NFL Draft 2015 for Dummies – Parte 3
Obrigado por terem esperado. Em troca dessa fidelidade canina, trago mais umas pérolas de sabedoria. Ou seja, aqui lerão aquilo que não interessa a ninguém. Meus caros, o que se segue é uma caldeirada de lugares-comuns, debitados com algum chico-espertismo à mistura, com pequenas fatias de humor. Ou, para ser mais correcto, tentativas patéticas de humor. Sim, é o regresso do Paulo Pereira. O Mark Sanchez da escrita. Bolas, estou com um humor insuportável.
Leonard Williams é o novo JJ Watt?
Ora. Bela pergunta. Tudo depende da comparação e do que é comparável. Adoro estas tiradas. Um tipo passa por inteligente, sem dizer nada de concreto. Estou aqui, estou a largar isto e a meter-me na política. Voltando ao Leonard. E ao JJ Watt. O Leonard é melhor…se o termo de comparação for fumar ganza. Para quem não sabe o que é – e duvido que esse termo exista no léxico brasileiro – “fumar ganza” é uma expressão tipicamente tuga, algo pejorativa, que coloca um rótulo virtual naqueles que gostam de marijuana. O bom do Leonard aparenta ter aquele tipo de inteligência idêntico a uma ameba. Não há outra forma de contornar a questão. Mas quem é que é apanhado num controlo anti-doping no Combine? Quer dizer, a vida dum jogador universitário é algo ingrata. Sim, têm aquele glamour de estrelas, semi-deuses que são reverenciados pelos outros alunos da universidade – e nem sequer falo das gajas, que devem ficar caidinhas por eles – mas…não ganham nada. A NCAA tem uma visão algo retrógrada, com uma espécie de disciplina vitoriana que mantém os grossos proveitos nas mãos de todos, menos de quem dá o corpo ao manifesto: os jogadores. Andam eles ali, semanalmente, a dar e a levar hits violentos, de graça, mas almejando o paraíso, que não é mais do que ser draftado e entrar na NFL. Leonard Williams granjeou uma reputação tremenda, de playmaker. E quando está prestes a colher aquilo que semeou, podendo ser uma das mais altas escolhas do draft (e o lugar em que são escolhidos tem óbvias repercussões em termos financeiros)…é acusado de ter fumado marijuana? Porra. Isto não é um tiro no pé. É um tiro no pé, com uma caçadeira de canos serrados, com balas estilhaçantes e que provocam dor extrema (sim, ando a ver demasiados filmes gore). É, no fundo, uma péssima imagem que é dada aos futuros empregadores. Numa altura em que a NFL aperta a malha a todos os comportamentos desviantes, o cartão-de-apresentação do defensive tackle é mostrar imaturidade, irresponsabilidade e mais uns termos acabados em “ade”. Tirando esse pormenor, e frisando a ideia que nunca é bom entrar em comparações, Williams é AINDA um dos mais apetecíveis atletas no draft, que pode ter um impacto imediato e ser a pedra basilar em redor da qual se constrói uma defesa. Ao bom estilo dos Raiders com Khalil Mack. Williams pode ser um tackle em 4-3 ou um end em 3-4 (daí as comparações com Watt). Possui aquela combinação rara de técnica e poder, em estado bruto, possuindo um arsenal de movimentos que o tornam um caso sério para ser bloqueado. Será giro vê-lo na NFL, enfrentando as duras linhas ofensivas. MAS PRECISAS DE PARAR DE FUMAR ESSAS COISAS, LEONARD.
Há Mais Prospects Interessantes para a Defesa?
Mas que raio de pergunta é essa? Então não têm acompanhado os destaques diários que o Hugo Teles tem feito na nossa página? Claro que há mais destaques. E muitos. Temos, por exemplo, o Danny Shelton. Um aviso. Não se queiram encontrar com este tipo, num beco escuro. É assustador, fisicamente. Parece um gorila com a pituitária cheia de esteróides. É o que dá ter 350 pounds (façam a conversão para quilos, que não tenho paciência para isso) e ser defensive tackle de profissão. Já sei. Nesta fase estão a olhar para o peso, com aquele ar meditativo, e a pensar: “mas o tipo consegue correr com aquela gordura toda?”. É pertinente a questão, mas o bom do Shelton é ágil, por muito que isso possa parecer impossível. Não lhe peçam para correr desabridamente 300 metros. Mas para ser disruptivo, meus amigos, ele tem uma velocidade surpreendente. Tê-lo na nossa DL é o equivalente a sermos amigos pessoais do Mr.T, do Soldados da Fortuna. ‘Tão a ver? Um tipo sente-se invencível, ao lado dum colosso. Temos tendência a ser bullies. Uma DL com Shelton vai ser mazinha, no sentido de atazanar o juízo aos opositores. Fujam e tranquem-se em casa. É o melhor conselho que ganharão hoje.
