O Super Bowl XLIX do Ponto de Vista de um Adepto dos Seattle Seahawks

João Morão 3 de Fevereiro de 2015 Análise Jogos NFL, NFL Comments
Seattle Seahawks Fan

O Super Bowl XLIX do Ponto de Vista de um Adepto dos Seattle Seahawks

Foi-me pedido para escrever como foi o Super Bowl XLIX  do ponto de vista de um adepto dos Seahawks.  Depois de perdermos um jogo que tivemos na mão pensei que seria difícil iniciar o artigo mas honestamente não foi. Sinto uma completa calma e segurança em relação à equipa. Um sentido de dever cumprido e admiração pelos jogadores e pela equipa técnica. Sinto mesmo uma compaixão cósmica com Green Bay e uma partilha de experiência versada no que é perder algo que facilmente estava ao nosso alcance. Mas ainda mais importante sinto um  reforço do amor pelo jogo na sua organização, emoção e justiça.

O Meu Amor pelo Futebol Americano

O meu amor pelo jogo vem não apenas por o ter jogado há muito tempo na Alemanha e por ainda ter contacto com  amigos americanos de Seattle. Vem acima de tudo por entender como caducas, tendenciosas e obsoletas algumas regras e personalidades do nosso futebol. Este facto nunca me  tirou o amor pelo Belenenses que sigo e sirvo com devoção mas, há muitos anos atrás, tirou-me o entusiasmo de ver outras partidas de futebol especialmente domingo à tarde quando chegava a casa do Restelo maioritariamente chateado com o que tinha visto em campo e fora dele.  Em cima desta frustração, encaixou o facto de que durante a época regular a jornada de futebol americano começa aos domingos às 18h e perlonga-se até de madrugada e isto dentro da minha angustia socceriana assentava-me que nem uma luva. O meu amor pelo futebol americano foi crescendo, foi-se propagando e frutificou ao ponto de criar laços com amigos que comigo seguem regularmente os jogos.

Todo o parágrafo acima tem o intuito de justificar a minha vocação de apostolo com papel evangelizador na modalidade e este fervor religioso fez-me juntar cerca de 20 amigos em casa para ver o jogo. Verdade que muitos deles foram apenas para conviver, comer e beber. Verdade que me arrisquei a uma bateria de perguntas estúpidas durante o jogo mais importante do ano e inevitavelmente vieram algumas. Mas no fim valeu a pena  porque depois de um jogo fabuloso muitos deles saíram com sentido e sentimento de verdadeiros adeptos que querem continuar a acompanhar a liga.

Sobre o Futebol Americano

Para quem me está a ler e não conhece o jogo nem a sua emoção ficam alguns exemplos com que vos quero convencer que as coisas não são tão diferentes do que estão acostumados. Senão vejam: Dizia um amigo enquanto eu argumentava sobre uma potencial falta com um adepto dos Patriots que  estava a ver o Super bowl connosco que afinal no futebol americano também existem erros e discussões . Digo para a gente nova, que evidentemente existem interpretações e decisões de arbitragens que as vezes são dúbias ou mesmo erradas. Quem entra agora e contacta com a modalidade tem que perceber que às vezes é um jogo lento e no limite não é um jogo matemático nem perfeito.  Também como em todos os desportos existem bons e maus jogos. Mas por regra é um jogo vivo, emocionante e vibrante que tem no Super Bowl, pela sua dimensão mediática,  a porta de entrada de adeptos para o desporto. Neste aspecto este jogo de Domingo foi fabuloso e inesquecível. Depois as pessoas e as bases de apoio são as mesmas que em qualquer desporto. Hoje, depois da vitória dos Patriots ao passar pelos blogs é com alguma diversão e entretenimento que noto que alguns adeptos adversários que ainda ontem se faziam de virgens mutiladas e ofendidas, estão agora inebriados pela vitória e soltos das suas inseguranças a disparar sem pejo e mesmo a ofender usando a mesmíssima contra-regra de que ontem tanto se queixavam. Querem alguma coisa mais socceriana que isto?

Em resumo, quero que percebam que quem agora entra na modalidade não está a entrar numa zona estranha e elitista apenas composta por analistas iluminados  que têm a mania de andar fora do rebanho. No futebol americano com em todos os desportos existe de tudo. Do mau, do bom e de tudo e fica o desafio: Escolham uma equipa, vejam os jogos!  Com o tempo a dinâmica do jogo vai facilmente trazer-vos a emoção que agora vos falta.

