómico e a personalidade do jogador é o menos interessante nesta analise e parece-me até que o artigo de Klemko usa estes argumentos de uma forma despropositada com intenções não de esclarecer mas de capitalizar simpatia. Não sendo esse o objectivo da minha leitura eu divido a análise do hold out e das questões levantadas no artigo em duas partes: A Lei do Mercado e a Defesa dos Direitos Humanos.

A Lei do Mercado:

Na parte da lei de mercado que rege a NFL a situação afigura-se como muito simples. O Chacellor em alta e com um papel fundamental na equipa, numa equipa em alta que está a pagar bem aos seus jogadores chave, está a tentar ganhar mais num contracto que foi revisto há pouco tempo. Percebo o papel do jogador que renovou o seu contracto antes de a equipa ter subido ao pico de seu sucesso e se tivesse esperado mais podia ter conseguido melhores condições.  Para mim Chancellor não é um oportunista. Está apenas a tentar capitalizar o seu valor para um patamar mais favorável do que quando renovou o contracto. Numa situação normal creio que o clube cederia, o problema é que um clube num ascendente de sucesso como os Seahawks não está a viver numa condição normal.

Para Schneider e Carroll nos Seahawks conseguir em manter uma equipa competitiva com tantos e tão bons jogadores é um pesadelo em termos de limitações de cap space. Mas mesmo que consigam gestão de cap space têm o gigantesco problema de outros jogadores que ou estão insatisfeitos com o contracto actual (Bennett, KJ Wright, Graham) ou mesmo o0s que renegociaram chorudas extensões contractos (Wagner, Thomas, Sherman, Wilson) a curto prazo podem novamente pedir melhores condições criando permanentes conflitos que vão destruir qualquer possibilidade de gestão construtiva por parte do clube.

A questão base e principal deste hold out é: O Chancellor merece cada cêntimo que pede e os Seahawks teriam todo o gosto em lhe pagar. O problema é que o precedente de gestão nesta altura tornaria a curto prazo o clube ingovernável.

Depois e tirando este ponto essencial vêm os fait-divers do artigo de Klemko que nada de útil ou razoável acrescentam à questão a não ser um chorrilho de disparates: É falso que os contractos da NFL não são justo. A parte fixa e variável é negociável e difere muito nos contractos feitos. É estúpido dizer que os clubes não têm “amor” pelos jogadores quando os dispensam pois igualmente os jogadores não têm “amor” pelos clubes quando têm melhores condições noutros lados (Tate, Suh e especialmente Revis são bons exemplos). O que Klemko parece esquecer nas suas conclusões unilaterais e desviadas é que existe uma lei do mercado que dá para os dois lados num princípio de oferta e procura.

Este fundamento de oferta e procura não é a base do capitalismo totalitarista maldoso dos patrões mas sim de toda a economia com princípio primário, básico e funcional.

A Defesa dos Direitos Humanos:

Mas foi ao defender que Chancellor merece o dinheiro porque já jogou muitas vezes lesionado e que a posição dele é muito arriscada e que por isso merece ser pago, que a posição de Klemko me chateou e me fez pensar no tema mais a fundo.

Para ser honesto, quando cheguei a este ponto no artigo deixei de ficar apenas com a ideia que o artigo tinha sido encomendado pelo jogador ou pelo sindicato de jogadores e concluí que o homem é estúpido. Aceitar ou insinuar que um jogador, por jogar numa posição onde se magoam muito, possa jogar aleijado e que por isso deva ser melhor pago… É capaz de ser o argumento mais estúpido e imbecil que eu li até hoje sobre Futebol Americano.

A vida e bem-estar de um jogador não tem preço. Tem que existir a montante uma preocupação básica que ninguém se aleije e menos que jogue aleijado seja em que posição for e ganhe o que ganhar. Klemko ao assumir a posição que assumiu coloca em risco o jogador. Torna-o carne para canhão. E isso é muito estúpido.

Não sou ingénuo em pensar que os patrões e treinadores das equipas não fazem todo o tipo de pressões e muitas vezes tomam decisões em função de pressionar um jogador a ir para dentro do campo aleijado. Acredito até que situações destas acontecem directa ou indirectamente todos os fins-de-semana nas equipas. A história do processo que levou a NFL a aceitar as concussões como um facto real demostra até má-fé básica e graças a deus custou-lhe milhões pela prepotência e autismo arrogante primário com que conduziram o processo.