Depois, temos os pass rushers. E o draft promete ser um festim para quem procura esse género específico de jogadores. Há vários, naquela orla das 245 pounds, que os tornam “pequenos” para serem defensive ends num 4-3, mas perfeitos para outsider linebackers em 3-4. Jogadores versáteis, ágeis, dinâmicos, que trazem o terror lá de trás. À cabeça, Randy Gregory. Vem de Nebraska, que possui aquela aura (um bocado inflacionada) de ter bons prospects defensivos. O Ndamukong Suh veio de lá. Dependendo do mock draft, o Randy Gregory aparece como potencial pick top-10. Parece, segundo alguns scouts, um pouco unidimensional. Ou seja, ataca apenas o quarterback, onde é capaz de bater com regularidade o tackle que lhe calha na rifa, vindo do edge. Tem na panóplia de skills alguns inside moves, mas dizem os entendidos que pode ser frustrado com um double-team ou uns chip blocks. Não se deixem no entanto levar por estes preciosismos apaneleirados dos scouts. Bruce Irvin, dos Seahawks, também é esculpido desta forma. Mas faz o que lhe compete. Acumula pressões e sacks. Nos dias de hoje da NFL, isso é precioso. Randy Gregory vai sair cedo, ser felicitado pela mãe em lágrimas, provavelmente vestindo uma berrante combinação de cores e será um dos destaques na preseason. Até se lesionar. Mas isso sou eu a ser melodramático e levado pela quantidade de vezes que o rapazinho se aleijou no college.
Shane Ray, proveniente de Missouri, é outro dos aclamados pass rushers provenientes desta fornada. Antes de tudo o mais, gosto do nome. É simples de memorizar e parece um daqueles astros do cinema da década de 60, que estrelavam os western spaghetti. Isso ou deixo-me levar demasiado pela minha imaginação. Tenho que voltar a tomar a medicação. É mais multifacetado do que Randy Gregory. Dizem que reconhece as jogadas do adversário de forma rápida e tem velocidade e agilidade para mudar de direcção num mísero instante. Tem tudo para ser um potencial Pro Bowler, como OLB.
Alvin Dupree. Kentucky. Não resisto a mais um aparte, mas o nome do tipo é propício a isso. É tipicamente saloio, daqueles americanos estereotipados em filme, do interior dos States. Uma espécie de redneck, que vive no meio do pântano e é papalvo até à medula. Se depois deste comentário claramente preconceituoso não for posto a andar do blog é porque a malta é mesmo tolerante. Dupree sobressai dos nomes anteriores por ser capaz de cair em coverage com competência, o que o torna especial. Não tem estatísticas glamourosas, em termos de sacks, mas é polivalente.
Arik Armstead. Não. Não vou dizer nada quanto ao nome. Este é um espécime diferente, um dos que entra na reduzida galeria de freaks. 6’7’’ de altura e perto de 300 pounds de peso? Combinação rara e assustadora. Tem atleticismo e força, mas parece um projecto para ser lapidado por mãos experientes. Compreende-se o porquê. Armstead andou indeciso entre os programas de basquetebol e futebol em Oregon, ora enamorado de um, ora deixando-se seduzir pelo outro. Não parece talhado para ser um defensive end, onde a sua altura pode ser um obstáculo, nem tem corpo para ser movido para o interior, como tackle. Mas atrai as atenções porque parece ter um potencial ilimitado. Se cair em boas mãos, pode ser um caso sério…
Outro que merece alguma atenção mediática é Shaq Thompson, de Washington. E a este vi-o jogar, em algumas ocasiões. É linebacker…e também running back, com jardas suficientes para fazer corar alguns que fazem da corrida a sua profissão. Ah…e também é safety. Não estou a gozar. O miúdo desdobrou-se em tantos papéis que havia dias em que andava tão confuso que nem sabia quem era, ou como se chamava (just kidding). Na NFL, Shaq vai ser linebacker e já fez saber isso. Pode ser uma excelente adição para uma defesa de 4-3 que precise dum LEO, um daqueles que podem defender a corrida ou cair em cobertura, seja dum slot receiver ou de um tight end. Shaq parece ter as ferramentas necessárias para cumprir a função com competência…mas. É um grande MAS. O seu tempo nas 40 jardas no Combine e, depois, no seu Pro Day, não foi famoso. E dizer isto é um eufemismo. Shaq não parece rápido. E isso, para quem tem que ter agilidade e velocidade sideline a sideline, pode fazer esfriar o interesse de algumas equipas.