Duas notas antes de avançar. Primeira Nota: Acima dei o exemplo do mau adepto mas obviamente existe o inverso. Tenho amigos Patriots que foram meus adversários e que  ganharam com nível e classe, notou-se que a emotividade situacional não lhe toldou a razão. Estão de parabéns por uma grande vitória. Segunda nota: Em relação ao  desafio de escolherem uma equipa conforme sugeri. Se estiverem a optar de raiz escolham os Seahawks que têm um grande futuro e anunciam muitas vitórias. Não se deixem enganar pelo Brady e por esta vitória pois o homem está velho e aquilo não dura muito mais tempo!

Mudando completamente de tema e sem inocência a partir de agora escreve o adepto.

A Visão do Adepto

Para mim o jogo entre a companhia presente e a emoção sentida, foi rápido. Com o empate calculista ao intervalo e sabendo como somos fortes na segunda parte sentia que  tínhamos o jogo dominado. O terceiro quarter foi o espelho disso mesmo até o nosso ataque ter deixado de funcionar no quarto período e termos começado a ceder  aos curtos e certeiros avanços dos Patriots. New England faz uma recuperação sobre uma equipa nervosa e com azar (lesões de Lane e Avril). Não me vou alongar no jogo, mas já li algumas criticas que dizem que a defesa jogou mal. Para mim tendo em conta as condicionantes das lesões antes e durante o jogo, a defesa de Seattle esteve muito bem em campo. Além disso eu sempre soube que para ganharmos este Super Bowl teria que ser no ataque. Dito e feito,  nos últimos minutos do jogo, bem à nossa maneira, iniciamos um drive fabuloso que podia muito facilmente e muito justamente, ter-nos dado a vitória de bandeja.

Até à play call e à jogada.

Com cerca de 30 segundos,  três downs para jogar, com os time outs no bolso que podiam parar o jogo, com o melhor running back do momento da liga em campo, e a uma jarda do touch down, decidem passar a bola pelo ar para uma interception que nos fez perder.

Sobre factos todos os que vêm comentar a seguir acertam e o que veio foi muito criticismo. É normal que assim seja mas eu pessoalmente não culpo nem o Carroll, nem o Bevell pela jogada. Neste aspecto até a sinto bastante ao contrário, pois sempre fui um pouco crítico sobre o nosso conservadorismo no running game quando temos equipa para arriscar mais. O que não esperava é que o corpo técnico dos Seahawks me fizessem as vontades todas de uma vez: Arriscaram o passe e falharam. Pena termos perdido mas não os culpo. Sem querer arranjar justificações reparem que a improbabilidade da jogada era talvez o seu tónico de maior sucesso, deve ter sido este o raciocínio de Carroll.

Pena ter corrido mal.

Nota Final

Para finalizar quero frisar que este é o artigo de cunho mais pessoal que escrevi sobre futebol americano, por isso não se enganem e não fechem o meu discurso apenas na visão positiva de expansão da modalidade, pois como adepto foi muito duro perder.  No texto acima deixei a ideia que para nós adeptos as vitórias nos revelam para o bom e para o mau em função do que somos. Com este jogo, pessoalmente, aprofundei a ideia que as derrotas tem uma complexidade adicional pois definem-nos. Nesta definição, eu como Seahawk, sinto neste momento um estranho conforto a crescer. O conforto de sair das luzes da ribalta e ter paz, sabendo que o bom trabalho contínua. O conforto de saber que a equipa se vai reconstruir com base num inegável desejo de vitória. “O futuro é mais longo que o presente”. Se calhar não é por acaso que esta citação de Samuelson é uma das minhas favoritas.

#GO HAWKS!

About The Author

João Morão

As causas são múltiplas: Primeiro em 1998 colocado pela minha empresa na Alemanha, passei alguns fins-de-semana a jogar flag futebol numa base militar americana maioritariamente com a boa gente de Seattle. Desta altura vem o gosto. Depois em 2005 em Jackson Hole (Wyoming) assisti em directo à transmissão do Super Bowl XL dos meus Seahawks contra os Steelers. Foi um jogo de má memória e de pior arbitragem que me deixou um amargo permitido apenas pela perda de algo de que gostamos muito. Desta altura vem a militância. Finalmente: A desilusão e desgaste causado pelas assimetrias, manobras, golpadas e falta de fair-play do soccer, viraram-me definitivamente para um desporto mais justo, mais sério, mais competitivo, mais brutal (é certo), mas de maior entrega e de incomparavelmente maior emoção: O Futebol Americano. Nas horas “vagas” sou pai de 4 filhos (Um deles é dos Giants vai-se lá saber porquê!?).