Do lado dos jogadores quando toca a responsabilidades, eles também não saem isentos pois a lógica de alta competição é bastante diferente da lógica do comum cidadão. Existe um estudo feito a atletas profissionais e não profissionais que pergunta se estão dispostos a tomar ou fazer algo que lhes permita ganhar a curto prazo mas que pode ter efeitos secundários posteriores  que os pode vir a matar. 100% dos atletas não profissionais disseram que não. Já a maioria dos atletas profissionais disseram que sim. Esta lógica de ganhar a qualquer custo tem que ser erradicada do desporto. No Futebol Americano pelo tipo de desporto que é e pelo ambiente que se vive este extremismo é pior! A maioria dos jogadores não só se sujeita a uma lógica de auto flagelação, mas adicionalmente e infelizmente são também famosos os usos e abusos que se praticam em campo com intenção de aleijar colegas para se ganhar vantagem. Tudo isto para gaudio final dos últimos responsáveis: Nós os espectadores e adeptos que pagamos o bilhete de circo máximo e só ficamos contentes com o sangue dos gladiadores.

Na minha visão os exageros têm que parar. Se alongamos esta espiral só vamos ter baixas e para bem de quem gosta do jogo esta lógica tem que mesmo parar. Neste momento todos corremos o risco de sair derrotados.

O Futuro do Jogo:

A meu ver só há uma maneira de evitar os exageros que se vivem à volta do jogo e da influência que ele tem na vida de quem dele depende e a quem a ele assiste: Temos que conseguir equilíbrio e temos que afastar os extremismos e radicalismos de cena.

Não podemos ter um jogo entregue à liga e patrões num princípio de uso e abuso das leis do mercado puxando situações limites onde tudo vale, assim como não podemos ter jogadores e um sindicato em patamares de vitimização hipócrita sustenta em força associativista para beneficio e controlo poder. Se continuamos assim o jogo vai ser destruído quer por excesso quer por defeito. Será uma autodestruição escondida sobre uma turba de adeptos fanáticos que apenas vêm sem crítica a razão nas suas cores.

Então como evitar isto? Para mim a solução é simples. Eu defendo a criação de um tribunal arbitral desportivo que aja com poderes constitucionais sobre as partes. Uma entidade reguladora composta por juízes profissionais que arbitre ao ritmo das necessidades do jogo com critério legal e jurisprudência as suas disputas.  Com a criação desta nova entidade o poder continuaria nos patrões. A glória continuaria nos jogadores e de alguma maneira a isenção do tribunal arbitral deveria desvanecer o radicalismo dos adeptos sem alvo concreto para atingir ou conspiração inverosímil para justificar.

O Hold out de Chancellor é um bom exemplo de extremismo de partes e de posições que têm que se regular defendendo o jogo mas acima de tudo o bem-estar de todos os intervenientes. Acrescentem ao hold out do Kam a regulação de todos os temas laborais. Metam aqui o Deflategate, Spygate, Babygate, Adderallgate, e outros gates. Metam também as regras de defesa do bem-estar dos jogadores e da espectacularidade jogo. Finalmente acrescentem o fim de Roger “Judge Dreed” Goodell o Júri e Executor da NFL de onde tantos, mas tantos problemas, incoerências e injustiças têm nascido.

A boa regulação ajuda e acaba com os exageros. Se o jogo ganhar, todos temos a ganhar.

About The Author

João Morão

As causas são múltiplas: Primeiro em 1998 colocado pela minha empresa na Alemanha, passei alguns fins-de-semana a jogar flag futebol numa base militar americana maioritariamente com a boa gente de Seattle. Desta altura vem o gosto. Depois em 2005 em Jackson Hole (Wyoming) assisti em directo à transmissão do Super Bowl XL dos meus Seahawks contra os Steelers. Foi um jogo de má memória e de pior arbitragem que me deixou um amargo permitido apenas pela perda de algo de que gostamos muito. Desta altura vem a militância. Finalmente: A desilusão e desgaste causado pelas assimetrias, manobras, golpadas e falta de fair-play do soccer, viraram-me definitivamente para um desporto mais justo, mais sério, mais competitivo, mais brutal (é certo), mas de maior entrega e de incomparavelmente maior emoção: O Futebol Americano. Nas horas “vagas” sou pai de 4 filhos (Um deles é dos Giants vai-se lá saber porquê!?).