Há Cornerbacks tipo Plug & Play?
Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.
Primeiro ponto: Não há um destaque unânime nesta classe, alguém que sobressaia e por quem os corações batam desenfreadamente.
Segundo ponto: Os últimos drafts, salvo raríssimas excepções, estão cheios de busts na posição. Talvez o termo seja demasiado forte. Não são busts na verdadeira acepção do termo, mas jogadores com evidentes dificuldades para entrarem no ritmo elevado da NFL. As dores de crescimento nos rookies são normais, mas evidenciam-se mais em determinadas posições. E ser corner, hoje em dia, é jogar numa posição desgastante e onde os erros são mais visíveis – e mediatizados – do que noutros lugares.
Terceiro ponto: Existem demasiadas equipas carentes de jogadores para a secundária, por isso vão sair vários defensive backs no round 1. Mas prefiro a minha máxima de que mais vale um veterano low profile do que um rookie overrated. Mas isso sou eu, que trabalho das 9 às 17 e não percebo patavina disto.
Trae Waynes tem nome (here i go again) de rapper, mas dizem que joga como cornerback. Só vendo para crer. Tem 6’1’’, o que na posição pode ser considerado alto. Tem qualidade, mas isso é no college. Quando um Tom Brady, um Aaron Rodgers ou um Russell Wilson o elegerem como alvo, durante LONGOS 60 minutos, o mais provável é que se amontoem as imperfeições, as penalidades (repito, ser corner hoje em dia é fodido, para falar em português que todos percebam) e o pobre do Waynes suplique para ser substituído. Mais vale simulares uma lesão e sais com a reputação semi-intocada.
PJ Williams tem pedigree. E um anel de campeão, obtido nos Seminoles. É alto e inteligente. Não sou eu que o catalogo assim. Li isso numa declaração do seu treinador. E verdade seja dita, o homem disse aquilo com seriedade, parecendo acreditar mesmo no que dizia. É uma potencial escolha do 1º dia do draft e aparenta poder ser uma aposta consistente em qualquer secundária. Mas devia vir, tal como os outros, com um aviso tatuado na testa: Por favor, não usar de imediato. A sério, custa ver os miúdos, como o Dee Milliner, perdidos em campo, abusados vezes sem conta durante um jogo. E falo no Milliner, escolha top-10 dos Jets, que foi treinado por um mago defensivo e com um forte background de extrair o melhor dos seus defensive backs, como o Rex Ryan. Se isso lhe aconteceu a ele…
Marcus Peters. Geralmente, à frente do nome, gosto de colocar a proveniência. Neste caso, hesitei. De onde vens tu, rapaz? Peters aparece no draft com um néon, daqueles de cores berrantes, por ter sido (wait for it)…dispensado da sua universidade. Jogando em Washington e sendo altamente apreciado, o jogador achou que era bom ideia entrar numa altercação, que envolveu o uso de uppercuts e socos menos convencionais, com um treinador assistente. O resultado, para além de nódoas repartidas entre o duo, foi Marcus Peters ficar “desempregado”. No cada vez mais puritano mundo da NFL, qualquer comportamento tido por desviante é escrutinado ad nauseum. Tirando esse pormenor, Peters parece ter todos os intangíveis necessários para vencer, ao mais alto nível. Peters é forte, terrivelmente competitivo e eminentemente físico nas marcações.
Quem São os Melhores a Proteger os QBs?
Se querem saber isso, com todo o relatório associado, comecem a ler o Mike Mayock. O homem não dorme e conhece qualquer jogador que jogue nos Estados Unidos, com mais de 8 anos. Sabe a altura, peso, religião, cadastro, preferência sexual, notas escolares e filiação, para além dos atributos atléticos. Ser OL, hoje em dia, é quase sinónimo de ser escolhido no round 1. Existe uma verdadeira caça ao homem nos drafts recentes, mostrando a preocupação que as equipas têm em proteger o seu bem mais valioso: o quarterback. Vai, por isso, ser comum ver offensive tackles a subirem ao palco, no primeiro dia. Aliás, torço fervorosamente para que os Vikings (se ainda não perceberam, sou fã desde tenra idade) escolham um, no dia inaugural. Qual? Já lá vamos…
A classe parece ser sólida, com talento, mas não acontecerá uma corrida ao ouro, como em 2013, quando foram escolhidos 3 tackles…nas 4 primeiras picks (Luke Joeckel, Eric Fischer e Lane Johnson). Curiosamente, nenhum deles ainda viveu para as expectativas geradas (se bem que Lane Johnson tem sido o menos mau do trio), mas a obrigatoriedade de fazerem a transição da universidade para a NFL sem qualquer demora pode influenciar o crescimento exibicional. Agora, quanto a quem eu mais gosto…
Brandon Scherff, de Iowa, é a estrela da classe. Merecidamente. Dentro de campo, é um daqueles tractores que parecem consumidos por um combustível que nunca mais acaba, jogando em altas rotações. É alto, forte, mesmo quando comparado pelo standard dos tackles. É um poderoso blocker que, com a sua presença, dá um boost tremendo ao jogo corrido. Se é um facto que a NFL não é o College, em termos de competitividade, Scherff não se intimidará com o que vai encontrar nesta nova aventura. Tem atleticismo suficiente para se bater com os mais rápidos pass rushers e pode jogar como guard. Vê-lo na OL dos Vikings, auxiliando o cada vez mais débil Matt Kalil, seria o casamento perfeito. Os purple & gold solidificariam uma unidade importante, protegendo debidamente Bridgewater e galvanizando o jogo corrido, no caso do child abuser regressar.
La’el Collins tem um nome cool. E não, não tenho qualquer fetiche com nomes, mas sempre quis ter um com hífen, ou uma vírgula ou o que raio é aquilo. É diferente. No que importa, Collins é um diamante por lapidar, com imensa margem de progressão. Segundo os scouts, que são todos uns exagerados do caraças. Se ele for como os recentes “diamantes por lapidar”, como o Eric Fischer ou o Luke Joeckel, estamos conversados. Vamos ter mais do mesmo. Ou seja, irá ser atropelado por pass rushers semanalmente, sofrer humilhações diárias, etc, etc. Mas ei, há que manter a esperança. É um diamante por lapidar. Com margem de progressão. Bullshit! Curiosamente, pese este meu desabafo, até gosto do Collins. É um gosto baseado numa simples apreciação. Vi o Senior Bowl e Collins esteve bem. Vem de LSU, que dá algum pedigree, por ser uma universidade da SEC, etc e tal. Mas, para o que importa, a classe de 2015 parece ser sólida e com várias boas opções para todas as equipas que estejam carenciadas. É de esperar algum hype em redor de algum jogador, depois do furor que Zach Martin fez no seu ano rookie. Não era glamouroso escolher um guard ou center no round 1, mas talvez a solidez competitiva de Martin, que mais pareceu um veterano de muitos anos em 2014, na OL dos Coewboys, faça definhar essa ideia. Espantosamente, o melhor guard da classe pode ser um tackle convertido à posição. Muitos apontam TJ Clemmings, de Pitt, como um exemplo de atleticismo e [wait for it] margem de progressão para se tornar um esteio na linha ofensiva. Espero mesmo que Clemmings seja melhor jogador e que a sua progressão atlética não esteja dependente do quociente de inteligência, porque o rapazola também gosta de aventuras off-the-field que não ficam bem no currículo. E pronto, c'est fini. Agora é aguardar que o tempo passe depressa e que venha o draft. Estou farto desta pasmaceira.





